Após Venezuela e Groenlândia, Estados Unidos passam a mirar o Brasil para a extração de minerais estratégicos

Disputa global por terras raras, nióbio e minerais críticos coloca o subsolo brasileiro no centro da nova geopolítica do século XXI

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
Empresa planeja produzir 05 mil toneladas de óxido de terras raras por ano em Goiás. (Foto: Divulgação/Serra Verde)
(Foto: Divulgação/Serra Verde)

Sem tropas, sem bases militares e sem anúncios oficiais, o Brasil passou a integrar um novo tabuleiro estratégico global. Depois de movimentos controversos envolvendo a Venezuela e a Groenlândia, os Estados Unidos voltam sua atenção para um ativo menos visível, mas decisivo: os minerais estratégicos enterrados no subsolo brasileiro.

A corrida não é por território no sentido clássico, mas por acesso, controle e previsibilidade em cadeias de suprimento consideradas vitais para tecnologia, defesa e transição energética. Terras raras, nióbio, lítio e grafite deixaram de ser apenas commodities e passaram a ocupar o mesmo patamar estratégico que o petróleo teve no século passado.

Os episódios recentes ajudam a entender o contexto. A crise venezuelana, marcada por instabilidade política e disputas externas, e a insistência do ex-presidente Donald Trump em tratar a Groenlândia como ativo estratégico dos Estados Unidos seguem uma mesma lógica: garantir acesso privilegiado a regiões ricas em insumos considerados essenciais para o poder global.

No caso da Groenlândia, estimativas indicam a presença de até um quarto das reservas mundiais de terras raras, além de grandes volumes de lítio, grafite, urânio, cobre, níquel, cobalto e petróleo. Sob o gelo, existe uma plataforma mineral de interesse direto para a indústria tecnológica, energética e militar norte-americana.

A mensagem é clara para países com potencial semelhante: quem controla minerais críticos entra automaticamente na agenda de segurança nacional das grandes potências. É exatamente nesse ponto que o Brasil surge como alvo silencioso.

A demanda global por esses insumos cresce em ritmo acelerado. Projeções internacionais apontam que alguns minerais críticos podem ter aumento de até 1.500% na demanda até 2050, impulsionados por carros elétricos, energias renováveis, data centers, armamentos avançados e equipamentos de alta precisão. Ao mesmo tempo, a China domina grande parte da extração e, sobretudo, quase todo o refino mundial de terras raras — um gargalo estratégico que os Estados Unidos tentam reduzir.

Mesmo com um decreto assinado em março de 2025 para estimular a produção doméstica, a geologia norte-americana não garante autonomia. A alternativa passa por diversificar fornecedores em países considerados aliados ou politicamente influenciáveis. Nesse cenário, o Brasil aparece como território-chave.

Estudos citados por órgãos oficiais indicam que o país concentra até 23% das reservas conhecidas de terras raras do planeta, mas responde por menos de 1% da produção global. O contraste entre potencial e exploração efetiva cria um ambiente ideal para a entrada de capital estrangeiro interessado em ocupar posições estratégicas antes da consolidação de uma indústria nacional robusta.

Um exemplo concreto desse movimento é a mineradora Serra Verde, primeira fora da Ásia a produzir terras raras em escala comercial. A empresa recebeu um aporte de US$ 465 milhões da Development Finance Corporation, braço financeiro do governo dos Estados Unidos. O modelo é discreto, mas eficaz: financiamento público estrangeiro operando por meio de uma empresa privada brasileira em um setor sensível da economia.

Se nas terras raras o Brasil ainda é promessa, no nióbio a realidade é outra. O país responde por cerca de 92% da produção mundial do metal, essencial para ligas de aço de alta resistência utilizadas em infraestrutura pesada, indústria aeroespacial, baterias e armamentos de alta tecnologia, incluindo mísseis hipersônicos.

Esse domínio quase monopolista transforma o nióbio em ativo geopolítico de alto valor. O tema ganhou visibilidade interna após declarações recorrentes do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que ampliou o interesse externo e reforçou a percepção de que a soberania sobre o subsolo brasileiro impacta diretamente cadeias globais de defesa e tecnologia.

O desafio é que grande parte dessas reservas está localizada em áreas ambientalmente sensíveis, como a Amazônia, ou em regiões com presença de povos tradicionais. Ao mesmo tempo, a ausência histórica de políticas industriais capazes de agregar valor aos minerais abre espaço para que países estrangeiros ocupem os elos mais tecnológicos da cadeia, deixando ao Brasil o papel de fornecedor bruto.

Com a pressão por flexibilização ambiental, aceleração de licenciamentos e atração de investimentos externos, cresce o risco de decisões estratégicas serem tomadas sob critérios definidos fora do país. A disputa pelo subsolo brasileiro já está em curso, mesmo que ainda não ocupe o centro do noticiário diário.

A questão que se impõe não é mais se o Brasil será tratado como território estratégico — isso já acontece —, mas se o país está preparado para negociar esse papel com autonomia, planejamento e visão de longo prazo, ou se corre o risco de repetir um padrão histórico em uma disputa que definirá o poder tecnológico das próximas décadas.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiário do Portal 6.

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