STF: Muita gente já parece ter desistido de acreditar que alguma coisa vai mudar

Talvez o brasileiro não tenha deixado de se indignar. Talvez só esteja cansado de esperar alguma coisa mudar

Pedro Balduíno Pedro Balduíno -
Fachin suspende sessão no STF com ministros rachados e sem decidir sobre análise de casos Moraes e Mendonça
(Foto: Reprodução/STF)

Tem uma frase que a gente escuta o tempo todo no Brasil: “Isso não vai dar em nada.”

Ela aparece depois de uma denúncia, de uma investigação, de uma decisão polêmica.

Todo mundo comenta, reclama um pouco e, logo depois, alguém encerra o assunto com essa frase.

Tenho pensado bastante nisso.

Na psicologia existe um conceito chamado desamparo aprendido.

Ele surgiu em experimentos feitos décadas atrás. Em um deles, cachorros eram colocados em uma situação desagradável da qual não conseguiam escapar.

No começo, eles tentavam de tudo.

Pulavam, procuravam uma saída, se mexiam, insistiam.

Só que nada funcionava.

Depois de algum tempo, paravam de tentar.

O mais interessante vinha depois.

Quando finalmente aparecia uma saída, alguns cachorros continuavam no mesmo lugar.

A saída estava ali.

Mas eles já tinham aprendido que tentar não adiantava.

É difícil não pensar no Brasil.

Depois de mais uma longa e tumultuada sessão do Supremo Tribunal Federal, a sensação que fica em muita gente parece ser uma mistura de ressaca, apatia e desesperança.

O STF discutiu como devem seguir apurações relacionadas ao caso Banco Master que envolvem integrantes da própria Corte. Foram horas de debate, divergências e discussões públicas entre os ministros. No fim, o julgamento foi suspenso sem que o mérito das acusações fosse analisado.

Não estou dizendo aqui quem está certo ou errado.

Isso precisa ser apurado.

O que me chama atenção é a nossa reação.

Talvez a gente ainda se indigne.

Talvez ainda ache errado.

Mas, no fundo, muita gente já parece ter desistido de acreditar que alguma coisa vai mudar.

Aí vem de novo aquela frase:

“Deixa pra lá. Isso não vai dar em nada.”

E talvez seja esse o verdadeiro problema.

Uma democracia precisa de leis, tribunais e eleições. Mas também precisa de gente que acompanhe o que acontece, cobre explicações, procure informação e use os instrumentos que ainda tem nas mãos.
Daqui a poucos dias, em 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiros estarão aptos a votar para presidente, governador, senador e deputados.

E aqui aparece uma contradição interessante: segundo pesquisa Genial/Quaest, apenas 34% dos eleitores sabem que, neste ano, poderão escolher dois candidatos ao Senado.
Não é um detalhe pequeno.

É justamente ao Senado que a Constituição dá a competência de processar e julgar ministros do Supremo Tribunal Federal nos casos de crimes de responsabilidade.

Ou seja, enquanto discutimos tanto sobre o STF, uma parcela enorme da população sequer conhece direito o poder que estará ajudando a escolher nas próximas eleições.

O voto não resolve tudo. Nunca resolveu.

Mas ele é uma das formas concretas que temos de escolher quem vai fazer as leis, fiscalizar o poder e nos representar.
Talvez a saída para o desânimo não seja acreditar que uma eleição vai consertar o país.

É mais simples que isso.

É acompanhar melhor, cobrar mais, escolher com consciência e, principalmente, não entregar de graça a pequena parcela de poder que ainda é nossa.

Porque o pior não é quando a porta está fechada.

É quando ela abre e a gente já decidiu que não vale a pena levantar.

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Pedro Balduíno

Pedro Balduíno

Pedro Balduíno é advogado, empresário e apresentador no Canteiro 6, podcast do Canal Portal 6 no YouTube

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