Ele tinha 13 anos quando começou na fábrica da família. Hoje comanda uma das maiores marcas country do país
De um cômodo pequeno perto do Feirão São Jorge a uma indústria que atende quase todo o Centro-Oeste e Norte do país — a trajetória de Patrick e da Boot weaR

Aos 13 anos, enquanto a maioria dos colegas de escola ainda pensava em brincadeira, Patrick já cruzava os dias entre a sala de aula e o chão de fábrica. Não por escolha dos pais, mas por necessidade: a irmã voltaria para São Paulo estudar, os avós iriam junto para cuidar dela, e alguém precisava ficar em casa.
“Não vai ficar na rua, vamos trabalhar”, disse o pai. E assim começou, sem alarde, a história de um dos negócios que hoje carregam o nome de Anápolis para o Brasil.
Hoje, aos 29 anos, Patrick é diretor da Boot Wear, indústria de calçados que nasceu num cômodo pequeno perto do Feirão São Jorge e que atualmente vende para praticamente todo o Centro-Oeste, o Norte e parte do Nordeste do país.
A trajetória, contada por ele em entrevista ao podcast Canteiro 6, do Portal 6, mistura sacrifício, coragem e uma dose rara de maturidade precoce — a mesma que fez a cidade se orgulhar de mais um jovem empresário local.
Uma família que chegou sem conhecer ninguém
A história da Boot Wear não começa em Anápolis. Começa em Pedregulho, interior de São Paulo, cidade próxima a Franca — a capital nacional do calçado. Foi lá que o pai de Patrick aprendeu, ainda aos 14 anos, o ofício de costurar calçados.
A mudança para Goiás aconteceu quase por acaso. Um vizinho comentou que Anápolis seria uma boa cidade para a mãe de Patrick, fisioterapeuta, montar carreira. A família se mudou em 15 dias, sem parentes, sem amigos e sem rede de apoio na nova cidade.
O plano inicial nunca saiu do papel. A mãe passou a dar aulas de balé em um colégio local, e o pai, depois de um ano trabalhando como costureiro em uma fábrica de calçados da região, foi demitido. Foi esse momento, aparentemente ruim, que deu origem ao negócio: ele trouxe as próprias máquinas de Pedregulho e começou a costurar por conta própria, em 1999.
Um erro de fornecedor, aliás, é a origem inesperada do nome da marca. Uma caixa comprada de terceiros, sem registro e sem relação com o produto final, carregava o nome “Boot Wear”. A marca foi usada por 22 anos antes de, finalmente, ser registrada oficialmente — hoje, é reconhecida em todo o segmento.
Criado dentro da fábrica
Diferente da imagem de herdeiro que assume um negócio pronto, Patrick cresceu literalmente dentro da fábrica. Aos sábados e nas férias, sempre esteve por perto. Aos 13 anos, começou a trabalhar formalmente, todos os dias, no período da tarde, após as aulas.
“Eu tinha 15 anos e via meus colegas sem nenhum centavo no bolso, e eu já tinha um salário”, contou ele durante o programa. Foi nesse momento, segundo o próprio, que começou a se apaixonar pelo negócio.
A escolha que poucos jovens fazem
Aos 18 anos, Patrick enfrentou a mesma pressão que grande parte dos filhos de empresários conhece bem: a expectativa de seguir uma carreira “tradicional”. Chegou a passar em vestibular de direito e iniciar o curso de química industrial, cogitando até medicina.
A decisão, no entanto, foi outra. “Eu não quero, eu gosto disso aqui, eu já ganho meu dinheiro”, relembrou. Aos 16 anos, já era registrado formalmente pelo próprio pai, com salário e carteira assinada — uma raridade entre jovens da mesma idade.
A escolha de permanecer no negócio da família, em vez de seguir uma profissão de maior prestígio social, é hoje um dos pontos mais citados por quem ouve sua história como inspiração para empreender cedo.
Por que os pais têm medo de deixar os filhos empreender
Um dos momentos mais reveladores da entrevista não fala sobre números ou produção — fala sobre medo. Segundo Patrick, a maioria dos empreendedores brasileiros não abre negócio por vocação, mas por necessidade de sobreviver. E é justamente essa origem dolorosa que faz muitos pais desencorajarem os próprios filhos a seguir o mesmo caminho.
