Cientista encontra registros de civilização perdida há mais de 40 mil anos

Um pesquisador diz ter ligado símbolos em vários continentes a um “código” muito antigo, mas a hipótese é rejeitada por especialistas

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
Cientista encontra registros de civilização perdida há mais de 40 mil anos
Imagem ilustrativa (Foto: Reprodução/Flavia Corpas/Pexels)

Uma narrativa capaz de reescrever a história humana voltou a ganhar força nas redes e em tabloides internacionais. O autor é Matthew LaCroix, um pesquisador independente que afirma ter reunido “evidências” de um sistema simbólico global, supostamente criado para preservar conhecimento antes de catástrofes.

Segundo ele, marcas recorrentes em pedra, como formas em “T”, reentrâncias de três níveis e pirâmides escalonadas, surgiriam em regiões distantes demais para serem coincidência. A datação proposta também chama atenção: algo entre 38 mil e 40 mil anos.

A hipótese, porém, bate de frente com a arqueologia acadêmica, que contesta tanto a idade atribuída aos achados quanto a ideia de uma cultura avançada espalhando um “código” pelo mundo.

O que LaCroix afirma ter identificado em sítios pelo mundo

Em entrevistas e apresentações, LaCroix sustenta que existe um “padrão” repetido em estruturas antigas e que ele poderia indicar uma origem comum. A narrativa ganhou manchetes em veículos populares e em conteúdos derivados que replicam a versão do pesquisador.

Ele aponta a região do Lago Van, no leste da Turquia, como o centro do suposto sistema. O local é conhecido por concentrar sítios arqueológicos importantes e formações históricas ligadas a civilizações antigas, além de ser uma área estratégica na Anatólia.

Um dos itens citados como “peça-chave” é o chamado relevo de Kefkalesi, em basalto, que LaCroix interpreta como um “espelho” de símbolos vistos também no Egito e na América do Sul.

Por que arqueólogos contestam a teoria e a datação proposta

O principal choque está na cronologia. Para especialistas que estudam a região, Kefkalesi é associado ao universo urartiano, com referências históricas e pesquisas situando o sítio e seus elementos no contexto do Reino de Urartu, especialmente no período do rei Rusa II, séculos antes da era cristã, e não em dezenas de milhares de anos.

Há também um ponto metodológico: não existe, até aqui, um corpo de estudos revisados por pares sustentando a datação extrema defendida por LaCroix. Sem publicação acadêmica, os argumentos ficam dependentes de interpretações comparativas e leituras simbólicas, algo considerado insuficiente para “virar a chave” da história oficial.

Além disso, a arqueologia trabalha com a possibilidade de símbolos semelhantes surgirem de forma independente. Formas geométricas simples e motivos recorrentes podem aparecer em diferentes culturas por limitações de técnica, materiais e linguagem visual, sem necessidade de contato direto.

O que a ciência aceita sobre símbolos muito antigos

Embora a ideia de uma “rede global” seja controversa, o fato de existirem sinais e símbolos muito antigos é real. Pesquisas sobre marcas geométricas em contextos pré-históricos apontam que humanos já produziam sinais repetidos há dezenas de milhares de anos, especialmente em cavernas europeias, sem que isso signifique uma civilização avançada e conectada globalmente.

Em outras palavras, símbolos antigos podem indicar comunicação, rituais e pensamento abstrato, mas não provam, por si só, a existência de um “código mundial” centralizado. É justamente essa diferença entre evidência arqueológica e interpretação ampla que alimenta o debate.

Enquanto isso, sítios da região do Lago Van seguem sendo estudados dentro do que a literatura científica já documenta: um território com heranças de reinos antigos como Urartu e uma arqueologia complexa, porém bem mais recente do que a data proposta pelo pesquisador.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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