Agrônomos goianos concordam: a melhor forma de fazer o pé de pequi produzir não é regar mais, mas respeitar o ciclo do Cerrado
Em Goiás, o comportamento dos pequizeiros durante a seca pode enganar quem espera uma safra farta no quintal ou na propriedade
Quem tem um pé de pequi no quintal ou na propriedade rural pode estranhar o comportamento da árvore durante a estiagem. As folhas diminuem, a terra fica seca e, à primeira vista, aumentar a quantidade de água parece ser a saída mais lógica para estimular uma boa safra.
Com o pequizeiro, porém, a resposta não é tão simples. A espécie evoluiu justamente em um ambiente marcado pela alternância intensa entre meses secos e chuvosos e ajustou seu crescimento, floração e formação dos frutos a esse calendário natural.
Orientações técnicas desenvolvidas pela Emater Goiás e pela Embrapa Cerrados mostram que produzir pequi envolve muito mais do que aumentar a irrigação. Solo, genética, idade da árvore, época do ano, nutrição e até a presença de polinizadores entram na conta.
A seca faz parte da vida do pequizeiro
O comportamento que pode parecer sinal de sofrimento faz parte da estratégia natural da planta. O pequizeiro é uma espécie decídua e reduz parte da folhagem durante a estação seca.
A floração ocorre justamente próxima da transição entre a estiagem e o retorno das chuvas. Material técnico do governo federal aponta florescimento entre agosto e novembro, pouco antes do início da estação chuvosa em várias regiões do Cerrado.
É esse detalhe que muda a lógica do manejo. A árvore não precisa permanecer em uma condição semelhante à estação chuvosa durante todos os meses para completar seu ciclo.
A alternância ambiental funciona como parte do relógio biológico da espécie. Depois da florada, o avanço das chuvas coincide com etapas importantes da formação e do desenvolvimento dos frutos.
Essa relação também aparece em estudos feitos em Goiás. Trabalho da Universidade Federal de Goiás associou a época de maturação de frutos nativos, entre eles o pequi, à distribuição das chuvas no Cerrado.
Isso significa que não pode irrigar?
Não. A irrigação tem utilidade, especialmente em mudas e nos primeiros anos de implantação. O erro está em tratá-la como uma espécie de botão capaz de fazer um pequizeiro adulto produzir mais simplesmente pelo aumento da quantidade de água.
Um estudo publicado em 2025 no Journal of Arid Environments mostrou que a irrigação favoreceu o estabelecimento de mudas de Caryocar brasiliense. Mesmo assim, o crescimento das plantas foi maior durante a estação quente e úmida independentemente da irrigação, reforçando o peso da sazonalidade natural.
Pesquisa de doutorado que analisou o pequizeiro no campo também verificou maior sobrevivência de plantas jovens quando houve irrigação. As mudas, no entanto, apresentaram mecanismos próprios de resistência à estiagem, como raízes profundas, perda de folhas e estruturas capazes de armazenar reservas.
A recomendação histórica da Embrapa segue lógica semelhante. Para o estabelecimento das mudas, a instituição orienta umedecer bem a cova no plantio e realizar os tratos adequados, enquanto as adubações de cobertura são organizadas até o fim do período chuvoso.
Só água não decide a próxima safra
Outro motivo para um pé de pequi produzir pouco pode estar muito antes da irrigação. A Secretaria de Agricultura de Goiás destaca que a produção da espécie pode apresentar ciclos irregulares, inclusive com anos de maior carga seguidos de temporadas de baixa frutificação.
A genética também pesa bastante. Pesquisas conduzidas por Emater Goiás e Embrapa Cerrados ao longo de décadas resultaram no lançamento de seis cultivares de pequizeiro, três com espinhos no caroço e três sem, selecionadas justamente por características relacionadas à produção e ao manejo.
Os números mostram como uma árvore pode ser diferente da outra. A cultivar GOBRS 102, por exemplo, apresentou média anual de cerca de 50 kg e 167 frutos por planta nas cinco primeiras safras avaliadas. Outras cultivares alcançaram médias bastante diferentes no mesmo conjunto de pesquisas.
Até o calendário muda conforme o material genético. A GOBRS 101 floresce principalmente entre julho e agosto e concentra a maturação em dezembro, enquanto a GOBRS 203 tem maturação mais tardia, concentrada em janeiro e fevereiro.
Por isso, comparar dois pequizeiros apenas pela quantidade de água que recebem pode levar a uma conclusão errada.
Solo e manejo também entram na conta
O pequizeiro está adaptado às condições do Cerrado, mas isso não significa que qualquer solo ou qualquer manejo produzam o mesmo resultado.
Dados técnicos da Secretaria de Agricultura de Goiás apontam preferência por solos profundos e bem drenados, além de condições específicas de acidez e temperatura. Na implantação de cultivos, análise e correção do solo, adubação e condução adequada da planta são fatores relevantes.
A Embrapa e a Emater também recomendam podas de formação e sanitárias em plantios comerciais, principalmente para organizar a copa, retirar partes doentes e facilitar os trabalhos no pomar.
Há ainda um personagem que não pode ser substituído pela mangueira: o polinizador. O pequizeiro depende fortemente da polinização cruzada, e estudos registram morcegos nectarívoros entre os polinizadores efetivos da espécie.
Sem fecundação adequada das flores, uma florada aparentemente vigorosa não necessariamente se transforma em grande quantidade de frutos.
Uma árvore que não segue o calendário do quintal
Tudo isso ajuda a explicar por que o pequizeiro exige paciência. Plantas propagadas por sementes podem levar anos até entrar efetivamente em produção; referências técnicas apontam início normalmente a partir de aproximadamente oito anos, enquanto materiais enxertados e cultivares selecionadas permitem maior previsibilidade.
Também não existe garantia de que uma árvore carregada em determinada temporada repetirá exatamente o desempenho no ano seguinte.
Para quem cultiva pequi em Goiás, portanto, a melhor estratégia não passa por simplesmente compensar cada semana sem chuva com mais água. É preciso observar em que fase a planta está, preservar as condições de solo, garantir nutrição adequada e compreender que a estiagem não é uma anomalia no mundo do pequizeiro.
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