Matar filhos por vingança, hipótese para caso em Goiás, é crime cometido mais por homens, mostram pesquisas
Pesquisas apontam que "filicídio" -assassinato de filhos pelas mãos de um dos pais- é um crime mais cometido por homens

O secretário de Governo de Itumbiara, Thales Machado, 40, atirou contra os dois filhos na madrugada de quinta-feira (12) e cometeu suicídio em seguida, apontam as investigações do caso.
O mais velho, de 12 anos, morreu e o mais novo, de oito anos, foi internado em estado gravíssimo e também não resistiu.
Nesta semana, a Justiça de Mato Grosso aceitou denúncia contra um homem acusado de matar o filho de dois anos. Ele teria asfixiado a criança para se vingar da ex-esposa, que viu com um amigo.
Em 2024, um homem foi preso por colocar chumbinho no mingau do filho de 4 anos para “causar dor à mãe”.
O filicídio, o assassinato de um ou mais filhos pelas mãos de um dos pais, não é um crime independente no Código Penal de 1940. Matar um descendente ou ascendente (ou seja, filhos ou pais) acarreta um agravante na pena de homicídio.
No entanto, a categoria “filicídio” é utilizada em estudos para diferenciá-lo de outros tipos de homicídio e compreender as motivações desse crime brutal.
Os casos de Goiás e Mato Grosso são parte de uma subcategoria minoritária: os filicídios de vingança. Em uma publicação nas redes sociais, agora apagada, Thales Machado acusou a esposa de traição o que, suspeita-se, teria sido a motivação para o crime.
Pesquisas mostram que os perpetradores de filicídios de vingança são predominantemente homens.
Não há diferença significativa no número de mulheres ou homens que matam seus filhos. E existe uma dezena de motivações catalogadas para que isso aconteça: surtos psicóticos, depressão pós-parto, agressão física que leva à morte. Mas quando a intenção é machucar ou causar dano ao parceiro ou ex-parceiro, pais viram a maioria.
Um estudo publicado em 2011 que analisou filicídios na Áustria e na Finlândia mostrou que vingança ou uma briga com o parceiro foram os motivos citados em 14 casos com perpetradores homens, contra apenas 3 mulheres. Além disso, eles também tinham uma predisposição maior de matar a parceira junto com os filhos.
Uma pesquisa sul-africana que identificou 20 casos de filicídio de vingança entre 2003 e 2021 encontrou 14 homens e seis mulheres como autores dos crimes. Outro estudo, da Holanda, mostra o mesmo padrão: 24% dos assassinatos de filhos cometidos por homens internados em um hospital psiquiátrico de Utrecht, entre 1953 e 2004, foram motivados por vingança. A taxa para as mulheres foi de 5%.
As raízes dessa disparidade estão atreladas à violência contra a mulher e à violência doméstica. Os estudos apontam que a sensação de perda de controle sobre o parceiro é uma das motivações comuns para os crimes.
No estudo sul-africano, um homem que matou três filhos, com idades de 1 a 6 anos, havia acusado a companheira de traição. Ele usou um machado para os assassinatos.
No crime de Goiás, a reação de parte da população contra a mãe das crianças mostra uma mentalidade preocupante: a de que a atitude da mulher justifica ou atenua a violência. Comentários feitos em perfis de veículos de imprensa vistos pela Folha de S.Paulo dizem que “os dois são culpados” ou que “a mulher pecou e sua família morreu”.
De acordo com sites de notícias locais, a mulher teve que deixar o velório do próprio filho após ouvir ameaças.
Derrubada pelo Supremo Tribunal Federal, a tese de “legítima defesa da honra” serviu para absolver réus por assassinato ou uma agressão, afirmando que os atos poderiam ser aceitáveis quando a conduta da vítima supostamente ferisse a honra do agressor.
Ela foi empregada, por exemplo, no julgamento do assassinato da socialite Angela Diniz por Doca Street, em 1976. Apenas em 2023 o STF decidiu que ela é inconstitucional, por contrariar os princípios da dignidade da pessoa humana, da proteção à vida e da igualdade de gênero.
Em resposta à absolvição de Doca, movimentos feministas criaram a campanha “Quem Ama Não Mata”.








