Anotações urgentes sobre o cuidado com as crianças
No relacionamento com filhos, netos, sobrinhos ou qualquer criança que Deus nos confie, há caminhos que ferem profundamente e que, por isso mesmo, precisam ser evitados

Em tom de brincadeira, um amigo costuma me dizer: “Experiência é tudo, mas a gente só a adquire quando já não há mais tempo para fazer muita coisa na vida”. Sempre achei que ele tem razão — ao menos em parte. Afinal, muitas vezes a experiência chega tarde demais. Mas há algo precioso que nos salva desse atraso: a possibilidade de aprender com a experiência do outro. E isso vale em qualquer idade.
Vivemos amparados por sabedorias que não nasceram em nós, mas que nos foram ofertadas como herança. São vozes que nos dizem: “Nunca acredite na primeira versão dos acontecimentos, toda história tem dois ou mais lados”; “Uma das evidências de que amamos alguém é a capacidade de permanecer em silêncio ao seu lado”; “Os momentos de alegria costumam estar cheios de gente, mas é na angústia que nasce o irmão”; “Ouvir as pessoas é uma forma profunda de falar com elas — e falar para elas pode ser apenas uma maneira de não as escutar”.
Foi pensando nessas experiências compartilhadas que revisitei antigos arquivos e anotações e me deparei com uma lista simples, porém contundente: atitudes que deveriam ser evitadas no trato com as crianças.
Não sei ao certo quando ou onde essas anotações surgiram, nem quem as escreveu originalmente, tampouco se fiz alterações ao longo do tempo. Mas sei de algo essencial: continuam verdadeiras. Continuam urgentes.
No relacionamento com filhos, netos, sobrinhos ou qualquer criança que Deus nos confie, há caminhos que ferem profundamente e que, por isso mesmo, precisam ser evitados:
1 – Violência: toda forma de agressão física ou verbal — beliscões, puxões, tapas, palavras duras.
2 – Humilhação pública: expor a criança ao constrangimento diante de familiares ou estranhos.
3 – Incompreensão: tratar suas angústias e medos como “bobagens”, ignorando sua dor real.
4 – Desencorajamento: enfatizar erros e falhas, rotulando-os como fracassos, sem reconhecer os esforços e acertos.
5 – Defraudação: prometer algo para obter obediência e depois não cumprir.
6 – Tirania: impor decisões sem diálogo, sem explicação, sem escuta.
7 – Hipocrisia: ensinar um caminho com palavras e trilhar outro com a vida.
8 – Negligência: nunca ter tempo, nunca estar presente, fazendo a criança sentir-se um peso ou uma intrusa.
9 – Superproteção: cuidar em excesso a ponto de sufocar, impedindo o crescimento e a autonomia.
10 – Inconstância: ora permitir, ora proibir; ora corrigir, ora ignorar — sem critérios claros, sem coerência amorosa.
Essa lista não é definitiva. Pode — e deve — ser ampliada ou revista à luz da experiência comunitária, que é viva, dinâmica e sempre pedagógica. Cada família, cada contexto, cada história pode contribuir com novos aprendizados.
Aprendi também, ainda nos primeiros passos da paternidade, algo libertador: não estamos livres de falhar com quem mais amamos. Falhei com meu filho — e ele, hoje pai, também poderá falhar com o seu. O mesmo se deu com a minha filha. Mas vejam: isso não nos condena; isso nos humaniza. Com base nesses fatos, mais importante do que evitar o erro é exercitar aquilo que repara e cura: o perdão. “Setenta vezes sete”, sem contabilidade, sem registro de débitos.
Para aprofundar ainda mais essa disposição interior, recordo uma meditação do teólogo Rubem Alves, que nos devolve ao coração do Evangelho. Ele nos lembra que a “justificação pela graça” nos ensina algo fundamental: a vida não é um problema a ser resolvido, mas um dom a ser acolhido. Deus não mantém livros de contas — nem de dívidas (que bom!), nem de méritos (que pena!). A vida e a morte já foram entregues à graça; a nós cabe apenas vivê-las como dádiva.
Viver assim é viver leve. É aprender a olhar o mundo com misericórdia. É carregar Deus no olhar. Ou, quem sabe, reaprender a olhar como uma criança.
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