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A difícil vida de Sandra, a anapolina que mantém filho encarcerado em quintal há cinco anos

Reportagem especial do Portal 6 conta a trajetória de moradora do Copacabana que desde a adolescência lida com dificuldades e sacrifícios

Rafaella Soares Rafaella Soares -

Sandra Martins da Silva, de 47 anos, nunca tinha ouvido falar de esquizofrenia e, mesmo sem entender, começou a conviver com o distúrbio há aproximadamente nove anos, quando morava no Recanto do Sol, região Nordeste de Anápolis, e recebeu um chamado urgente da escola do filho.

João Paulo tinha 11 anos e correu desesperado para os braços da mãe, depois de ver o chão se afundando e os muros se movimentando. A situação se repetiu várias vezes e ninguém soube explicar o que a criança tinha.

“Todo dia era uma coisa diferente. Todo dia ele pedia para ir ao hospital, derrubava tudo. A gente ia no hospital e não tinha nada. Fiquei dois anos lutando com ele, não tinha mais como trabalhar. Tive que passar a ficar quieta em casa com ele, seguindo ele quando saía”, relatou Sandra à reportagem do Portal 6, que esteve na casa dela para conhecer a rotina da família.

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Sandra. (Foto: Portal 6)

Quando estava perto de completar 13 anos, o garotinho recebeu diagnóstico de transtorno bipolar e passou a ser tratado com remédios. No entanto, a situação já estava insustentável dentro de casa.

“Um dia ele moeu vidro com cola, colocou dentro do arroz e todo mundo comeu e começou a sangrar. Fiquei de olho nele e vi ele quebrando o vidro, dizendo que era para todo mundo ficar forte. Depois passou a pegar imã para gente comer para ter super poder. Levei ele no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), disse que não tinha mais como ficar em casa com ele, se não todo mundo ia morrer”, contou a mãe.

“De lá, nos levaram para o Hospital Asmigo, em Goiânia. Era tempo de chuva e nem passamos em casa para pegar roupas. Ficamos cinco dias. A comida para acompanhante era R$ 5 e eu só comia quando ele deixava a dele no prato, que era de graça. Minhas roupas íntimas eu lavava e as vestias molhadas. Nos enxugávamos com a mesma toalha”, lembrou.

Quando retornou para casa, Sandra chegou a ter de ser socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) depois que o filho, inocentemente, despejou duas caixas de remédio na garrafa de café.

Foi nesta época que Sandra ganhou uma casa no Residencial Copacabana e teve de redobrar os cuidados para que ninguém se machucasse. A cozinha precisou até ser transferida para um quarto, para ficar trancada.

Por conta de tantas dificuldades, ela foi orientada a buscar auxílio do governo para cuidar melhor do filho. Foi só então que viu escrito em um dos papéis desse auxílio que o filho tinha esquizofrenia. Ninguém tinha a avisado antes.

Cela

João Paulo começou a ficar preso quando completou 15 anos e passou a ficar agressivo com as pessoas na rua. Nessa época, em mais de uma ocasião, teve crises e chegou a bater na mãe.

Além de ficar amarrado para não se auto machucar, Sandra precisou construir uma cela dentro de casa para manter o filho o tempo todo preso e protegido.

“Até os 15 anos a gente não prendia, mas tinha que ficar o dia todo atrás, porque se machucava. Um dia ele chegou com giletes, caixas de fósforo e álcool. Disse chorando que era para morrer porque estava doente. Naquela hora percebi que ele estava entrando num mundo que para sair era só com a ajuda de Deus. Num mundo que todos são inimigos dele. Um mundo que ele não consegue encontrar a felicidade”, disse.

Sandra mantém o filho assim há cinco anos. (Foto: A3 Comunicação)

“Depois dos 15 anos, eu não dava conta de segurar mais. Ele estava avançando nas pessoas na rua. Tive que explicar o que estava acontecendo porque os vizinhos pensavam que estávamos judiando. Muito carro de policia parou na minha porta pensando que eu estava espancando ele. Foram conhecer minha vida só depois. Ele bate demais nele mesmo. Se não amarrar quando entra em crise, bate a cabeça na parede, se mata. É muito triste”, lamenta.

Atualmente, João Paulo tem 20 anos e Sandra se dedica integralmente em mantê-lo medicado, limpo, alimentado e, principalmente, amado.

“Ele precisa muito de carinho e apoio. Se a família não estiver ali para conversar, para ver sair um sorriso da boca dele, vai causar mais revolta ainda. Ele é inteligente, só não entende nosso mundo. Esquizofrênico tem que ser respeitado, tem que ser tratado bem quando chega em um hospital. É muita rejeição, ninguém entende que uma mãe, por mais que tenha um filho esquizofrênico, só quer que o filho fique bem”, explica.

