Lenda de serpente gigante teria impedido destruição de igreja durante corrida do ouro em Goiás

Uma ameaça misteriosa, transmitida entre gerações, teria ajudado moradores de Silvânia a proteger um dos monumentos mais antigos da cidade

Rebeca Ferreira Rebeca Ferreira -
Lenda de serpente gigante teria impedido destruição de igreja durante corrida do ouro em Goiás
Pintura de artista local retrata a lenda de uma cobra gigante que viveria adormecida sob a cidade de Silvânia, em Goiás. (Foto: Arquivo pessoal/Cida Sanches)

No coração de Goiás, uma igreja construída há mais de dois séculos guarda uma história que mistura medo, religiosidade e disputas por ouro. Durante gerações, moradores de Silvânia ouviram que algo terrível poderia acontecer caso o templo fosse destruído.

A narrativa atravessou o tempo, ganhou diferentes versões e chegou a influenciar a maneira como a população enxerga seu patrimônio. O mais curioso é que ela nasceu em um contexto histórico real de uma situação que atingiu a cidade.

Uma serpente gigante estaria adormecida sob a igreja

Segundo a tradição popular, uma cobra gigantesca dorme debaixo da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, em Silvânia.

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Sua cabeça estaria sob o templo, enquanto a cauda alcançaria o Poço da Roda, antiga escavação ligada à mineração.

Caso a construção fosse derrubada, a serpente despertaria e devoraria os habitantes.

A ameaça sobrenatural teria sido difundida quando mineradores avançaram com escavações próximas à igreja. Diante do risco de demolição, religiosos e moradores passaram a defender a preservação do edifício.

A corrida do ouro ajuda a explicar o surgimento da lenda

Silvânia, anteriormente chamada Bonfim, desenvolveu-se a partir da exploração aurífera, tradicionalmente situada por volta de 1774.

A Igreja do Bonfim tornou-se uma referência do povoado, recebendo uma imagem religiosa trazida da Bahia. Em 1782, o templo já possuía reconhecimento eclesiástico.

Com o avanço das escavações, parte das ruas foi destruída e a igreja acabou ameaçada.

O historiador Humberto Crispim Borges, em pesquisa publicada em 1981 e posteriormente recuperada por outros estudiosos, registrou que a exploração mineral chegou a colocar a construção em perigo durante as primeiras décadas do século XIX.

Lenda da seprente em Silvânia

Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. (Foto: Reprodução/ Governo de Goiás)

Registros antigos mostram diferentes versões da história

Uma publicação de outubro de 2008, assinada pela professora de História Cida Sanches, já descrevia a serpente como uma ameaça que despertaria caso a igreja fosse derrubada.

Entretanto, uma pesquisa acadêmica de 2022 recuperou outro momento da tradição.

Durante uma reforma iniciada em 1915, o padre Salomão Pinto Vieira decidiu substituir a antiga imagem de madeira do Senhor do Bonfim. A nova imagem foi instalada em 1920.

Segundo os pesquisadores, fiéis retomaram o temor da serpente para expressar preocupação com a substituição, acreditando que alterações na devoção poderiam despertar a criatura.

A região também preservou outra narrativa, a da Madre de Ouro, pedra preciosa de poderes sobrenaturais que estaria escondida no Poço da Roda. Essa tradição já aparecia em uma reportagem de 1999.

Historiadores investigaram a relação entre fé e preservação

Os pesquisadores Lucas Pedro do Nascimento, Maria de Fátima Oliveira, historiadora vinculada à Universidade Estadual de Goiás, e Maria Idelma Vieira D’Abadia estudaram os conflitos envolvendo o templo.

O trabalho examinou documentos paroquiais, jornais antigos e depoimentos de moradores.

Já o professor e escritor Edmar Cotrin relaciona a disseminação da lenda à resistência da população diante das escavações.

Não há comprovação de que uma ameaça sobrenatural tenha efetivamente impedido a demolição. O que os registros históricos demonstram é que a igreja enfrentou ameaças reais e se tornou objeto de disputas e mobilizações pela preservação.

A serpente se tornou parte da identidade de Silvânia

A tradição permaneceu viva por meio de histórias familiares, visitas escolares, livros e representações artísticas.

Cida Sanches, que também retratou a serpente em pinturas, incluiu a narrativa em trabalhos sobre a identidade cultural silvaniense.

Em 2025, a pesquisadora voltou a destacar as lendas locais em uma série dedicada ao ensino da história da cidade.

Hoje, mesmo sem qualquer evidência da existência da criatura, a serpente continua cumprindo uma função simbólica: lembrar como os moradores transformaram uma ameaça ao patrimônio em uma história capaz de atravessar séculos.

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Rebeca Ferreira

Rebeca Ferreira

Estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária do Portal 6. Atua na equipe desde setembro de 2026.