Após disparada de mais de 10%, petróleo muda direção e cai em meio a conflito no Oriente Médio
Irã atacou instalações energéticas em todo a região, em resposta ao ataque de Israel ao seu campo de gás de Pars Sul

FERNANDO NARAZAKI – Os preços do petróleo dispararam nesta quinta-feira (19), com o Brent, referência do mercado, atingindo seu maior nível em mais de uma semana, ultrapassando os US$ 119 por barril, depois que o Irã atacou instalações energéticas em todo o Oriente Médio, em resposta ao ataque de Israel ao seu campo de gás de Pars Sul.
Os contratos futuros do Brent chegaram a atingir US$ 119,11, alta de 10,92%, às 6h15 (horário de Brasília), pouco depois da abertura dos mercados da Europa. O valor foi o maior desde 9 de março, quando o barril atingiu US$ 119,46.
A disparada começou a perder força durante a tarde e, às 16h30, o contrato de maio estava caindo 1,77% em relação ao fechamento do dia anterior, cotado a US$ 105,48.
Declarações de um funcionário da Casa Branca, que disse que os EUA não estão considerando uma proibição de exportação de petróleo, influenciaram a mudança de direção do Brent. A informação de que Israel está ajudando os EUA a retomar navegações pelo estreito de Hormuz também ajudou a acalmar o mercado.
O petróleo WTI (West Texas Intermediate) que também estava em alta e chegou a atingir sua máxima diária de US$ 100,44 no início da tarde, também reverteu a tendência. Às 16h30, estava em queda de 1,64%, cotado a US$ 93,93.
O WTI tem sido negociado com seu maior desconto em relação ao Brent em 11 anos, devido à liberação das reservas estratégicas dos EUA e aos custos mais altos de frete, enquanto os novos ataques às instalações de energia do Oriente Médio impulsionaram o apoio ao Brent.
O preço do GNL (gás natural liquefeito) também disparou nesta quinta-feira, com alta de 35% nos contratos negociados na Europa.
O índice de referência TTF, que determina o preço de muitos contratos de fornecimento de gás, subiu até 35% para atingir 74 euros (R$ 448,70) por MWh, seu nível mais alto desde o início da guerra, antes de recuar para 65 euros (R$ 394) por MWh. Antes da guerra, o preço estava em torno de 32 euros por MWh.
“A escalada no Oriente Médio, os ataques à infraestrutura de petróleo e a morte da liderança iraniana apontam para uma interrupção prolongada no fornecimento de petróleo”, afirmou Priyanka Sachdeva, analista da Phillip Nova, em uma nota.
O tráfego no estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, está virtualmente paralisado desde que começou o confronto em 28 de fevereiro.
ATAQUES A CAMPOS DE GÁS
Na quarta-feira, a QatarEnergy disse que os ataques de mísseis iranianos a Ras Laffan, local das principais operações de processamento de GNL do Qatar, causaram “danos extensos” ao seu centro de energia. O local é responsável por 20% da produção mundial de GNL.
Houve também ataques ao porto de Yanbu, no mar Vermelho, que é o único terminal de exportação da Arábia Saudita que dribla o gargalo do estreito de Hormuz. A operação foi paralisada por algumas horas.
Também foi atingida uma refinaria da estatal Saudi Aramco perto de Riad e outra em Haifa, em Israel. Drones também atingiram das unidades de refino no Kuwait, e um projétil provavelmente iraniano acertou um navio ancorado perto dos Emirados Árabes Unidos.
Os ataques iranianos foram uma resposta ao bombardeio de Israel ao campo de gás de Pars Sul, na quarta-feira (18), que é o setor iraniano do maior depósito de gás natural do mundo. O complexo é compartilhado com o Qatar, aliado dos EUA, do outro lado do Golfo.
Israel realizou o ataque ao campo de gás de Pars Sul, mas os Estados Unidos e o Qatar não estavam envolvidos, disse o presidente Donald Trump na noite de quarta-feira.
