E nós com a guerra em Gaza?
Faminta e miserável, Gaza é, do ponto de vista humano, um pesadelo (...) Suprimentos médicos são retidos nas fronteiras, ambulâncias são alvejadas ou avariadas, centenas de casas e terrenos agrícolas são destruídos

O que representa a guerra em Gaza? Primeiro, guerra só existe quando temos dois exércitos que se equivalem. Não é esse o caso em Gaza. Lá temos uma máquina de guerra israelense muito potente, equipada com um arsenal fornecido pelos Estados Unidos, Alemanha, Itália e França, despejando ferro e fogo num conjunto de centros urbanos habitados por milhões de palestinos. Do lado palestino, há uma força dispersa, que não conta com exército regular e nem com treinamento ou equipamento que o valha.
Então, nesse contexto, Israel não é vítima, embora o ataque do Hamas, em 07 de outubro de 2023, tenha sido cruel e tenha matado civis israelenses em área de fronteira. Esta tragédia ceifou em torno de 1.200 israelenses e fez mais de 200 reféns. O ato foi lamentável e deve ser condenado. O que não podemos fazer, no meu ponto de vista, é reduzir a reflexão apenas ao ato terrorista em si. Esse conflito tem uma longa genealogia.
Gaza é cercada, dos três lados, por uma cerca metálica. Aprisionados neste território, os palestinos são, na sua maioria, refugiados da sua própria sociedade, isso desde 1948. Em 2002, o escritor e crítico literário Edward Said, já registrara: “Aprisionados como animais, os habitantes de Gaza não podem se deslocar, trabalhar, vender os legumes e as frutas que cultivam, ir à escola… Eles estão expostos a ataques aéreos e, em terra, são abatidos como coelhos pelos carros blindados e metralhadoras.
Faminta e miserável, Gaza é, do ponto de vista humano, um pesadelo (…) Suprimentos médicos são retidos nas fronteiras, ambulâncias são alvejadas ou avariadas, centenas de casas e terrenos agrícolas são destruídos, centenas de milhares de árvores são derrubadas em nome de uma punição coletiva sistemática que visa os civis (…)”.
Os dados oficiais das Nações Unidas (de 12 de outubro de 2023 – Data on Casualties) sobre as vítimas em Gaza são: desde a retirada de Israel do território, em 2005, até 2008, as Forças Armadas de Israel mataram 1.400 palestinos, contra 13 israelenses; 170 palestinos assassinados em 2012; 2.200 palestinos assassinados em 2014; em 2018, uma manifestação pacífica contra o bloqueio da Faixa acabou em 189 mortos e 6 mil feridos; de janeiro a outubro de 2023, foram assassinados quase 6.400 palestinos, sendo mais de 5 mil em Gaza, e ferindo outros 158.440, as baixas israelenses somaram 310 (TRAVERSO, Enzo, 2024). Vou acrescentar: de outubro de 2023 até o fim de 2025, o governo de Israel admitiu ter matado mais de 70 mil palestinos em Gaza, e destes 67% são mulheres e crianças.
Não quero fazer um balanço de vítimas, do número de mortos de lada a lado, com o fim de dizer o que é pior. A morte de qualquer ser humano me diminui. Tirem as suas conclusões. Defendo o direito dos judeus à sua própria pátria. Contudo, os palestinos tem o mesmo direito. No Holocausto, quase vimos a história da morte e do mal vencer.
Felizmente, os judeus se renovaram, e mostraram a força da vida e da esperança. Mas, como afirmou o judeu Primo Levi, escritor e sobrevivente dos campos de extermínio: “A Shoah não confere um status de inocência ontológica a Israel”. Se o governo de extrema direita de Israel não parar a matança em Gaza, “o Holocausto pode perder todas as suas virtudes pedagógicas”, afirmou o historiador Enzo Traverso.
E nós, brasileiros, com isso? Acredito que palestinos e israelenses são símbolos mundiais. Estes dois símbolos são usados, também, por muita gente no Brasil – conscientemente ou inconscientemente, não sei – para expressar os seus medos, preconceitos e representações coletivas de “bem” e de “mal”. Said já afirmava que o Estado de Israel não é um talismã. Contudo, a mídia brasileira tem mostrado políticos que, querendo aparentar “santidade”, se deixam batizar nas águas do rio Jordão, ou, fotografar orando no “muro das lamentações”. Assim, a região é tomada pelo valor simbólico-religioso e mágico. Mas é claro: todos, de olho nos votos dos evangélicos em particular e dos sionistas cristãos em geral, carregam como um fetiche a bandeira de Israel e falam do “povo eleito de Deus”.
Denunciar as atrocidades cometidas por Israel é frequentemente tratado como “coisa de esquerdista pró-islâmico”; falar em genocídio contra o povo palestino é rotulado como “coisa de terrorista”; buscar uma visão equilibrada da questão, sem recorrer à leitura teológico-política de judeus e/ou evangélicos sionistas, passa a significar estar do lado de “comunistas e ateus” e ser acusado de antissemitismo.
Quem sabe se, com a paz em Gaza, poderíamos vivenciar uma redenção dos povos dessas regiões historicamente humilhadas, colocar um freio na possibilidade de atentados terroristas pelo mundo e, no Brasil, desmascarar os aproveitadores da ingenuidade religiosa no país. Afinal, o Estado de Israel de hoje não é o Israel dos tempos bíblicos, assim como os palestinos não são os amalequitas das guerras narradas na Bíblia.
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