Citação do dia de Sócrates sobre por que os humanos querem o que não têm no amor: “O amor é sempre pobre e nada belo, como muitos imaginam; é rude e descalço…”
Sócrates apresenta uma imagem inesperada de Eros: a de alguém que procura aquilo que deseja, mas nunca consegue guardar para sempre

Uma figura sem sapatos, sem casa e sempre à procura de algo. Essa imagem parece distante das representações românticas do amor, mas é justamente assim que Sócrates, filósofo grego, apresenta Eros, deus do amor, em uma das passagens mais conhecidas de “O Banquete”, obra escrita por Platão, filósofo grego.
Em tradução livre e resumida, o trecho diz: “O amor é sempre pobre e está longe de ser delicado e belo, como muitos imaginam; é rude, maltrapilho e descalço.” A descrição chamou atenção em uma matéria publicada pelo The Economic Times.
Quem descreve Eros dessa forma?
A atribuição pede um cuidado: Sócrates pronuncia a passagem no diálogo de Platão, mas apresenta a explicação como um ensinamento de Diotima.
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Ela descreve Eros como filho de Pênia, ligada à pobreza, e de Poros, associado aos recursos e à capacidade de encontrar caminhos.
Por causa dessa origem, Eros não possui tudo o que busca, mas tampouco permanece parado diante da falta. Ele deseja a beleza e o bem, procura maneiras de alcançá-los e volta a procurá-los quando aquilo que conquistou escapa.
Os pés descalços e a ausência de uma casa dão forma a essa inquietação.
Por que desejamos o que não temos?
Antes de relatar a conversa com Diotima, Sócrates propõe uma pergunta aos outros participantes do banquete: alguém pode desejar aquilo que já possui? O diálogo chega a uma resposta mais sutil do que um simples “não”.
Mesmo quem tem saúde, por exemplo, pode desejar continuar saudável no futuro. Nesse caso, a pessoa busca algo que ainda não tem garantido e pede a permanência do que considera bom.
Essa ideia ajuda a entender a frase sem transformá-la em uma regra sobre relacionamentos. O texto não afirma que as pessoas só amam quem não podem ter.
Ele apresenta o desejo como um movimento em direção ao que falta ou ao que alguém teme perder. No diálogo, amor também não se limita à atração por outra pessoa: a discussão alcança a busca pela beleza, pelo bem e pela felicidade.
Por isso, a figura de Eros descalço não reduz o amor a sofrimento. Ela lembra que desejar envolve sair de uma posição de certeza e procurar algo além do que já está ao alcance.
A frase ganha outro sentido quando o leitor percebe que, em “O Banquete”, quem ama também pode desejar conservar aquilo que já encontrou.
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