Delcy Rodríguez recebe apoio de militares para comandar Venezuela e é ameaçada por Trump
Em reação, o governo Donald Trump demonstra ter aceitado, por ora, a permanência de Delcy no Palácio de Miraflores

POR VICTOR LACOMBE E ISABELLA MENON, DE SÃO PAULO – No dia seguinte ao ataque em larga escala dos Estados Unidos contra a Venezuela que culminou na captura do ditador Nicolás Maduro, os centros de poder em Caracas se reorganizaram ao redor da vice, Delcy Rodríguez -que obteve neste domingo (4) o crucial respaldo das Forças Armadas do país para seguir no poder.
Em reação, o governo Donald Trump demonstra ter aceitado, por ora, a permanência de Delcy no Palácio de Miraflores.
O secretário de Estado americano e principal voz a favor de uma intervenção na Venezuela, Marco Rubio, se disse aberto a negociar com a vice de Maduro e outros líderes chavistas desde que tomem “boas decisões”. Trump, por sua vez, ameaçou Delcy.
“Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito caro, provavelmente maior do que Maduro”, disse o republicano no domingo à revista The Atlantic. “Reconstruir o país e mudar o regime, como quiser chamar, é bem melhor do que acontece agora, porque [a situação na Venezuela] não tem como piorar.”
No sábado, Trump havia dito que os EUA governariam a Venezuela com o objetivo de abrir a indústria petrolífera do país à exploração de empresas americanas -uma proposta ainda sem detalhes claros, embora o republicano não descarte uma invasão e ocupação militar do país vizinho.
No domingo, em entrevista à emissora CBS News, Rubio se esquivou de perguntas sobre como será exatamente o controle americano da Venezuela, dizendo apenas que os EUA usarão o bloqueio das exportações de petróleo para pressionar Caracas a promover mudanças políticas. Ao mesmo tempo, afirmou que nada está descartado.
Para Douglas Farah, presidente da IBI Consultants, empresa de pesquisa em segurança com sede em Washington, o ataque de Trump deixou claro que o objetivo principal do ataque é a busca por petróleo. Porém, isso é tarefa difícil.
“Seriam necessários bilhões de dólares e pelo menos uma década para tornar as instalações petrolíferas da Venezuela operacionais novamente”, diz ele. “O petróleo venezuelano é extremamente pesado e difícil de processar, e não há escassez [da commodity] no mercado global neste momento.”
A permanência de Delcy no poder em Caracas também levanta questões sobre como foi possível que a operação militar americana transcorresse no coração da capital sem que houvesse grande resistência -segundo os EUA, nenhum militar americano foi morto, e a Venezuela fala em “assassinato a sangue-frio” da equipe de segurança de Maduro.
“O fato da operação ter sido tão bem-sucedida para o lado americano traz um clima bastante conspiratório aos acontecimentos”, diz Carolina Silva Pedroso, professora de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e especialista em Venezuela.
Para ela, durante as negociações diretas entre Maduro e Trump antes do ataque de sábado, membros do alto escalão do chavismo ficaram apreensivos com a possibilidade de uma transição de poder.
“Aparentemente, Maduro tinha pedido a proteção dele e de outras 100 pessoas para que pudessem sair do país. Isso não dá conta nem dos prefeitos e governadores do chavismo. Ficou um clima ruim”, afirma.
Por isso, para Pedroso, são muitos os indícios de que houve uma colaboração interna que viabilizou a captura de Maduro. “Uma hipótese plausível é de que Delcy estivesse negociando em paralelo uma transição política com os EUA”, diz.
Ainda assim, a professora afirma que não está claro se a vice conseguirá manter o apoio dos militares no futuro, “seja para resistir à intervenção americana ou para buscar conciliação entre os interesses de Washington e a permanência do chavismo no poder, que parece que é o cenário que se desenha”.
Nesse último caso, é pouco provável que haja o tipo de mudança política que almejava a oposição venezuelana, agora escanteada por Trump -o republicano disse que María Corina Machado, principal líder antichavista da Venezuela, não tem o apoio ou o respeito do povo para governar.
“É uma mudança para inglês ver. Os EUA conseguem o que querem em termos econômicos, com a abertura do mercado de petróleo, e nada muda na situação política.”
“Se o objetivo fosse uma transição democrática, eles teriam reconhecido Edmundo González e María Corina como líderes legítimos e tentado trazê-los de volta”, diz Douglas Farah.
“Mas desqualificá-la no momento em que anunciam essa operação destrói qualquer possibilidade de restaurar um governo democraticamente eleito.”
“Durante todo o governo Trump, os EUA apoiaram publicamente María Corina. A Europa, grande parte da América Latina e os EUA reconheceram que a oposição [liderada nas eleições por Edmundo González] teve provavelmente mais de 70% dos votos”, afirma ele.
“Desqualificá-la de maneira quase casual no momento em que anunciam essa ação é bizarro.”
Pedroso afirma que, para que permaneça no poder, Delcy terá que acomodar o legado político antiamericano e anti-imperialista do chavismo com a nova realidade de interferência dos EUA.
“É uma negociação: os líderes venezuelanos estarão dispostos a abrir mão desses princípios em troca de, teoricamente, preservar algum avanço promovido pela Revolução Bolivariana? Seria um ajuste teórico que não é raro na história.”
A especialista lembra ainda que há impeditivos legais para a entrega do petróleo venezuelano, nacionalizado desde a década de 1970, a Washington.
“Teria que haver uma mudança no marco legal venezuelano, mas isso seria profundamente contraditório com a ideologia chavista. Esse seria o limite que tornaria uma conciliação com os EUA insustentável.”
Segundo Benjamin Gedan, diretor do Programa para a América Latina do Stimson Center, Delcy é uma ideóloga, mas também uma sobrevivente política. “Ela não será uma marionete dos Estados Unidos, mas tampouco esquecerá que navios de guerra americanos estão ancorados no Caribe”, afirma.