Vida de dificuldades

Se engana quem pensa que as batalhas de Sandra começaram depois do diagnóstico do filho. Ela também passou toda a infância trabalhando na roça e precisou deixar a fazenda que a família cuidava aos 14 anos para não ter que se casar com um homem de 37.

Como não tinha para onde ir, passou muito tempo na rua. A mãe, por várias vezes tentou tirá-la de lá, mas o pai não a aceitava de volta. Levantava de madrugada para trabalhar em plantações, pegava caronas pelas rodovias e até sofreu tentativas de abusos.

“Uma vez um cara me levou para uma mata duas horas da manhã e quase me matou. Eu estava grávida e ele disse que ia ficar comigo e me matar. Atravessei a BR correndo, gritei um homem numa porteira e ele me colocou para dentro. No outro dia cedo, [ele] me deu dinheiro para ir de ônibus, mas eu já tinha uma filha e lembrei que estava sem pão. Peguei carona e levei o dinheiro para comprar pão para ela”, relembrou.

Filhos

Sandra teve quatro meninos e três meninas. Destes sete, duas meninas e um menino tiveram de ser entregues para adoção. À reportagem, ela contou que tomou essa decisão depois de um acidente.

“Sai para trabalhar e, quando voltei, minha menina de oito anos pediu comida. Enquanto fazia arroz, ela subiu em um banquinho e a panela virou nela. Tive que deixar a mais nova, de três anos, com gente desconhecida para ficar com ela no Hospital de Queimaduras. Cheguei em casa, pedi para Deus para conhecer alguém para dar minhas filhas. Não para me livrar, mas para que elas tivessem o que eu não tive”, justificou.

“Conheci um padre franciscano que trouxe um casal da Itália. Eles ficaram aqui seis meses, depois o juiz liberou eles para viajarem. O mais triste foi quando foram atrás de mim para me despedir delas. A mais nova pediu para eu levar ela para casa, mas eu não podia voltar atrás. Não podia levar ela e não ter nada para oferecer”, disse.

Na época, Sandra estava grávida de um garotinho. Essa gravidez, segundo ela, foi a de maior sofrimento porque foi acometida por várias enfermidades.

“Cuidei dele até o seis meses”, lembra. “A mãe adotiva queria antes, mas eu amamentei primeiro. Daí fui ao Conselho [Tutelar], depois o juiz disse que o registro não ia valer de mais nada e mudou o nome dele. Abracei ele, caiu uma lágrima do meu olho e fui embora. Ele tem hoje o que eu não podia dar. Tem conforto, tem condições de sobreviver. Se estivesse comigo, não teria o estudo que tem”, emendou.

Filhos de coração

Mesmo com as dificuldades financeiras, Sandra conseguiu criar os outros quatro filhos. Depois que recebeu auxilio do poder público para cuidar de João Paulo e dar a ele os remédios necessários, a mulher ficou ainda mais conhecida no bairro pela generosidade.

É que apesar de todos os problemas e preocupações, ela está sempre com um grande sorriso no rosto e cuida de outras crianças que vivem nas proximidades em situação de extrema pobreza ou abandono.

“Tem três morando comigo. Se eles continuassem na casa deles, sem carinho, sem comida, o que ia acontecer? Iam entrar para um mundo de sofrimento e, quando resolvessem sair, ia ser tarde. Então levei eles para casa. Sei que não tenho condição, sei que preciso de ajuda com meu João, mas se eu tenho ajuda para o João, serve para eles também. Eles comem com alegria, como se tivessem a melhor mistura e estivessem na melhor casa”, conta.

De acordo com Sandra, o objetivo é dar a eles toda a orientação para que cresçam honestos, trabalhem, estudem e se tornem boas pessoas na vida.

“Eu sempre digo que quero que eles respeitem, nunca mexam com coisas alheias. Que sempre tenham paciência e amor pelas pessoas igual eu tenho por eles. Hoje eu vejo o mundo diferente, com mais luz, mais sabedoria e isso que quero passar para eles”, sustenta.

(Foto: A3 Comunicação)

Além das crianças, ela também cria vários animais, incluindo um bode, que se chama Bito. Para Sandra, mesmo que a vida seja complicada, há motivos de sobra para ser feliz.

“Para mim é uma riqueza grande ter um arroz para fazer e saber que todos podem comer. Já passei muita dificuldade na vida, passei muita dificuldade para comer, então sei o quanto dói procurar comida e não ter. E eles me fazem feliz, a gente se diverte”, afirmou.

“Não vou falar que a gente vive triste, é mentira. Meu Bito mesmo, às vezes eu deito e ele pula em cima de mim, me adulando, até eu conseguir levantar e seguir em frente. Nossa alegria depende de nós mesmos, se você falar que hoje vai brincar e vai sorrir, você vai encontrar motivo. Nossa vida é bela. Às vezes a gente não sabe, mas a felicidade é boa”, disse.

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