Estudante da UFG vai à Justiça após ser vítima de comentário racista em grupo de WhatsApp: “nunca tinha passado por uma situação como essa”
Ao Portal 6, aluno acusado afirmou estar sendo vítima de perseguição, com motivações políticas por trás de "campanha de calúnia e difamação"

Um estudante da Universidade Federal de Goiás (UFG) foi denunciado na Justiça, sob a suspeita de ter cometido injúria racial contra um outro aluno da instituição, por meio de mensagens em um grupo de WhatsApp.
Conforme consta no processo judicial, Ricardo César Santa Cruz Rodrigues Modesto era integrante de um grupo esportivo da Herdeira, uma associação atlética que reúne alunos dos cursos de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas.
No dia 27 de abril, enquanto os participantes do grupo comentavam sobre os adversários da Atlética Emissiva, que iriam enfrentar em uma partida de basquete, o suposto autor enviou uma foto de Papa Djeng Augusto Ndiaye, aluno de Engenharia Mecânica pela UFG.
Porém, junto à imagem, Ricardo também enviou um comentário: “Esse cara parece perigoso”. Momentos depois, um outro integrante do grupo comenta “não é”, no que o suspeito responde: “Eu me referia no contexto de ver a noite na esquina. Mas fiquei com medo do cancelamento”.

Mensagens enviadas em grupo de WhatsApp tiveram repercussões que terminaram na Justiça. (Foto: Reprodução)
Posteriormente, o suposto autor chegou a apagar a mensagem e enviou um pedido de desculpas, classificando a fala como um “comentário/piada infeliz”.

Mensagem enviada por Ricardo momentos após apagar os comentários anteriores sobre Papa Djeng. (Foto: Reprodução)
Contudo, o advogado Gabriel Sagrillo, responsável pela defesa de Papa Djeng, argumenta que a conduta praticada por Ricardo poderia ser classificada, em tese, como o crime de racismo. Crime este que pode ter pena aumentada por ter sido praticado de forma “recreativa” – ou seja, no intuito de “descontração” ou diversão).
“A fala não é um equívoco; é a exteriorização do estigma racial que associa o corpo negro à criminalidade e à periculosidade”, ressaltou na peça jurídica.
Repercussão
Após o caso vir à tona, ambas as atléticas envolvidas na situação se posicionaram.
A Emissiva fez uma nota repudiando o ocorrido, defendendo seu atleta e destacando: “Não há espaço para atitudes racistas dentro do esporte, da universidade ou de qualquer ambiente da sociedade. O esporte universitário deve ser um espaço de respeito, união, competitividade saudável e inclusão, jamais de violência, discriminação ou preconceito.”
A Herdeira, por outro lado, emitiu um comunicado no qual se referia a Ricardo como ex-atleta e também manifestou apoio à Papa Djeng:
“No momento, pedimos sinceras desculpas à vítima pela violação de sua integridade e dignidade, e nos colocamos à disposição para oferecer apoio jurídico, emocional e psicológico, visto que, naquele momento, o atleta representava nossa instituição, da qual agora não faz mais parte. À vítima, manifestamos nosso sincero apoio, nossas desculpas e o reconhecimento da legitimidade de toda e qualquer decisão que venha a ser tomada em seu favor”.
Susto
Ao Portal 6, Papa Djeng afirmou ter ficado assustado com a situação, assim que chegaram para ele os prints com as mensagens de Ricardo.
“Nunca tinha passado por uma situação como essa, pelo menos não que tenha chegado até mim”, afirmou o estudante, de 24 anos.

Papa Djeng é estudante de Engenharia Mecânica na UFG. (Foto: Arquivo Pessoal/Papa Djeng Augusto Ndiaye)
Apesar da surpresa inicial com o ocorrido, o jovem destacou que recebeu apoio das atléticas envolvidas, além dos próprios familiares e amigos.
Papa Djeng também afirmou que não conhecia o suposto autor antes do ocorrido, e que por meio de sua defesa, tentou fazer um acordo extrajudicial, exigindo indenização por danos morais, além de uma nota de retratação. Contudo, o acusado não teria respondido à notificação e a defesa levou o caso para a Justiça.
Por fim, o estudante deixou uma mensagem a respeito do caso que está vivenciando.
“A gente está vivendo em uma época que vemos um aumento de casos de racismo pra todo lado, principalmente nas redes sociais. Eu acredito que o racismo, seja ele odioso, recreativo, institucional, estrutural ou de qualquer outra forma, deve ser combatido com tolerância zero, para desencorajar que qualquer pessoa reproduza esses comentários e ache que vai sair impune por se tratar de piada”.
“Movimento da extrema esquerda”
A reportagem também conversou com Ricardo César, que se defendeu afirmando nunca ter praticado qualquer injúria e que sequer conhecia a suposta vítima.

Ricardo César Santa Cruz Rodrigues Modesto é acusado de injúria racial. (Foto: Reprodução)
Além disso, o estudante – que também é advogado e possui graduação em Direito pela UFG – afirmou que, ao dizer que Papa Djeng parecia perigoso, se referia ao contexto esportivo.
“O comentário fazia referência a altura e ao porte físico do referido atleta e nenhum colega havia interpretado qualquer intenção injuriosa naquele momento”, disse em mensagem enviada ao Portal 6.
Ricardo também afirmou que o episódio, na realidade, se trata de uma campanha de calúnia e difamação, iniciada por um antigo colega de time, com o qual tinha um histórico de inimizade pessoal.
Segundo ele, este companheiro estaria mal-intencionado e teria se aproveitado da situação para prejudicá-lo, com imagens manipuladas e retiradas de contexto.
Ricardo também afirmou haver motivações “partidárias” de alunos da UFG, em decorrência de uma suposta posição política extremista por parte dos envolvidos.
“Tudo se trata de uma campanha dos movimentos de extrema esquerda da UFG. Nunca pratiquei qualquer injúria e terceiros fizeram um ‘telefone sem fio’ para convencer a suposta vítima que pratiquei qualquer injúria”, salientou.
Por fim, o advogado, que representa a si mesmo, ressaltou que vai apresentar um pedido de reconvenção na esfera cível – uma espécie de “contra-ataque”, no qual um réu em um processo abre uma ação contra o autor deste mesmo processo – solicitando indenização financeira por parte dos agentes responsáveis pelo episódio.
“Da mesma forma, irei apresentar queixa-crime por calúnia e difamação contra o referido mal afeto pessoal e, infelizmente, também contra o Papa Dieng, o qual eu não conheço e nunca troquei qualquer palavra virtual ou presencial”, concluiu.
Tramitação
Atualmente, existem dois processos correndo na Justiça. Um é na esfera civil, na qual a defesa de Papa Djeng solicita uma reparação por danos morais.
A outra é na esfera criminal. Ao Portal 6, o advogado Gabriel Sagrillo afirmou que foi apresentada uma queixa-crime na Polícia Civil (PC), que agora investiga Ricardo pelos supostos crimes de calúnia e difamação.
Caso conclua haver crime, o inquérito será encaminhado para o Ministério Público, para os devidos processos legais.
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