Eles viviam de boa, até o tribunal aparecer: família que morava em casa rural com painéis solares, poço artesiano e comida caseira vai parar na Justiça

Caso de família que optou por viver fora do sistema tradicional na Itália vira batalha judicial e provoca debate nacional

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
Eles viviam de boa, até o tribunal aparecer: família que morava em casa rural com painéis solares, poço artesiano e comida caseira vai parar na Justiça
(Foto: Reprodução)

O sonho de escapar das contas altas, do barulho das cidades e da dependência dos serviços públicos virou um pesadelo judicial para uma família que decidiu viver de forma autossuficiente no interior da Itália. O que começou como uma escolha de estilo de vida acabou levando pais e filhos aos tribunais e dividindo a opinião pública no país.

Nathan Trevallion, ex-chef britânico de 51 anos, e Catherine Birmingham, treinadora de 45, deixaram a vida urbana para se estabelecer em uma área isolada da região de Abruzzo, cercada por floresta. No local, construíram uma rotina distante das redes convencionais de abastecimento: produziam a própria energia com painéis solares, buscavam água em um poço na propriedade, aqueciam a casa com lareiras e cultivavam alimentos, além de criar cavalos, burros e galinhas.

Durante anos, a família manteve um perfil discreto, vivendo longe dos centros urbanos com seus três filhos menores. A situação, porém, ganhou visibilidade em setembro de 2024, quando todos foram hospitalizados após uma intoxicação alimentar causada pelo consumo de cogumelos silvestres coletados na floresta.

Depois da recuperação, a rotina da família passou a ser acompanhada de perto por autoridades. Assistentes sociais e policiais visitaram a propriedade após denúncias de que as crianças não estariam recebendo acompanhamento médico regular nem frequentando a escola. A investigação culminou em uma decisão judicial que determinou a retirada dos filhos da guarda dos pais, com encaminhamento para lares adotivos e visitas familiares restritas.

O caso rapidamente ganhou repercussão nacional e passou a ser chamado pela imprensa italiana de “Bimbi nel Bosco”, ou “crianças na floresta”. A decisão provocou indignação e levou dezenas de milhares de pessoas a assinarem uma petição online pedindo a reunificação da família.

Segundo a ordem judicial, a residência não é considerada habitável pelas autoridades, não possui instalações sanitárias convencionais e estaria fora dos padrões exigidos pelo Estado. O tribunal também apontou a ausência de renda fixa e de interação social como fatores de risco para o desenvolvimento das crianças, além da falta de escolarização formal.

O advogado da família, Giovanni Angelucci, argumenta que a escolha por uma vida alternativa não representa negligência. Ele afirma que a casa é aquecida por lareiras, a energia elétrica vem de painéis solares e a água do poço é utilizada justamente para evitar microplásticos e custos do sistema público. A família também optou por um banheiro seco localizado fora da residência, prática comum em modelos de vida sustentável.

A repercussão foi tão intensa que alcançou o alto escalão do governo italiano. A primeira-ministra Giorgia Meloni e o vice Matteo Salvini classificaram a decisão judicial como “alarmante” e pediram esclarecimentos ao ministro da Justiça, Carlo Nordio.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiário do Portal 6.

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