História de dois irmãos
Que não nos falte coragem para enfrentar o ódio e defender a democracia

Eram irmãos. Já não viviam no paraíso. Caim, o primogênito, era agricultor, e Abel era pastor de ovelhas. Certo dia, Caim ofereceu a Deus os frutos da terra. Abel, por sua vez, ofereceu os primogênitos de seu rebanho e a gordura dos animais.
De acordo com o mito bíblico, por uma razão não explicada, “Deus aceitou a Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta”.
A relação entre os irmãos se deteriorou, ao menos na perspectiva de Caim. Incapaz de lidar com a frustração, em vez de refletir sobre si mesmo, passou a enxergar Abel como inimigo. O irmão deixou de ser companheiro de jornada e se tornou um rival cuja eliminação parecia resolver seu conflito interior.
Caim convidou Abel para dar um passeio e o matou.
Deus apareceu e perguntou por seu irmão.
Caim respondeu: “- Não sei. Sou eu guardador do meu irmão?”.
Um ato imoral: negar a responsabilidade pela vida do outro.
Deus condenou Caim, mas colocou nele um sinal para impedir que fosse morto por quem o encontrasse. Deus não queria vingança. Condenado a vagar pelo mundo, Caim tornou-se errante.
Essa história é polissêmica. Cabe em inúmeras interpretações. As histórias, porém, não apenas nos convidam a interpretar seus personagens; também nos levam a reconhecer neles aspectos de nós mesmos.
Na maior parte das vezes, enxergamo-nos como se fôssemos Abel. Nunca como Caim.
Foi o pastor Ed René Kivitz, em um de seus livros, quem me alertou:
“Caim nos ensina que todo ser humano é capaz do mal e da maldade. Quem nega sua potência maligna está iludido de si mesmo, é ingênuo quanto à profundidade do dilaceramento da alma humana (…)”. Somos todos Caim.
Caim não é vítima de Deus nem das circunstâncias. Ele participou da construção das circunstâncias por meio de suas escolhas e de seus atos.
Há muito eu afirmo: “Quem trata o adversário como inimigo a ser eliminado acaba por transformar diferença em ameaça”. Quando negamos a responsabilidade de cuidar do próximo, repetimos a pergunta imoral de Caim “- Sou eu guardião do meu irmão?”.
Não somos espectadores inocentes da realidade que ajudamos a produzir. Quando ignoramos o sofrimento dos pobres, desprezamos os necessitados, aplaudimos o deboche e defendemos a eliminação dos adversários, aproximamo-nos de Caim.
Quando nos recusamos a reconhecer nossa responsabilidade social, política e humana, repetimos sua pergunta imoral: “- Sou eu guardador do meu irmão?”.
No Brasil de hoje, onde a política é um campo de escolhas morais, a extrema direita vem separando irmãos, transformando adversários em inimigos, estimulando o ódio e debochando da imagem de quem não lhe agrada.
Parodiando o filósofo, quem flerta com essa extrema direita também flerta com o abismo que habita o interior de cada um de nós. O perigo é nos transformarmos, nós mesmos, em abismo.
Que não nos falte coragem para enfrentar o ódio e defender a democracia; que não nos falte a humildade para reconhecer nossas próprias sombras e o compromisso de defender a vida.
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