Até a próxima aposta: como as bets mexem com o cérebro e alimentam um ciclo de dependência
Especialistas explicam como recompensa, tolerância e vulnerabilidade ajudam a manter apostadores no jogo, enquanto crescem no país as buscas por bloqueio e tratamento

A sensação que muitos brasileiros têm tido, ultimamente, é de que as bets dominaram o espaço das apostas, seja nos outdoors, nos anúncios publicitários espalhados pela internet e até na transmissão dos jogos de futebol.
Com acesso facilitado e promessas de recompensas altas, elas têm atraído cada vez mais pessoas, deixando para trás um rastro de vícios e endividamento.
Segundo uma pesquisa Quaest divulgada em abril, 29% dos brasileiros dizem que costumam apostar nas bets. O público principal seriam os homens (33%, contra 21% das mulheres), com 35 anos ou mais (30%, contra 27% de 16 a 34 anos).
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O levantamento ouviu 2.004 participantes em todas as regiões do país – mas, em números ampliados, a estimativa é de que a resposta valeria para 61,8 milhões de pessoas.
Em dezembro de 2025, o cenário chegou a motivar o Governo Federal a criar uma plataforma de autoexclusão, onde os brasileiros podem bloquear o próprio CPF para impedir que ele seja usado em sites e aplicativos de apostas regularizados.
Até junho deste ano, quase 700 mil pessoas tinham acessado a ferramenta para serem automaticamente retiradas e bloqueadas das bets e das publicidades relacionadas. Puderam escolher o período de indisponibilidade: por um, três, seis, doze meses ou um prazo indeterminado.
A questão tem nome
O vício do jogo é conhecido como ludopatia. A nomenclatura tem ganhado cada vez mais atenção atualmente, mas é reconhecida na Classificação Internacional de Doenças Mentais (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde a década de 1990.
Desde então, a condição passou por algumas alterações. Primeiro, foi entendida como “jogo patológico” – que Daniel Gamero, psiquiatra que atua no Ânima Centro Hospitalar, em Anápolis, explica: “era considerada uma alteração no controle do impulso”.

Daniel Gamero é psiquiatra. Ele atua no Ânima Centro Hospitalar. (Foto: Arquivo pessoal)
Foi somente em 2013 que o termo foi trocado por “transtorno do jogo”, passando a integrar o mesmo grupo de doenças que as dependências. “Ela é a única que não tem uma substância ativa, mas se percebeu que atuava exatamente como as outras substâncias”, diz o profissional.
João Goulart, psicólogo goiano que atua no projeto Linhas de Fuga, detalha que a questão abrange diversos aspectos, sejam eles sociais, biológicos, psicológicos ou emocionais. Para ele, trata-se de um tema que precisa ser analisado para além da lógica do transtorno.
O profissional detalhou ao Portal 6 como as apostas (sejam elas online ou não) podem afetar o ser humano em todas essas camadas. Na questão biológica, por exemplo, as bets se tornam nocivas porque mobilizam certos circuitos do sistema nervoso.

João Lucas Goulart é psicólogo clínico, especialista em Hematologia e Hemoterapia. Atua no projeto Linhas de Fuga. (Foto: Arquivo pessoal)
João explica que o ato de jogar libera um neurotransmissor chamado dopamina (conhecido por causar a sensação de prazer ou motivação), muito associado à recompensa ou à expectativa de recompensa.
“É o que nos mantém fazendo as coisas que fazemos, o que reforça nossos padrões. Então se condiciona um certo tipo de comportamento”. Nas apostas, esse padrão se choca com a imprevisibilidade dos resultados, aumentando um risco até então invisível.
“Nessa expectativa de que na próxima jogada eu possa ter a recompensa, cria-se um ciclo de aprisionamento. Eu não consigo sair daquela atividade porque pode ser que na próxima eu consiga”, explica João.
Além da dopamina, alguns hormônios ajudam a segurar o apostador dentro do sistema das bets. A adrenalina é uma delas – e, com o tempo, passa a parecer “insuficiente”. O psiquiatra Daniel Gamero afirma que, como toda dependência, o vício nas apostas cria uma tolerância.
Na prática, à medida que as apostas se tornam mais frequentes, a emoção causada ao arriscar R$ 10, por exemplo, já não é a mesma, e o participante precisa “investir” mais para alcançar a mesma carga emocional que conseguia com valores baixos no início.
Arquitetura da aposta
João Goulart considera que “se o sujeito aposta, não é por um fracasso individual, mas por um fracasso um tanto social”. Desde a imagem dos influenciadores divulgando as plataformas até o desenvolvimento dos aplicativos, tudo é pensado para atrair apostadores.
Primeiro, pesa a imagem dos influencers. “Cria-se quase a ilusão de que ‘se eu jogar, talvez eu me aproxime um pouco mais dessa vida'”, explica o psicológo.

