Falta gente para trabalhar: a profissão valorizada que poucos querem aprender em Anápolis
Anderson Siqueira nunca fez faculdade nem curso técnico, mas construiu a Hidrofix numa área que hoje sofre justamente do que faltava para ele no começo: gente disposta a aprender o ofício. Anápolis sente essa escassez no preço e no prazo de qualquer obra

Anderson Siqueira tinha 19 anos quando pegou pela primeira vez uma chave de grifo para trabalhar, sem imaginar que aquilo se tornaria profissão e, menos ainda, empresa.
Agora, aos 34 anos, ele comanda a Hidrofix, negócio de serviços hidrossanitários que toca cinco obras ao mesmo tempo em Anápolis, de prédios residenciais a condomínios de alto padrão no lago Corumbá.
Contou a trajetória para Pedro Balduíno,no Canteiro 6, e no meio da conversa apareceu um problema que incomoda o setor inteiro da construção civil na cidade: falta gente para trabalhar com hidráulica, e essa conta cai direto no bolso de quem constrói.
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Da obra do pai para o próprio negócio
Filho de pedreiro, Anderson foi levado para o canteiro de obras ainda criança, porque a mãe também trabalhava fora e não tinha com quem deixá-lo.
Aos 19 anos, recém-demitido de uma função de ajudante de pedreiro, recebeu a indicação de um amigo e foi trabalhar com um senhor que ele trata até hoje como uma referência pessoal, não só profissional: a pessoa que lhe ensinou hidráulica e que ele ainda encontra em algum condomínio da cidade.
Ficou três anos como ajudante, aprendendo a ler bitola, a entender um projeto e a corrigir os próprios erros sem desistir no meio do caminho.
Sem faculdade, sem curso técnico, sem atalho
Não existe faculdade de encanador. Anderson repete essa frase quase como resumo da própria carreira.
Tudo o que sabe veio de tentativa, erro e internet, incluindo vídeo em outro idioma quando faltava conteúdo em português.
A mesma dificuldade aparece em áreas próximas, como impermeabilização, onde ele reconhece colegas passando pelo mesmo aprendizado informal. Formação, no ramo dele, ainda é sinônimo de força de vontade.
A turma que ele tentou montar e não deu
Foi para tentar resolver esse gargalo que Anderson procurou o Senai, no ano passado, para abrir turmas de capacitação em hidráulica. A ideia era simples: formar gente nova, contratar direto da turma e parar de depender só de indicação.
Não conseguiu público suficiente para fechar uma classe.
“Sempre dá um ou duas pessoas interessadas”, resume. Hoje resolveu de outro jeito: contrata gente sem experiência nenhuma e treina dentro da própria obra, no ritmo que funciona para o padrão técnico que cobra dos próprios clientes.
Por que uma profissão dessas está sobrando vaga
A demanda por serviço hidráulico em Anápolis segue firme, principalmente entre construtoras. A oferta de gente qualificada para atender essa demanda, não.
Quando Anderson finalmente contrata alguém, o desafio seguinte é não perder esse profissional: um intervalo entre etapas de obra ou uma semana de chuva pode ser motivo suficiente para o funcionário procurar outro serviço.
Por isso ele evita se prender a uma obra só e mantém cinco frentes abertas ao mesmo tempo, distribuindo a equipe conforme a demanda de cada uma.
Reter gente, para ele, passa por tratar cada colaborador quase como família: perceber quando alguém chega desanimado numa segunda-feira e conversar antes que a pessoa decida sair.
Esse aperto entre oferta e demanda encarece o metro quadrado de qualquer reforma na cidade. Também é a porta de entrada para quem topar aprender o ofício de verdade: hoje, praticamente toda a carteira de clientes de Anderson vem de indicação entre construtoras.
O conselho que ele daria às próprias filhas
Anderson tem duas filhas e diz que ficaria tão feliz se uma delas quisesse seguir hidráulica ou elétrica quanto se quisesse cursar engenharia, porque sabe que o mercado só cresce enquanto faltar gente disposta a aprender.
Ele investe em ferramentas para compensar essa escassez, como uma perfuratriz e uma tesoura elétrica usada na impermeabilização de lajes, mas não vê isso substituindo o profissional.
Para ele, o trabalho ainda é quase artesanal, dependente de alguém que sabe ler o projeto e resolver o imprevisto com as próprias mãos.
Cita como referência os canteiros de obra dos Estados Unidos e da Europa, cheios de máquina e pouca gente, num contraste direto com o que ainda se vê em Anápolis. É esse cenário, mais gente saindo do ramo do que entrando, que faz Anderson insistir na ideia de um dia formalizar a própria escola de formação.
A conversa completa com Anderson Siqueira está no Canal Portal 6, no YouTube.








