O olhar de um avô

Se você não tem o privilégio de ser avô ou avó, não se prive desse prazer, VEJA as crianças, ouça, sinta, brinque

Pedro Fernando Sahium Pedro Fernando Sahium -
O olhar de um avô
(Foto: Artigo Pessoal)

Foi o escritor Rubem Alves quem disse: “Se pudesse viver de novo trataria de olhar para os meus filhos com olhos de avô…”. Concordei. Acho que tratei meus filhos de forma rigorosa, era muito exigente. Como avô as coisas mudaram.

Eu vi a diferença. Minha neta Anastácia é, para mim, a coisa mais doce do mundo. Sua voz de 4 anos de idade é música para os meus ouvidos, suas pintinhas no nariz, seu sorriso fácil e até seu choro comovente compõem um quadro que me detém admirado.

Ela me chama para apostar corrida dentro de casa, aceito de imediato. A sua corrida com passos curtíssimos e pés descalços é antevéspera da risada pura, inocente e bela. Eu vejo!

“- Vamos de novo? Um, dois, três e já!”. Ela conta e sempre sai no “dois” … No fim um novo começo, mais um convite/convocação, e lá vamos nós. Suas brincadeiras se repetem, e se repetem, e se repetem…

Aprendi com o teólogo inglês G. K. Chesterton, que Deus se exulta na monotonia. “É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: ‘Vamos de novo’; e todas as noites à lua: ‘Vamos de novo’.

Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las”.

As crianças também têm essa alegria gratuita, excessiva, vigorosa e a repetição é sinal de vitalidade, energia, vigor e não sinal de fraqueza ou preguiça. Eu vejo isso hoje.

Alberto Caeiro, homônimo de Fernando Pessoa, falou dessa questão, e disse: “Creio no Mundo como numa flor vibrante, porque o vejo. Mas não penso nele. Porque pensar é não compreender. O Mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos).” Alberto Caeiro estava certo, pensar nos impede de ver. “[O Mundo foi feito] para olharmos para ele e estarmos de acordo…”.

Aprendi. Assim como em relação ao Mundo eu olho minha neta, e nada mais! Não penso. Olho apenas. Admiro o vocabulário truncado e os neologismos (palavras novinhas que ela inventa), e não tenho nenhum interesse na ‘correta’ língua portuguesa, nos verbos bem conjugados. Ela me ensinou que depois do número quatro pode vir o nove, ou o dezessete, e até o vinte quarenta…

Se você não tem o privilégio de ser avô ou avó, não se prive desse prazer, VEJA as crianças, ouça, sinta, brinque. Me convenci de que não é preciso ser um 60 + para entrar no Mundo paradisíaco dos sentidos, Mundo que atende pelos nomes de: Anastácia, Pedro, Martina, João, Isaque, Maria Clara, Larissa, Samuel, Luiz e tantos outros…

Qual seria a magia dos olhos de avô? Alberto Caeiro aprendeu e desvendou parte do mistério:

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança…
(…)
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência…
E a úncia inocência é não pensar.

Que assim seja!

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