O monstro nem sempre mora na rua. Às vezes, senta à mesa da família
Combater esse crime não significa apenas prender agressores. Significa identificar famílias adoecidas, fortalecer escolas e agir antes da tragédia
Maio termina, as campanhas do Maio Laranja desaparecem, mas a violência sexual contra crianças e adolescentes continua acontecendo. Sou médico legista e já testemunhei situações que desmontam a idéia confortável de que esse tipo de violência acontece apenas “na casa dos outros”.
Em um atendimento no IML, uma adolescente de 16 anos, grávida, chegou após sofrer agressão física praticada pelo próprio pai. O contexto revelava exploração sexual e profunda desestruturação familiar envolvendo justamente pessoas que deveriam representar proteção e segurança. Um de seus clientes era o próprio tio paterno.
Relato esse caso não para chocar, mas para lembrar que, muitas vezes, o maior perigo para uma criança não está na rua, mas dentro de casa, protegido pelo silêncio, pela omissão e pela degradação dos próprios vínculos familiares.
A exploração sexual raramente surge de forma isolada. Ela costuma nascer em ambientes marcados por medo, abuso de poder, negligência e falhas sucessivas de proteção. Por isso, combater esse crime não significa apenas prender agressores. Significa identificar famílias adoecidas, fortalecer escolas, preparar profissionais e agir antes que a tragédia aconteça.
Participamos da elaboração de uma Lei Municipal sobre o tema, iniciativa importante, mas insuficiente se tudo continuar restrito às campanhas de maio. O Maio Laranja termina amanhã. A responsabilidade da sociedade, não.
Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!








