Bióloga e geneticista, ela criou em casa um queijo feito de castanha de baru e transformou o fruto do Cerrado goiano em negócio
Experimentos iniciados na cozinha de Niquelândia avançaram para feiras, consultorias e uma empresa voltada aos alimentos do Cerrado

Durante boa parte da carreira, Tanise Knakievicz imaginou que continuaria ligada principalmente à universidade. Bióloga, mestre em Genética e Biologia Molecular e doutora em Biologia Celular e Molecular, ela acumulou experiência como pesquisadora e professora antes de começar a olhar para os alimentos do Cerrado como objeto de pesquisa e, depois, de negócio.
A mudança começou dentro da própria casa, em Niquelândia, no Norte de Goiás. Em meio à pandemia, Tanise passou a testar diferentes ingredientes para desenvolver alimentos destinados também a pessoas com restrições ao trigo e ao leite.
As primeiras formulações não tiveram o resultado esperado. Foi quando a pesquisadora resolveu experimentar a castanha de baru e chegou a um produto de textura semelhante à de queijo, que daria origem à Angatu, empresa hoje voltada ao desenvolvimento de alimentos com matérias-primas do Cerrado.
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“Quando utilizei a castanha de baru, consegui desenvolver um queijo que deu certo. A partir daí, o produto começou a ganhar forma”, contou.
Das restrições alimentares aos testes com baru
A criação do produto não partiu apenas de uma ideia comercial. Segundo Tanise, havia uma combinação de interesses pessoais e profissionais por trás dos primeiros experimentos.
As restrições alimentares despertaram a procura por alternativas sem trigo e sem leite. Ao mesmo tempo, ela já discutia formas de diversificar a produção no campo sem necessariamente substituir culturas existentes, com atenção especial à agricultura familiar.
“E com esse potencial ainda de atender inclusão alimentar para as pessoas que não conseguem se alimentar, por exemplo, de trigo ou de leite”, explicou.
Ao Sebrae Goiás, Tanise acrescentou que a proposta também nasceu da intenção de aplicar metodologia científica aos recursos disponíveis para desenvolver soluções sustentáveis. Filha de agricultores, ela relata contato com a produção de alimentos desde a infância, quando aprendeu preparações como geleias, pães, queijos e manteiga.
A pandemia coincidiu ainda com a aproximação de programas e desafios de inovação. Nos anos seguintes, o projeto passou por iniciativas como Inova Cerrado, Faeg Jovem e Festival Gastronômico Josephina’s.
Por que o baru funcionou
A escolha da castanha também tem uma explicação ligada à composição do alimento. Tanise relata que encontrou no baru uma combinação de sabor, proteínas e gorduras que ajudou a alcançar a textura procurada durante os testes. “O baru lembra um pouco o sabor do queijo e agradou muito ao paladar”, afirmou.
Pesquisas acadêmicas ajudam a dimensionar essas características. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás identificou entre 23,8% e 28,1% de proteínas e entre 39,7% e 43,7% de lipídios nas amêndoas analisadas. Os autores também encontraram fibras, ferro e zinco em quantidades relevantes.
Uma análise mais recente, publicada em 2025 na revista Food Research International, encontrou teor de proteínas entre 21,6% e 24,2% em amostras coletadas em diferentes áreas do Centro-Oeste. O trabalho registrou ainda variações na composição conforme a região de origem das castanhas.
Esse último ponto se aproxima de uma das questões que Tanise pretende investigar. Como geneticista, ela considera possível que árvores diferentes produzam castanhas com características próprias, de maneira comparável às variações observadas em cafés e cacaus de diferentes origens.
Por enquanto, trata-se de uma possibilidade de pesquisa, e não de uma característica já demonstrada especificamente entre os baruzeiros utilizados pela empresa. A própria empreendedora reconhece que ainda há lacunas de conhecimento sobre a espécie.
Matéria-prima virou um dos desafios
Se a formulação começou na cozinha, levar o produto ao mercado criou outros problemas, aparecendo antes mesmo do preparo.
Segundo Tanise, armazenamento e conservação interferem diretamente na qualidade das castanhas compradas para a produção. “A cadeia produtiva ainda precisa evoluir muito. O armazenamento influencia diretamente na qualidade da castanha”, afirmou.
A questão é relevante porque o baru ainda depende de uma cadeia de produção menos padronizada do que matérias-primas agrícolas cultivadas em grande escala. Diferenças na origem, beneficiamento e armazenamento podem interferir nas características do ingrediente.
Ao mesmo tempo, o uso comercial da espécie pode ampliar a renda associada à vegetação nativa. Uma revisão científica publicada em 2024 destacou que o baru tem aplicações alimentares e potencial de contribuir para atividades ligadas à agricultura familiar, embora a expansão da cadeia também dependa de manejo e pesquisa adequados.
Negócio passou por profissionalização
Com o produto definido, a etapa seguinte envolveu questões que já não pertenciam ao laboratório ou à cozinha.
Tanise procurou consultorias do Sebraetec para desenvolver tabela nutricional, nome, identidade visual, presença digital e loja virtual. Até então, as vendas estavam concentradas principalmente em feiras e festivais.
O Angatu participou do Festival Gastronômico Josephina’s entre 2022 e 2025. Segundo o Sebrae, os eventos ajudaram na validação do produto e na aproximação com consumidores antes da ampliação das vendas pela internet.
O trabalho ainda permanece bastante centralizado. Tanise relata que participa da fabricação, pesquisa novas receitas, frequenta feiras e cuida de etapas administrativas do empreendimento.
Hoje, a loja da Angatu comercializa versões do produto de baru em sabores como natural, cheiro-verde e chancliche. A empresa mantém sede em Niquelândia.
Novos produtos estão em desenvolvimento
O queijo vegetal não encerrou os testes. Tanise também trabalha no desenvolvimento de uma linha de sorvetes utilizando outros ingredientes encontrados no Cerrado, entre eles jatobá, jabuticaba e maracujá.
A intenção declarada pela pesquisadora é ampliar o consumo de produtos nativos e, paralelamente, criar alternativas econômicas associadas à conservação do bioma.
“Precisamos trazer esses frutos para o cotidiano das pessoas. É assim que garantimos a preservação da biodiversidade”, afirmou a empreendedora.
No caso da Angatu, o processo ainda está em desenvolvimento e envolve desde questões científicas, como a caracterização da matéria-prima, até dificuldades comuns a pequenos negócios, como padronização, comercialização e organização da produção.
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