Jennette McCurdy, aliviada com a morte da mãe, dobra a aposta em livros polêmicos
Para atestar se foi ou não sorte de principiante, McCurdy estreia agora na ficção com sua segunda obra, "Metade da Idade Dele"

GUILHERME LUIS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Conhecida por interpretar a coadjuvante da série “iCarly”, Jennette McCurdy almeja que esqueçam que ela já foi atriz mirim. Hoje, aos 33, quer ser vista só como escritora, a mente por trás do livro de memórias “Estou Feliz que Minha Mãe Morreu”, sucesso que deu a ela um gostinho do que é ser protagonista, algo que nunca teve plenamente em Hollywood.
Para atestar se foi ou não sorte de principiante, McCurdy estreia agora na ficção com sua segunda obra, “Metade da Idade Dele”, que vem sendo considerada quase tão ou até mais polêmica que o livro anterior.
É que se McCurdy chegou pela primeira vez nas livrarias em 2022 às custas dos traumas que viveu com uma mãe abusiva – a ponto de admitir que a morte da mulher foi um alívio -, agora McCurdy retorna às prateleiras com uma personagem que também tem péssima relação com a mãe, e que transa com um professor bem mais velho.
“Não escrevo pela polêmica, mas não estou aqui para criar algo preguiçoso, sem substância”, afirma a americana em entrevista por vídeo. “Confio nos meus leitores, em pessoas inteligentes que conseguem lidar com temas complexos, que formam as suas próprias opiniões, que pensam de forma profunda.”
“Metade da Idade Dele” chega ao Brasil depois de causar polêmica lá fora, onde saiu no começo do ano. A começar pela imagem da capa, em que uma garota lambuza com vontade os próprios dedos, enfiados na boca de forma sugestiva. Nas páginas, conhecemos Waldo, estudante de 17 anos que fica obcecada por Korgy, de 40, o professor de escrita com quem ela decide fazer sexo na escola.
O livro é repleto de cenas eróticas. Já no começo, Waldo se pega pensando como dispensar o garoto com quem está tendo uma transa tão ruim que a deixa entediada. Noutra passagem, mais à frente, a personagem leva o professor a ejacular dentro da calça, e, enquanto a mancha se espalha, pensa que lamber é a melhor forma de limpá-la.
Lembra “Lolita”, o clássico de Vladimir Nabokov, embora aqui a mocinha tenha mais agência sobre o desenrolar de um relacionamento que se mostra no mínimo problemático. McCurdy diz que adora a obra dos anos 1950, mas não se inspirou nela.
O tom provocativo do seu texto agrada uns, enoja outros. Críticos do jornal The New York Times e do britânico The Guardian elogiaram a trama dizendo, por exemplo, que ela é ousada, agrada aos tarados, e que McCurdy é magistral ao narrar as cenas lascivas – escritas várias vezes até ficarem no ponto, diz.
Outros leitores, porém, foram às redes sociais para dizer que McCurdy suaviza a imagem do professor, que para eles deveria ser tratado como abusador, e que terminaram a leitura irritados com a protagonista – Waldo, afinal, é consumista, fútil e amarga. Mas a autora não se incomoda. “Eu queria que ela fosse mesmo espinhosa e complexa, não apenas excêntrica.”
Na vida real, a própria McCurdy namorou um homem mais velho – ela tinha 18, e ele mais de 30. Mas, aqui, arte não imita a vida, e autora diz que se engana quem tenta traçar paralelos entre criadora e criatura. “Vão me projetar na Waldo, mas essa é uma leitura equivocada.”
É difícil, porém, não relacionar os traumas familiares da escritora com os de Waldo, que custa se entender com a progenitora. “Quando eu tinha sete anos, minha mãe disse que era difícil me amar”, diz a personagem, cuspindo uma frustração, meio como a própria McCurdy fez ao expor as agressões da mãe em sua obra de estreia.
A ex-atriz nega a relação e diz que escrever não é a sua forma predileta de exorcizar demônios. “Este é o meu trabalho. Qualquer coisa que eu precise entender, levo para minha terapeuta.”
Em “Estou Feliz que Minha Mãe Morreu”, a escritora narra como se deteriorou uma relação da qual ela esperava mais afeto. Segundo o relato, sua mãe, Debra, mandava no que Jennette deveria comer, fazer, desejar.
A mulher se preocupava especialmente com o corpo da filha, e fazia até inspeções durante o banho. McCurdy diz que acabou desenvolvendo transtornos alimentares. O pai, meio banana, mal tinha voz dentro de casa.
Fora um desejo da mulher, e não da filha, fazer a garota brilhar em Hollywood. Por isso, Debra deu um jeito de inscrever Jennette em testes de elenco.
Após papéis pequenos, Jennette McCurdy parou em “iCarly”, aposta da Nickelodeon para fisgar o público jovem, lançada em 2007. A ideia do canal era criar um produto que rivalizasse com sucessos da Disney como “Hannah Montana”.
Deu certo, e “iCarly” virou febre com a história de uma adolescente que cria um programa na internet. A série transformou o rosto de McCurdy em um dos mais conhecidos da época – ela era Sam Puckett, a amiga da protagonista.
Sam era tão querida que depois ganhou sua própria série, “Sam & Cat”. “iCarly”, por sua vez, teve uma sequência em 2021, sob a onda de nostalgia que se alastra por Hollywood.
Mas McCurdy, já mais velha e afastada da televisão, se recusou a voltar, e a obra teve de dar um jeito de explicar a ausência da sua personagem. À época, ela disse em entrevistas que se arrependia de ter virado atriz. Um ano depois, lançou o livro que mudaria a sua vida.
Na obra, ela aborda como um sistema que lucra com crianças disciplinadas – no caso, a televisão americana -, pode piorar relações familiares. O tratamento de atores mirins virou tema de debate nos últimos anos após denúncias de comportamento inadequado envolvendo Dan Schneider, produtor da Nickelodeon. Nas páginas do seu livro, aliás, McCurdy relembra situações desconfortáveis dos bastidores.
“Hoje eu amo sentir raiva. É uma emoção que impulsionou escolhas importantes da minha vida”, ela diz. “Raiva raramente surge quando tudo está bem. Ela te diz que algo precisa mudar. Foi ela que me fez superar um transtorno alimentar, me tirou de relacionamentos não saudáveis, e guiou parte da escrita do livro novo. É um combustível valioso.”
McCurdy ganhou mais dinheiro como escritora do que como atriz. “E não importaria se não me rendesse dinheiro. Nunca pensei que mudaria de carreira para ganhar mais. Era só o que eu queria fazer, então fui lá e fiz.”
Apesar desse discurso, McCurdy acabou cedendo a Hollywood. “Estou Feliz que Minha Mãe Morreu” vai virar série no Apple TV com Jennifer Aniston no papel da mãe e roteiro da própria McCurdy.
A equipe dela avisou, porém, que este era assunto proibido na entrevista. Fizeram várias outras restrições – pediram, por exemplo, que McCurdy não fosse tratada como “ex-atriz mirim” na reportagem, mas “escritora best-seller”.
McCurdy confirmou que rejeita a alcunha ao dizer que não ouve alguém chamá-la desse jeito há tempos. “Foi-se o tempo em que eu fazia o que me mandavam fazer. Hoje eu dirijo minha própria vida.”
METADE DA IDADE DELE
– Preço R$ 69,90 (256 págs.); R$ 46,90 (ebook)
– Autoria Jennette McCurdy
– Editora Intrínseca
– Tradução Carolina Simmer
Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!







