Cientistas revelam que meninos nascidos após 1990 que praticavam esportes e brincavam na rua adquiriram essa habilidade fundamental
Brincadeiras livres e esportes em grupo expõem crianças a regras, decisões e conflitos que ajudam a exercitar capacidades importantes para a vida adulta

Quem cresceu brincando na rua provavelmente se lembra de partidas improvisadas de futebol, pega-pega, bicicleta, queimada e jogos inventados na hora. Além do exercício físico, essas situações colocavam as crianças diante de regras, conflitos e decisões que precisavam ser resolvidos praticamente em tempo real.
É justamente aí que aparece a habilidade destacada por estudos recentes: o autocontrole social, ligado à capacidade de controlar impulsos, prestar atenção e adaptar o comportamento ao que acontece ao redor. Pesquisas também associam esportes coletivos e brincadeiras ao ar livre ao desenvolvimento de funções executivas.
Na prática, brincar na rua não significa apenas correr ou gastar energia. A criança também precisa decidir quem começa, respeitar a vez dos colegas, aceitar quando perde, negociar regras e encontrar soluções quando surge uma discussão.
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Brincadeiras ajudam a exercitar o autocontrole
Uma pesquisa com 18.174 crianças dos Estados Unidos encontrou associação entre a participação em esportes coletivos e avanços no autocontrole social, atenção e funções executivas ao longo dos primeiros anos escolares.
Esse conjunto de habilidades ajuda a criança a pensar antes de agir, controlar respostas impulsivas e modificar uma estratégia quando alguma coisa não funciona.
Por isso, brincadeiras tradicionais de rua podem oferecer situações semelhantes às encontradas em esportes coletivos. Em uma partida improvisada, por exemplo, as próprias crianças frequentemente precisam combinar regras, dividir equipes e resolver desacordos para que o jogo continue.
Esse tipo de experiência também se relaciona às oportunidades de autonomia durante as brincadeiras livres. Um estudo citado na matéria acompanhou mais de 2,2 mil crianças e encontrou associação entre maior tempo de brincadeira não estruturada e autorregulação posterior.
Brincar ao ar livre também exige atenção
Outro estudo, realizado com crianças em idade pré-escolar, comparou momentos de brincadeira dentro e fora de ambientes fechados. Os pesquisadores observaram maior atenção em sala após períodos de brincadeira ao ar livre.
Além disso, a atividade física realizada durante essas brincadeiras apresentou relação com aspectos do controle inibitório, que corresponde à capacidade de interromper uma reação automática e escolher outra resposta.
Assim, atividades como jogar bola, andar de bicicleta, correr e participar de brincadeiras coletivas podem reunir movimento, convivência e desafios cognitivos ao mesmo tempo.
Pesquisas mais recentes também indicam que esportes nos quais o ambiente muda constantemente, como futebol e basquete, exigem percepção rápida, adaptação e tomada de decisões. Essas características podem oferecer estímulos importantes às funções executivas durante a infância.
Isso não significa, porém, que toda criança que brincou na rua necessariamente desenvolveu mais autocontrole do que quem não teve essa experiência. Os estudos mostram associações, e fatores como família, escola, características individuais e ambiente também influenciam o desenvolvimento.
Ainda assim, as evidências ajudam a explicar por que uma infância marcada por brincadeiras livres e esportes coletivos podia ensinar muito mais do que simplesmente jogar bola: era preciso negociar, esperar, decidir e aprender a controlar o próprio comportamento para que a brincadeira continuasse.
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