A psicologia afirma que pessoas que releem os mesmos livros não buscam apenas a história, mas reencontrar quem eram quando leram pela primeira vez

Voltar a histórias conhecidas pode oferecer conforto emocional e revelar como experiências, valores e interpretações mudaram com o tempo

Gabriel Dias Gabriel Dias -
A psicologia afirma que pessoas que releem os mesmos livros não buscam apenas a história, mas reencontrar quem eram quando leram pela primeira vez
(Foto: Reprodução)

Há pessoas que acumulam dezenas de livros ainda não lidos, mas continuam voltando às mesmas histórias. Embora esse comportamento possa parecer falta de curiosidade, a psicologia apresenta outras possíveis explicações.

Reler uma obra conhecida pode trazer conforto, despertar lembranças e permitir que o leitor observe mudanças na própria forma de pensar. Afinal, o texto permanece igual, mas a pessoa que retorna às páginas já viveu novas experiências.

Por isso, personagens anteriormente admirados podem passar a provocar incômodo. Da mesma forma, trechos que pareciam irrelevantes em uma primeira leitura podem ganhar outro significado anos depois.

Por que algumas pessoas releem os mesmos livros?

Uma das explicações está na familiaridade. Como o leitor já conhece o enredo, os personagens e o desfecho, a experiência pode oferecer previsibilidade em momentos de estresse ou incerteza.

Além disso, a ausência da ansiedade para descobrir o que acontecerá permite prestar atenção a outros detalhes. O leitor pode observar melhor a construção dos personagens, os temas abordados e até informações que passaram despercebidas anteriormente.

Uma pesquisa realizada em 2025 com 2 mil leitores norte-americanos indicou que a nostalgia está entre os principais motivos para reler livros. Os participantes também mencionaram o desejo de reencontrar personagens, ambientes e sensações associados às obras favoritas.

No entanto, não existe uma única explicação válida para todos. Enquanto algumas pessoas buscam segurança emocional, outras simplesmente apreciam a escrita ou desejam compreender melhor uma história complexa.

Releitura pode mostrar como o leitor mudou

Ao retornar a um livro depois de alguns anos, a pessoa costuma interpretá-lo a partir de uma nova fase da vida. Relacionamentos, perdas, amadurecimento e mudanças profissionais podem influenciar a maneira como cada passagem é compreendida.

Nesse sentido, o livro funciona como um ponto de comparação. Anotações nas margens, frases sublinhadas e lembranças da primeira leitura ajudam a recuperar pensamentos e emoções daquele período.

Essa ideia se relaciona ao conceito de identidade narrativa estudado pelo psicólogo Dan McAdams. Segundo essa abordagem, as pessoas constroem uma noção de identidade ao organizar acontecimentos da vida em histórias que dão continuidade e significado à própria trajetória.

Isso não significa que reler determinada obra tenha, por si só, um efeito terapêutico comprovado. Porém, a atividade pode estimular reflexões sobre quem a pessoa era, como interpretava o mundo e o que mudou desde então.

Livro conhecido pode funcionar como memória afetiva

Livros também podem ser associados a períodos, lugares e pessoas importantes. Uma edição antiga, por exemplo, pode lembrar a adolescência, uma viagem ou alguém que presenteou o leitor.

Assim como músicas e aromas despertam recordações, trechos conhecidos podem recuperar emoções ligadas a momentos específicos. Nesse caso, a vontade de reler não está relacionada apenas ao conteúdo da obra, mas também às memórias construídas ao redor dela.

Por esse motivo, algumas pessoas mantêm um pequeno grupo de títulos favoritos durante décadas. Cada retorno permite reencontrar tanto a história quanto uma versão anterior de si mesmas.

Reler não significa resistência ao novo

Escolher novamente um romance conhecido não indica necessariamente medo de mudanças ou falta de interesse por outras obras. Muitas pessoas alternam novidades com livros familiares.

Além disso, a releitura pode ser mais complexa do que a primeira experiência. Como o desfecho já é conhecido, o leitor consegue identificar pistas, ambiguidades e escolhas narrativas que antes estavam escondidas.

Portanto, o hábito pode representar aprofundamento, e não repetição automática. A interpretação também muda conforme a idade, o contexto cultural e as experiências acumuladas.

Quais são os benefícios da leitura?

A leitura envolve atenção, linguagem, memória e imaginação. Nas obras de ficção, o leitor ainda acompanha diferentes perspectivas, interpreta motivações e tenta compreender as emoções dos personagens.

Estudos sugerem uma relação entre a leitura de ficção e a cognição social. Uma meta-análise encontrou um efeito positivo pequeno sobre habilidades usadas para compreender pensamentos e sentimentos de outras pessoas. Entretanto, os próprios pesquisadores ressaltam que os resultados não justificam conclusões exageradas.

Outro estudo apontou que a ficção pode influenciar a empatia quando o leitor se envolve emocionalmente com a narrativa. Portanto, o possível efeito depende da experiência de imersão, e não apenas do ato de passar os olhos pelas páginas.

Assim, tanto histórias novas quanto conhecidas podem fazer parte de uma rotina saudável de leitura. No caso das releituras, o diferencial está na possibilidade de comparar interpretações, recuperar memórias e perceber mudanças pessoais.

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Gabriel Dias

Gabriel Dias

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG). Apaixonado por Telejornalismo e Jornalismo Cultural.

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