Aos 58 anos, mulher que trabalha na lavoura desde menina entra na faculdade de Pedagogia, divide a rotina entre a enxada e os livros e se prepara para ser a primeira professora formada do Quilombo no interior do Brasil

Uma trajetória inspiradora prova diariamente que determinação supera obstáculos construídos ao longo da vida

Magno Oliver Magno Oliver -
Aos 58 anos, mulher que trabalha na lavoura desde menina entra na faculdade de Pedagogia, divide a rotina entre a enxada e os livros e se prepara para ser a primeira professora formada do Quilombo no interior do Brasil
(Foto: Reprodução / Instagram)

Aos 58 anos, dona Raimunda vive uma rotina que começa cedo na lavoura e termina entre cadernos, livros e atividades da faculdade.

Moradora do Quilombo Jussarinha, em Santana do Mundaú, no interior de Alagoas, ela trabalha na agricultura desde a infância e passou décadas longe da sala de aula.

Depois de voltar a estudar já na fase adulta, conquistou uma vaga no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde atualmente cursa o quarto período.

A meta é concluir a graduação e se tornar a primeira professora formada da comunidade quilombola.

A história representa uma mudança importante não apenas para a vida da estudante, mas também para o Quilombo Jussarinha.

Dona Raimunda lembra que foi a primeira mulher da comunidade a ser alfabetizada e acredita que a educação pode abrir novas oportunidades para crianças e jovens da região.

Mesmo conciliando os estudos com o cultivo de hortaliças, os cuidados com a família e o trabalho rural, ela afirma que desistir nunca foi uma opção. Mãe de oito filhos e avó, transformou o sonho adiado em um exemplo de perseverança para as novas gerações.

Educação que transforma

Comunidades quilombolas como Jussarinha ainda enfrentam desafios históricos relacionados ao acesso à educação. Pesquisas da Universidade Federal de Alagoas mostram que, por muitos anos, o número de moradores que conseguiam concluir os estudos era reduzido, realidade que reforça a importância da formação de profissionais da própria comunidade.

A presença de educadores com vivência local também contribui para valorizar a cultura, a identidade e os saberes tradicionais no ambiente escolar.

Legado para o futuro

Ao concluir a graduação, dona Raimunda pretende continuar vivendo no quilombo, dividindo o tempo entre a agricultura e a sala de aula.

O objetivo é levar conhecimento às crianças sem abandonar as raízes construídas na roça, mostrando que nunca é tarde para aprender e conquistar novos espaços.

Sua trajetória simboliza a força da educação como instrumento de transformação social e inspira outras pessoas a retomarem os estudos, independentemente da idade ou das dificuldades enfrentadas ao longo da vida.

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Magno Oliver

Magno Oliver

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Escreve para o Portal 6 desde julho de 2023.

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