Ele acrescentou que Israel não atacaria mais as instalações iranianas em Pars Sul, a menos que o Irã atacasse o Qatar, e alertou que os Estados Unidos responderiam se o Irã agisse contra Doha. Em post na sua rede social Truth Social, Trump afirmou que “vai explodir massivamente a totalidade do campo de Pars Sul com uma quantidade de força e poder que o Irã nunca viu ou testemunhou antes” caso os iranianos voltem a atacar Ras Laffan, no Qatar.
O regime iraniano afirmou que o ataque israelense a Pars Sul foi um “grande erro” ao atingir o local que fornece cerca de 70% do gás natural doméstico do país. “Se isso se repetir, os ataques subsequentes contra sua infraestrutura energética e a de seus aliados não cessarão até sua completa destruição, e nossa resposta será muito mais severa”, afirmou o comando operacional Khatam Al-Anbiya.
PROTEÇÃO A NAVIOS
Em meio à disparada do petróleo e com a continuidade dos ataques, a proposta de Trump de criar uma coalização entre países para fazer uma escolta de navios-petroleiros para cruzar o estreito de Hormuz voltou a ser discutida.
Nesta quinta, seis países (Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Japão e Holanda) divulgaram um comunicado conjunto em que declaram estarem dispostos a apoiar a iniciativa. “Nos declaramos dispostos a contribuir aos esforços necessários para garantir a segurança da passagem pelo estreito de Hormuz”, afirmaram os países.
A OMI (Organização Marítima Internacional), vinculada à ONU, sugeriu da criação de um “corredor seguro” para retomar o tráfego em Hormuz. “É uma medida provisória e urgente”, indicou a entidade, que disse que o corredor deve “facilitar a evacuação dos navios mercantes das áreas de alto risco e afetadas para um local seguro”.
Uma reportagem do jornal Financial Times afirmou que o governo Trump estuda a possibilidade de exigir a cobrança da aquisição de um seguro para que os navios sejam escoltados por tropas dos EUA na região. A apólice seria cobrada dos proprietários das embarcações e o programa seria administrado pela DFC (Development Finance Corporation), que é um braço de investimento internacional do governo.
Segundo o jornal, o modelo discutido inclui a cobrança de seguro para casco, maquinário e carga. A publicação afirma que seguradoras comerciais estão oferecendo cobertura para o tráfego em Hormuz por cerca de 3% a 5% do valor de um navio. Isso significa que um petroleiro avaliado em US$ 100 milhões pagaria aproximadamente US$ 3 milhões a US$ 5 milhões pela cobertura. Porém a maioria dos navios se recusou a comprar o seguro.
BOLSAS EM QUEDA
A preocupação com o petróleo levou os investidores a deixarem os ativos de risco. Com isso, as principais Bolsas do mundo despencaram. As Bolsas dos EUA estavam em queda por volta das 17h, com Dow Jones registrando perda de 0,26%, a S&P 500 desvalorizava 0,22% e a Nasdaq, 0,31%.
O índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, caiu 2,4%, a 583,73 pontos, seu menor patamar desde dezembro. A tendência foi seguida em Frankfurt (-2,76%), Londres (-2,35%), Paris (-2,03%), Madri (-2,27%) e Milão (-2,32%).
Na China, o índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, retrocedeu 1,61%, e o índice SSEC, em Xangai, perdeu 1,39%. As outras principais Bolsas da Ásia também fecharam em baixa: Tóquio (-3,4%), Hong Kong (-2,02%), Seul (-2,73%) e Taiwan (-1,92%).
FED SE MANTÉM ESTÁVEL
O banco central dos EUA manteve as taxas de juros inalteradas na quarta-feira (18), projetando uma inflação mais alta à medida que os formuladores de políticas monetárias fazem um balanço do impacto da guerra entre EUA e Israel com o Irã.
“A principal conclusão da decisão do Fed é que ele não virá ao resgate da economia, mesmo que os preços da gasolina e do diesel continuem subindo”, avaliou Bill Adams, economista-chefe do Comerica Bank.