Virginia Fonseca, Viih Tube e Jon Vlogs estavam na lista de influenciadores que seriam ouvidos pela CPI das Bets. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Também afeta o fator deslocamento. Se, antes, interessados precisavam sair de casa para ir até um cassino ou uma lotérica, hoje não precisam mais se deslocar para escolherem apostar.
O gasto de energia é menor, pois basta acessar o celular, que já costuma estar nas mãos. As bets passam a ser possíveis em qualquer lugar.
O psicólogo alerta também que “essas plataformas online funcionam baseadas em algoritmos. Então as apostas vão aparecer quase como uma oferta personalizada para você, baseado no seu padrão de ação, que foi mapeado ali”.
Para piorar o cenário, o ambiente virtual incentiva o isolamento. Nos espaços físicos, era possível identificar quando a aposta passava dos limites, mas “se o acesso é no celular, fica muito mais difícil para as pessoas saberem que estou me endividando”, explica João.
Público mais vulnerável
O psiquiatra Daniel Gamero conta que a susceptibilidade se trata de uma alteração neurobiológica, como transtornos mentais prévios ou a dependência de outras substâncias.
O psicólogo João Goulart argumenta que algumas pessoas têm, naturalmente, maior sensibilidade à descarga emocional provocada pelo ato de apostar. Esse público teria uma expectativa de recompensa mais intensa.
Ele lista que pessoas que estejam passando por quadros leves de ansiedade, depressão ou outros adoecimentos podem encontrar nas bets uma espécie de alívio para um estresse crônico. Mas João alerta: “o problema desse alívio é que ele é breve e produz uma necessidade de repetição”.
Enquanto isso, as vulnerabilidades seriam condições mais passageiras, relacionadas ao contexto em que cada pessoa se encontra naquele momento.
Adolescentes e jovens, por exemplo, são mais impulsivos na tomada de decisões porque, naquele momento da vida, ainda estão com o cérebro em desenvolvimento.
Por fim, estão mais propensos a perder muito com as apostas quem está em maior vulnerabilidade socioeconômica. Isso porque as bets surgem com a promessa de ascensão social rápida.
De acordo com a pesquisa Quaest já mencionada, o público que mais aposta são os homens (33% dos entrevistados), com 35 anos ou mais (30%), que têm renda familiar de dois a cinco salários mínimos (32%). Católicos também se destacam (34%).
Para quem costuma apostar de vez em quando, mas se pergunta se precisa se preocupar imediatamente com um possível vício ou não, alguns sintomas ajudam a identificar se a situação já chegou a um nível alarmante.
Aumento expressivo da frequência do jogo, do valor da aposta e o aumento do tempo dedicado àquela atividade são alguns dos fatores citados por João Goulart. “Se eu estou passando no tempo das minhas obrigações para ficar jogando, já é um grande sinal de alerta”, começa.
“Se estou tendo prejuízos em outras áreas da minha vida, como o trabalho e relações com familiares, também já é um grande indicativo de que alguma coisa não vai bem”.
O desejo intenso de estar jogando sempre e a necessidade de apostar cada vez mais para sentir a euforia dos primeiros jogos ainda entram na lista. Além disso, é preciso prestar atenção na motivação do jogo: se é a vontade de participar ou a angústia de não estar apostando.
“Outra coisa que tem a ver com isso também é que no momento que eu não estou jogando, fico irritado, ansioso, com um desconforto muito grande”, complementa. Daniel Gamero explica que esses são sinais de abstinência.
O psiquiatra discorre: precisam ficar especialmente atentos “aqueles pacientes que começam a ter uma preocupação excessiva com o jogo. ‘Como vou fazer para jogar? Não posso ficar jogando em casa, então que história vou contar aqui para poder jogar e as pessoas não ficarem sabendo? Onde vou ter que falar que estou para ficar aqui escondido?’. Ele começa a criar situações”, explica.
Apoio familiar
Daniel Gamero sustenta que a atenção familiar é essencial para notar que alguém está viciado nas apostas. “Na maioria das vezes, [a pessoa que está apostando] não tem essa crítica. Ele não acha que está perdendo muito dinheiro, acha que vai recuperar daquilo, que teve só um dia ruim e amanhã vai jogar e melhorar”, descreve.
Por isso, é importante que pessoas externas consigam perceber o que está acontecendo. Alguns sinais que podem indicar a condição são a omissão dos problemas financeiros, “o segredo” com as contas e a ocupação excessiva com os jogos.
O psiquiatra compartilha que muitos viciados não veem a situação como um problema, argumentando que é só uma maneira de desestressar ou passar o tempo, sem ver os impactos deixados.
Ele ainda destaca que é fundamental que a família deixe o preconceito de lado para tratar da condição como uma doença, como qualquer outra dependência que precisa de apoio.
Linhas de ajuda
À medida que aumentam os números de adeptos aos jogos de azar, surgem novas tentativas de regulamentação e assistência. Na escala nacional, o Governo Federal lançou o Sistema de Autoexclusão, que recebeu quase 700 mil pedidos em apenas sete meses.
A plataforma funciona sob demanda. É voltada às pessoas que sabem que estão vulneráveis às apostas, mas querem colocar uma barreira na hora de jogar.
Ao cadastrar o CPF, ele fica indisponível em alguns sites e aplicativos – aqueles que constam na lista de programas regularizados pelo Governo Federal.
O processo é feito em três passos. Primeiro, é preciso fazer login no Gov.br, que já fornece os dados pessoais de quem está se cadastrando – CPF, nome, telefone e e-mail.
Depois, é necessário indicar o motivo da escolha (decisão voluntária, dificuldades financeiras, perda de controle sobre o jogo, recomendação profissional, prevenir que os dados sejam usados ou simplesmente não especificar) e por quanto tempo ela vale. Por fim, basta aceitar os termos de uso e confirmar a autoexclusão.
Vale destacar que essa plataforma não foi a única que apresentou crescimento ao longo dos últimos meses. Fora das telas, grande parte dos atendimentos para quem apresenta vício em jogos é nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Ali, os números também têm aumentando. O Ministério da Saúde indica que, em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas.
A alta foi notada em Goiânia, onde dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mostram que a capital somou 120 pacientes atendidos por ludopatia até julho de 2026. Em 2025, eram 50 pacientes cadastrados – um aumento de 140%.
O acolhimento aconteceu nas três unidades do CAPS AD, que é especializado exclusivamente no cuidado de pessoas com sofrimento psíquico decorrente do uso nocivo e dependência de substâncias psicoativas, como álcool e drogas.

