Goiana denuncia ter perdido R$ 86 mil após ser enganada com consórcio de crédito: ‘quase entrei em depressão, dinheiro suado’
Suspeita de ter feito mais de 10 vítimas é cantora de Anápolis, que se aproximava dos clientes para conquistar confiança

Imagine passar meses pagando um consórcio, se aproximar da vendedora, dar vários lances e descobrir que sua carta de crédito foi contemplada para, algum tempo depois, descobrir estar caindo em um golpe e acumular prejuízo de R$ 86 mil.
Foi isso o que aconteceu com Maria de Fátima da Silva, goiana de 58 anos que mora em Portugal. Vivendo no exterior há alguns anos, ela conta que tudo começou quando encontrou uma propaganda pelas redes sociais.
Acabou curtindo a postagem e, no dia seguinte, recebeu mensagens oferecendo o serviço. A filha de Maria de Fátima, Gabrielly Silva, explicou ao Portal 6 que a suspeita é Julliana de Freitas Pinheiro dos Santos, cantora e produtora cultural de Anápolis.
Há algumas semanas, Julliana foi assunto na imprensa por voltar aos palcos, depois de relatos de violência doméstica supostamente cometidos pelo ex-marido, Diego Antônio dos Santos.
Atualmente, a situação é tratada em dois processos judiciais, que correm em segredo de Justiça nas Varas de Família e Sucessões de Anápolis. Um deles começou em maio deste ano.
Até novembro de 2025, Julliana trabalhava na empresa de Diego, a BM Consórcios e Investimentos, que fica localizada no Jundiaí Industrial.
Segundo Gabrielly, Julliana teria usado da posição na companhia para oferecer as cartas de crédito. A jovem alega que existia um padrão de abordagem: a partir da entrada do cliente no consórcio, os primeiros boletos eram pagos normalmente.
Depois, a cantora começava a contar problemas pessoais. Compartilhava histórias do casamento, da família e chegava a alegar estar passando por um tratamento de câncer, enviando fotos no hospital para se aproximar das vítimas.
Em certo momento, a suspeita começou a chamar Maria Fátima de amiga, para então começar a supostamente pagar as parcelas por ela. Gabrielly relata que ela afirmava: “amiga, já paguei sua parcela esse mês, pode enviar diretamente pra mim”.
A jovem diz que, nesse modelo, as transferências feitas por Fátima eram destinadas não a contas da BM Consórcios, mas a Julliana, ao pai e à mãe dela.
Durante as conversas, a cantora mencionava alavancagem financeira e enviava áudios de outros clientes supostamente contemplados, para convencer a cliente a aderir ao sistema.
Como funciona a alavancagem financeira
A alavancagem financeira é um dos modelos usados nos consórcios para “adiantar” o resultado de um investimento feito a longo prazo. Ao adquirir uma carta de crédito, o cliente investe todos os meses durante um período determinado (seis anos, por exemplo).
Ele pode ter acesso ao crédito de três formas. A primeira é aguardar até o final. A segunda é por meio do sorteio, que todos os meses seleciona um número determinado de participantes para já ter acesso ao valor total.
A terceira é por meio dos lances. Funciona como um tipo de leilão: os clientes podem dar lances para tentar “comprar” o crédito antes do prazo final. O dinheiro utilizado vem “de fora”, mas é possível incluir parte do prêmio na própria tentativa.
Neste caso, alguém que dê um lance de 20 mil, por exemplo, e coloque um valor embutido de R$ 20 mil para tentar conquistar uma carta de R$ 100 mil, caso consiga, receberia apenas R$ 80 mil porque usou parte do valor para ter acesso a ele.
As pessoas que conseguem as cartas por meio dos lances são contempladas. Era por meio dessa ferramenta que Julliana estaria atuando, convencendo os clientes a darem lances para conquistar as cartas de crédito.
Gabrielly contou à reportagem: “minha mãe acreditava que existia ali alguma conexão. Depois de algum tempo, ela começou a fazer as transferências para a própria Julliana, mas ela não desconfiou. Ela pedia os acessos dos aplicativos para estar a par, mas nunca enviava. Dizia que estava com algum problema no sistema”.
“Depois de um tempo, minha mãe foi supostamente contemplada por R$ 1 milhão. Foi a minha primeira desconfiança, porque era muito dinheiro”. Foi quando Gabrielly entrou em contato com a vendedora, mas ouviu que “a contemplação fica investida dentro da empresa seis meses, para ver se o cliente não falha nenhum pagamento”.
A família começou a pedir os documentos, mas sem receber. “Nesses seis meses, ela falava para a minha mãe da alavancagem financeira, e minha mãe foi entrando em outras cartas”.
Enquanto isso, a vendedora pedia que a cliente enviasse os lances para conseguir ter acesso ao crédito. A proposta, aceita por Maria de Fátima ao acreditar estar “prosperando financeiramente”, era de se autocontemplar ao continuar investindo em outras cartas.
Sem acesso aos documentos
Gabrielly alega que, quando pedia os documentos a Julliana, recebia várias justificativas para não ter os acessos. Mortes de familiares, falhas no sistema e um diagnóstico de câncer entravam na lista, acompanhados de fotos no hospital.