“Ele se esgotou fisicamente, emocionalmente, ele não tinha mais paciência”, disse Patrick sobre o momento em que o pai decidiu passar a empresa adiante. Não foi o filho que tomou o espaço do pai — foi o pai que já não conseguia mais sustentar o ritmo sozinho.
A reflexão é importante para qualquer família que administra um negócio próprio: o medo de “passar o bastão” muitas vezes não vem de desconfiança na capacidade dos filhos, mas do desgaste de quem construiu tudo sozinho e não deseja o mesmo sacrifício para a próxima geração.
De 80 para 150 pares por dia
Os números contam, de forma direta, o tamanho da transformação. Quando a empresa começou a produzir de forma mais estruturada, a fábrica fazia cerca de 80 pares de botina por dia e atendia apenas quatro estados brasileiros.
Hoje, a Boot Wear produz cerca de 150 pares diários e vende para praticamente todo o Centro-Oeste, além de estados do Norte, como Pará, Maranhão e Tocantins, e parte do Nordeste — um total de cerca de 15 estados atendidos.
O crescimento também aparece no ticket médio dos produtos. No início da transição de gestão, o valor médio de venda no atacado era de R$ 129,90. Hoje, esse número passa de R$ 220 — um salto que reflete diretamente o posicionamento mais forte da marca no mercado.
Uma sucessão diferente da maioria
Se boa parte das sucessões familiares no Brasil acontece de forma informal — e muitas vezes conflituosa —, a passagem de bastão na Boot Wear seguiu um caminho pouco comum: Patrick comprou a fábrica do próprio pai.
O acordo, fechado com base em fluxo de caixa e matéria-prima, levou o jovem empresário a vender moto, carro e usar reservas pessoais para dar entrada no negócio. A dívida foi quitada em dois anos, período em que 100% do lucro da fábrica foi destinado ao pagamento.
Hoje, loja e indústria são empresas totalmente separadas, com CNPJs distintos: a loja segue com o pai, enquanto a fábrica é conduzida por Patrick. O acerto financeiro entre os dois é feito mês a mês, como entre fornecedor e cliente — sem misturar relação familiar com relação comercial.
O desafio que nem o sucesso resolve sozinho
Apesar do crescimento consistente, Patrick admite que o maior obstáculo atual não está na produção, mas na comunicação da marca. Ter um produto de qualidade, segundo ele, não é suficiente se o consumidor final não souber pedir por ele pelo nome.
“O maior desafio hoje não é produção, é marca”, destaca.
Investir em branding, explica, é uma decisão financeira diferente de comprar uma máquina ou contratar um vendedor: o retorno não é imediato, mas sustenta o crescimento de longo prazo — inclusive por meio de canais digitais, hoje essenciais para qualquer negócio familiar que deseja escalar além da própria cidade.
O conselho para os pais que sonham em ver os filhos no negócio
Ao final da conversa, Patrick deixou um recado direto para empresários que desejam que os filhos um dia continuem o negócio da família. A analogia usada por ele resume bem o raciocínio: assim como se “veste a camisa” de um time de futebol em uma criança desde cedo, o mesmo funciona para o negócio da família.
“Sempre fale do negócio bem dentro de casa. Mostre que é dali que vem o trabalho, que ele traz dignidade, que ele traz sustento”, afirmou. Para ele, o erro mais comum é justamente o oposto: pais que reclamam da empresa em casa, sem perceber que estão afastando os próprios filhos daquilo que construíram com tanto esforço.
O futuro da marca
Questionado sobre onde estará a Boot Wear daqui a dez anos, Patrick foi direto: não busca volumes gigantescos de produção, mas uma marca consolidada nacionalmente. “Não são grandes aspirações. Eu quero ter um produto forte”, resumiu.
A meta é clara — tornar-se referência em produtos, pessoas e processos, mantendo viva a essência de uma empresa que nasceu em Anápolis, cresceu com trabalho duro e hoje representa a força do empreendedorismo familiar goiano em todo o país.
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