CAPS III Ipê, no setor Negrão de Lima, atende pacientes com transtornos decorrente do uso de álcool e outras drogas e pessoas em situação de rua. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Goiânia)
Como os CAPS funcionam em modelo “porta aberta”, não é preciso ir a nenhum outro médico antes. Basta procurar atendimento para transtorno do jogo.
Em casos menos graves, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) também recebem pacientes. Vale ressaltar que não é preciso ter diagnóstico definido: a responsabilidade de indicar quais cuidados são necessários é da equipe médica.
Mesmo assim, quem não tem condições de ir a uma unidade de saúde, mas quer ter uma noção melhor sobre ter ou não dependência, pode fazer o autoteste online.
Há um questionário disponibilizado no site Meu SUS Digital ou no app Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta. As respostas são anônimas e não são armazenadas.
O psiquiatra Daniel Gamero define que alguns tratamentos unem a psiquiatria à psicologia. Os pacientes são recomendados a procurar a psicoterapia cognitivo-comportamental (tipo de abordagem psicológica), enquanto quadros mais graves também podem precisar do uso de medicações.
É importante destacar que os pacientes que passam pelo tratamento e conseguem superar os vícios ainda precisam ter cuidado. O profissional explica que eles são ex-dependentes e podem ter uma eventual recaída, o que torna essencial evitar cenários que incentivem a volta dessa prática.
Regulamentação
As apostas de quota fixa (que são aquelas onde o apostador já sabe quanto vai ganhar ao apostar, como é o caso das bets) foram liberadas no Brasil por meio da Lei nº 13.756/2018, sancionada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB).
O texto determinava que a nova legislação deveria ser regulamentada, por meio de outra lei, em até quatro anos. Entretanto, isso só aconteceu em 2023.
Foi apenas a partir da Lei nº 14.790/2023, sancionada pelo presidente Lula (PT) e conhecida como Lei das Bets, que as empresas passaram a operar com fiscalização e pagando impostos.
Em 2024, foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), dentro do Ministério da Fazenda. A pasta ficou responsável por autorizar e normatizar as companhias que querem explorar o mercado das apostas no Brasil.
Foi ela quem criou, por exemplo, o Sistema de Autoexclusão já mencionado. Segundo dados consolidados de 2025, divulgados pelo Ministério da Fazenda, a receita bruta das bets legalizadas no Brasil foi de R$ 37 bilhões.
Na Copa do Mundo, o assunto catapultou: ganhou – literalmente – as telas de todo o país.
Um levantamento feito pela BBC News Brasil com base em números da Biblioteca de Anúncios da Meta (dona do Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp) mostrou que as 10 maiores casas de bets do país dispararam centenas de anúncios nas redes sociais antes e durante o torneio.
Não se sabe quanto foi gasto nas campanhas, mas é possível ter uma noção de quanto foi gasto nas apostas. A Klavi, empresa de inteligência de dados, desenvolveu o Placar das Bets, que considerava 1,2 milhão de brasileiros como amostragem.
Apenas nas duas primeiras semanas da Copa (que começou em 11 de junho e foi até 19 de julho), os brasileiros já tinham enviado R$ 507,3 milhões para casas de apostas esportivas regularizadas. O número era de 25 de junho, ainda na fase de grupos.
Isso logo instigou novas regulamentações. Em 17 de junho, portarias interministeriais passaram a obrigar as empresas a exibir alertas de que apostar faz perder dinheiro, pode causar dependência e não é investimento.
Também ficaram proibidas propagandas que induzam o consumidor a apostar com base na suposta expertise de comentaristas, especialistas ou influenciadores, que emitiriam estratégias, opiniões técnicas ou análises.
Ainda, deixou de ser permitido encorajar práticas excessivas de aposta ou que chamem ativamente para a prática, inclusive com uso de mecânicas promocionais que sugerissem resposta imediata do apostador.
*Colaborou Matheus Araújo.
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