Estudos indicam que “cabeçudos” podem ter proteção natural contra a demência
Pesquisas mostram que tamanho do cérebro e escolaridade podem influenciar quando e como a demência se manifesta

Ter uma cabeça maior pode parecer apenas um detalhe físico, mas, para a ciência, isso pode esconder uma vantagem silenciosa ao longo do envelhecimento. Pesquisas em neurociência indicam que pessoas popularmente chamadas de “cabeçudas” podem apresentar uma espécie de proteção natural contra a demência — não como garantia de imunidade, mas como um fator que ajuda a retardar ou suavizar os sintomas da doença.
Os estudos não apontam o tamanho da cabeça como causa direta da demência, mas como um indicador biológico relevante. A explicação passa pelo conceito de reserva cerebral, que descreve a capacidade do cérebro de suportar perdas de neurônios e conexões antes que os sinais de declínio cognitivo se tornem evidentes.
Um dos trabalhos mais emblemáticos sobre o tema analisou dados do Estudo das Freiras, uma pesquisa de longo prazo conduzida nos Estados Unidos que acompanhou, por três décadas, quase 700 freiras idosas.
- O palácio que desbancou a realeza europeia fica no Brasil e foi eleito duas vezes o melhor do mundo
- Criatura gigante de olhos pretos encontrada em mina remota é confirmada como nova espécie
- Fim da jornada 6×1: supermercados começam a adotar escala 5×2 para segurar funcionários e enfrentar escassez de mão de obra
Todas viviam sob condições muito semelhantes, com alimentação equilibrada, rotina estável, acesso a cuidados médicos e baixa exposição a fatores de risco como álcool e tabaco.
Mesmo nesse cenário controlado, cerca de 17% das participantes desenvolveram demência. Ao cruzar os dados, os pesquisadores identificaram um padrão: freiras com menor circunferência craniana associada a baixa escolaridade apresentavam um risco significativamente maior de desenvolver a doença.
Quando esses dois fatores apareciam juntos, a chance de demência chegava a ser até quatro vezes maior.
Isoladamente, nem o tamanho da cabeça nem o nível de escolaridade foram suficientes para aumentar o risco de forma relevante. O alerta surgiu justamente da combinação entre estrutura cerebral e estímulo cognitivo ao longo da vida.
A circunferência craniana é usada pela ciência como uma medida indireta do tamanho do cérebro.
Embora não determine inteligência nem sirva como diagnóstico, cérebros maiores tendem a ter mais neurônios e conexões, o que oferece uma margem extra para lidar com o desgaste natural do envelhecimento ou com doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Pesquisas mais recentes reforçam essa leitura ao apontar que fatores genéticos influenciam a resistência de determinadas regiões cerebrais, especialmente aquelas mais vulneráveis ao envelhecimento.
Algumas variantes genéticas estão associadas a áreas que encolhem mais cedo, tornando certas pessoas biologicamente mais suscetíveis ao declínio cognitivo.
Nesse cenário, cérebros menores teriam menos “reserva” estrutural. Assim, quando as perdas celulares começam, os sintomas tendem a surgir mais rapidamente.
A escolaridade atua como um reforço complementar, estimulando a formação de redes neurais mais complexas e fortalecendo a chamada reserva cognitiva.
O próprio Estudo das Freiras mostrou que participantes com menor perímetro cefálico e baixa escolaridade também apresentavam hipocampos menores — região do cérebro diretamente ligada à memória.
A presença de apenas um desses fatores não elevou significativamente o risco, reforçando a ideia de que a vulnerabilidade nasce da soma entre aspectos estruturais e cognitivos.
Outro ponto destacado pelos cientistas é o momento em que essas diferenças se formam. Cerca de 90% do crescimento da cabeça ocorre antes dos seis anos de idade, e o cérebro atinge aproximadamente 75% do tamanho adulto ainda no primeiro ano de vida.
Isso indica que a prevenção da demência começa muito cedo, envolvendo cuidados durante a gestação, boa nutrição na infância e proteção contra toxinas ambientais.
Em média, a circunferência craniana de adultos gira em torno de 55 centímetros em mulheres e 57 centímetros em homens.
Ter medidas acima disso não elimina o risco de demência, assim como medidas menores não determinam o surgimento da doença.
Genética, ambiente, educação e hábitos ao longo da vida continuam sendo peças-chave nesse quebra-cabeça complexo que é o envelhecimento do cérebro.
Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!