Julliana teria relatado diagnósticos de saúde durante conversas. (Foto: Obtido pelo Portal 6)
Uma outra vítima, também moradora em outro país e ouvida pelo Portal 6 sob condição de anonimato, relata que tentou ligar para a vendedora diversas vezes, mas sem sucesso. Mônica (nome fictício) disse que nunca teve acesso ao aplicativo, por exemplo.
“A gente tem que baixar o aplicativo, é uma senha, e a empresa tem que fornecer a plataforma para nós acompanharmos. Eu sabia do aplicativo, perguntei para ela. Acho que precisei brigar uns quatro ou cinco meses, e ela sempre inventava uma desculpa: ‘depois a gente fala, depois a gente faz’.”
Mônica foi apresentada a Julliana por meio de Fátima e comprou duas cartas de crédito, de R$ 100 mil e de R$ 250 mil. Começou a notar os problemas logo no início.
“Nunca chegava o recibo. ‘Cadê o recibo?’ Falava que ia mandar. Chegava bloqueado. ‘Que senha colocou no recibo, no boleto?’ Costuma ser os últimos números do CPF, e não era. Comecei a fazer pressão”.
Com a insistência, recebeu o boleto digital. “Depois não precisava do recibo porque tenho conta no Nubank, então a fatura cai direto lá. Então eu não precisava mais dela”.
A vítima explica que não teve grandes prejuízos porque deixava as prestações a cargo da filha, e não da vendedora. Mesmo assim, também enviou um valor de R$ 5 mil para dar um lance em uma das cartas, para ser contemplada.
“Mandei o dinheiro em uma sexta-feira, e na terça ou quarta a Fátima descobriu que era golpe“, compartilha. A partir daí, procurou nas redes sociais para encontrar a supervisora na empresa de consórcios, que está no nome de Diego, ex-marido de Julliana.
Mônica conseguiu reaver os R$ 5 mil porque foi reembolsada por Diego, mas relata que foi a única das vítimas que conseguiu reverter o prejuízo.
Indicações e consequências
No início, Fátima acabou indicando o consórcio a outras pessoas, incluindo a filha, o marido e a nora. Ficava responsável pelo pagamento de todas as parcelas, o que somou o prejuízo de R$ 86 mil.
Quando surgiram as desconfianças, diz ter ligado para Julliana e ouvido que a contemplação, de fato, não existia. Mas só descobriu que os pagamentos também não estavam sendo feitos quando entrou em contato com a empresa do consórcio.
A família constatou que só existiam duas cartas, canceladas após os três primeiros meses por falta de pagamento. “Foi um choque, minha mãe quase entrou em depressão porque foi muito dinheiro suado”, conta Gabrielly.
Foi quando a jovem conseguiu localizar outras vítimas e levou o caso à delegacia. “Essa história é tão desgastante psicologicamente que ela diz ‘filha, deixa isso para lá’. Mas não é pelo dinheiro”.
Um dos problemas identificados pela família ao investigar o caso mais a fundo foram os dados errados fornecidos no sistema. Tanto Gabrielly quanto Mônica dizem que o e-mail e o telefone de Fátima informados por Julliana estavam incorretos, o que fazia com que as informações e atualizações não chegassem até ela.
O Portal 6 teve acesso a algumas denúncias feitas junto à polícia relatando os estelionatos. Em uma delas, a vítima diz que Julliana pediu R$ 30 mil para antecipar a contemplação do consórcio.
Em outro, a denunciante citava Julliana e também Diego, dizendo que eles usavam linguagem técnica, demonstravam segurança e enviavam simulações e documentos que aparentavam ser verdadeiros.
Quando uma das cartas, supostamente, foi contemplada, a vítima teria recebido um áudio de Diego confirmando e indicando onde o valor estaria investido e qual seria a rentabilidade durante a aplicação.
Julliana diz que defesa está analisando
O Portal 6 entrou em contato com Julliana Pinheiro, que disse “prestar uma breve declaração devidamente orientada pelo meu advogado”.
Afirmou que, “diante da gravidade e da complexidade dos fatos que estão sendo tratados, fui orientada juridicamente a não abordar, neste momento, questões relacionadas a fatos, documentos, áudios, prints ou demais elementos que possam envolver terceiros, clientes, administradores, meu ex-marido ou quaisquer outras pessoas mencionadas na apuração. Todos esses elementos serão tratados de forma adequada e juridicamente responsável pela minha defesa”.
Disse que está sendo submetida a ameaças e intimidações e que serão adotadas as providências jurídicas cabíveis. Pontuou que a defesa ainda não conseguiu analisar o conteúdo das acusações, mas esclareceu não ter conhecimento sobre processo judicial instaurado contra ela.
“Ressalto que não estou me recusando a prestar esclarecimentos. Estou apenas exercendo o meu direito de fazê-lo de maneira responsável, com orientação jurídica e no momento adequado.”
Diego diz que empresa também denunciou
O Portal 6 entrou em contato com Diego Antônio dos Santos, proprietário da BM Consórcios, que disse que estava ciente das denúncias apresentadas e que a empresa também formalizou uma denúncia contra a vendedora junto ao Ministério Público, por roubo, falsificação e estelionato.
Nas redes sociais, a companhia fixou uma publicação de 20 de fevereiro, onde comunica que Julliana Pinheiro “não faz mais parte do quadro de colaboradores desta empresa” desde 1º de novembro.

Postagem feita pela BM Consórcios indicando o desligamento de Julliana. (Foto: Captura de Tela)
O comunicado diz: “a partir da data acima, a referida ex-colaboradora não está autorizada a representar, negociar, intermediar ou assumir quaisquer compromissos em nome da BM Consórcios e Investimentos”. Diego diz que a postagem foi feita a pedido das administradoras de consórcios às quais presta serviço.
Ele relata que sofreu um prejuízo de R$ 75 mil e alega que não sabia do suposto golpe até ser procurado por Gabrielly. “Como a gente não tinha histórico da carteira de clientes, a gente nem sabia que eles existiam. E para eles, eram nossos clientes”.
“A gente não sabia deles, nem eles de nós. Só quando a Gabrielly entrou em contato com a administradora, a administradora entrou em contato com a gente, que fomos fazer a apuração e descobrimos todo mundo de uma vez só.”
*Colaborou Augusto Araújo.
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