Morre Constantino Júnior, fundador da Gol, aos 57 anos
Empresário foi também presidente da companhia aérea desde a sua fundação, em 2001, até 2012, quando passou a comandar o conselho

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Morreu neste sábado (24) o fundador e presidente do conselho de administração da Gol, Constantino de Oliveira Júnior, aos 57 anos. Ele passava por um tratamento de câncer.
O empresário foi também presidente da companhia aérea desde a sua fundação, em 2001, até 2012, quando passou a comandar o conselho.
A Gol informou que não divulgará informações sobre o velório e a cerimônia de despedida, pois ela serão privadas a familiares e amigos.
Júnior cursou administração de empresas na Universidade do Distrito Federal e participou do programa executivo de gestão corporativa da Association for Overseas Technical Scholarships em Yokohama, no Japão.
Antes de fundar a Gol, o empresário atuou entre 1994 e 2000 como diretor da Comporte Participações, grupo de transporte terrestre de passageiros no Brasil. Em 2004, já na companhia aérea, tornou-se membro do conselho de Administração, acumulando essa função com a presidência executiva até 2012.
Júnior também era aficionado pelo automobilismo. Ele foi piloto de carro de corrida, participando da Stock Car, e chegou a ser campeão da Copa Porsche.
Em nota, a Gol disse que “se solidariza com os familiares e amigos, expressando seus sentimentos e reconhecendo seu legado.”
“Sua liderança, sua visão estratégica e, sobretudo, seu jeito simples, humano, inteligente e próximo deixaram marcas profundas em nossa cultura. Os princípios estabelecidos por seu fundador fizeram a companhia crescer e hoje fazer parte de um grupo internacional. Eles seguem vivos na Gol e continuam transformando a aviação no Brasil”, afirma a companhia.
FAMÍLIA CONSTANTINO
Foi Nenê Constantino, já empresário do setor de transportes, que teve a ideia de investir numa companhia aérea. O plano inicial era comprar a Transbrasil, de acordo com o engenheiro José Carlos Mello, consultor de transportes há 35 anos que ocupa a vice-presidência da Gol.
“Encontrei com o Nenê no DNER [Departamento Nacional de Estradas de Rodagem]. Isso foi em 1998, 1999. Ficamos umas duas horas conversando embaixo de uma árvore. Desaconselhei a compra da Transbrasil e contei para ele que tinha um novo modelo de companhia aérea no mundo”, disse Mello em reportagem publicada pela Folha em 2007.
Esse novo gênero de companhia aérea, chamado em inglês de “low cost, low fare” (custo baixo, tarifa barata), foi o modelo da Gol. No início de 2000, numa sala do grupo Áurea em São Bernardo do Campo (SP), três pessoas começaram a esboçar a nova companhia aérea, segundo Mello: Júnior, o próprio Mello e Wilson Maciel Ramos, um especialista em informática que deixou a Vasp para ser vice-presidente de tecnologia e gestão da Gol.
A Southwest, uma empresa do Texas que chacoalhou o mercado regional americano, foi o modelo inicial. Em agosto de 2000, o trio que começou a Gol foi a Nova York visitar duas companhias que adotavam o modelo de baixo custo: a easyJet e a JetBlue.
Júnior, à época, tinha duas ou três certezas sobre a futura empresa, ainda segundo Mello: 1) A frota tinha de ser unificada em poucos modelos de avião porque a manutenção é mais barata; 2) Vendas pela internet também reduziriam custos; 3) Seria bobagem começar com dois ou três aviões; a frota mínima deveria ser de dez aeronaves para criar uma malha própria. Uma lição aprendida nas empresas de ônibus, a de que frota nova reduz custos de manutenção, foi aplicada na empresa aérea.
No dia 15 de janeiro de 2001, com seis aviões, e não dez, a Gol estreou no mercado brasileiro.
Júnior conduziu a Gol com um estilo oposto ao do criador de seu principal concorrente, o comandante Rolim Amaro, da TAM. Enquanto Rolim tornou-se garoto propaganda, Junior escondeu sua imagem o máximo que pôde e manteve a família longe da mídia.
Nunca alterava o tom de voz nas reuniões, segundo Netinho e Mello. “Fala baixo, pausado. É ‘british'”, contou Netinho à Folha.
A única vez que o executivo desabou foi no acidente do voo 1907, no qual morreram 154 pessoas, em 2006. “Ele ficou ferido na alma. Chorava que cortava o coração de quem via. Quem tem uma companhia focada em aviões novos e qualidade nunca imagina que um dia terá de usar a sala de crise”, conta Mello.
O empresário Amir Nasr atribui o autocontrole e o gosto pela competição de Júniorao período em que ele foi piloto. Correndo pela equipe de Nasr, ele foi vice-campeão sul-americano de F-3 em 1993. “Ele treinava das 6h às 8h da manhã e ia trabalhar. Tinha tudo para ser um piloto de ponta na F-1”, diz.
No ano seguinte, disputou corridas de Fórmula 3.000 na Inglaterra ao lado do escocês David Couthard e chegou a ser convidado para correr na F-1 pela Benetton. A altura de Júnior, 1,88 m, era incompatível com os cockpits da época, segundo o empresário.
Em uma prova da Porsche GT3 Cup, chegou em primeiro lugar, à frente do cineasta Walter Salles.





