Beneficiários do Gás do Povo reclamam de taxas e de cidades sem revenda cadastrada

Antes da mudança para o modelo atual, o benefício era depositado em dinheiro às famílias, por meio do Auxílio Gás, a cada dois meses

Folhapress Folhapress -
Gás do Povo 2026: confira o calendário do botijão gratuito e quem pode ter acesso
(Foto: Ricardo Botelho/MME)

EVELYN AIRES E GABRIELA CECCHIN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Beneficiários do programa Gás do Povo reclamam de cobranças de taxas adicionais para conseguirem pegar botijões em revendas. Moradores de Ribeirão das Neves (MG), Padre Bernardo (GO), Flores (PE) e Timon (MA) relatam terem de pagar a mais para completar o valor do gás, sob justificativa de que o programa não cobriria o preço integral.

Antes da mudança para o modelo atual, o benefício era depositado em dinheiro às famílias, por meio do Auxílio Gás, a cada dois meses. Hoje, o repasse passou a ser feito por voucher, que deve ser trocado diretamente por um botijão em revendas credenciadas.

Segundo o MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome), a lei proíbe a cobrança de qualquer valor adicional. “A recarga do botijão será gratuita para todos os beneficiários”, diz a pasta, acrescentando que taxas só podem ser aplicadas em serviços extras, como entrega ou instalação.

À época da alteração do programa representantes do setor já haviam afirmado que a definição de um valor fixo poderia gerar pressão sobre os preços em algumas regiões, especialmente onde o custo do GLP (gás liquefeito de petróleo) é maior.

Para José Luiz Rocha, presidente da Abragás (Associação Brasileira dos Revendedores de GLP), a fórmula usada pelo governo para definir o valor do benefício está, em alguns estados, abaixo do preço praticado pelas revendas.

“Nós alertamos o governo que os valores deveriam acompanhar, no mínimo, os preços regionais divulgados pela ANP [Agência Nacional do Petróleo]. Em alguns estados, o valor ficou abaixo da realidade, o que desmotivou parte dos revendedores a participar do projeto”, afirma.

No Amazonas, ele diz que a diferença chega a cerca de R$ 30 no botijão de 13 quilos. Em São Paulo, calcula em quase R$ 16.

Rocha afirma ainda que, se a atualização dos valores não acompanhar a dinâmica do mercado, há risco de saída de empresas. “Quando há reajuste pelas distribuidoras, as revendas repassam de imediato. Se o governo não acompanhar, muitos podem se descredenciar para não operar no prejuízo.”

NEM TODOS OS MUNICÍPIOS TÊM REVENDAS CREDENCIADAS

Beneficiários de alguns municípios brasileiros ainda não têm revendas cadastradas para retirar o botijão pelo Gás do Povo, segundo dados da Caixa Econômica Federal de 18 de março. No total, 1.290 cidades não possuem empresas credenciadas, apesar de todos os municípios do país já terem beneficiários que recebem os vouchers, segundo números do MDS.

No entanto, regra do programa diz que a distribuidora com mais de 10% de participação no estado precisa garantir o acesso ao botijão. Uma moradora do sertão pernambucano, que pediu para não ser identificada, contou à reportagem que precisa viajar 60 km para chegar ao município mais próximo onde há revenda autorizada.

Procurado, o governo afirma que o modelo garante atendimento em todo o território nacional, mesmo onde não há pontos no próprio município, e que novos estabelecimentos são incorporados continuamente. Também diz que o programa opera em mais de 20 mil revendas credenciadas —o equivalente a uma em cada três do setor.

Comunicado do governo prevê que, se o município não tiver revendas credenciadas, distribuidores de GLP com participação igual ou superior a 10% no estado devem “garantir a oferta do benefício”, sem especificar como seria essa garantia. Se ainda assim não houver locais para retirada, “o beneficiário deverá ir até o município mais próximo”, de acordo com a nota.

O Sindigás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo) diz que não há falta de atendimento nos municípios. “Eventuais localidades ainda sem revendas aderidas estão sendo atendidas por meio de pontos alternativos e rotas logísticas criadas em conjunto pelo governo e pelo setor privado”, afirma Sergio Bandeira de Mello, presidente da entidade.

Os estados com maior proporção de municípios onde não constam revendedoras registradas no sistema da Caixa são Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins. O município com mais beneficiários onde não aparece revenda cadastrada é Belém (AL), homônimo da capital paraense, com 27.423 pessoas e nenhuma revendedora.

Em números absolutos, há mais revendedoras em grandes centros urbanos, como as cidades de São Paulo (424) e Salvador (241) e a capital federal Brasília (238). No cálculo relativo, entre as dez cidades com maior número de beneficiários, Brasília (DF) é a que tem mais pessoas por empresa, seguida de Belo Horizonte (MG), Belém (PA) e Salvador (BA).

A GUERRA DOS EUA CONTRA O IRÃO PODE AUMENTAR OS PREÇOS DO GLP?

Outro fator que pode pressionar os preços é o cenário internacional. Embora o GLP ainda não tenha sido diretamente afetado, a guerra no Irã pode gerar impactos caso se prolongue. O conflito prejudicou a logística no estreito de Hormuz, por onde passam cerca de 20% a 30% do petróleo mundial.

“Pode haver aumento [de preços] se o conflito durar mais tempo”, diz Rocha, da Abragás, que cita problemas logísticos e falta de vasilhames como problemas já observados no mercado.

Sergio Bandeira de Mello, do Sindigás, diz que ainda não é possível estimar eventuais impactos concretos.

O preço médio do botijão de gás no Brasil está em R$ 109,91, segundo levantamento mais recente da ANP, do último sábado (21), com relativa estabilidade nas últimas semanas.

COMO TER ACESSO AO GÁS DO POVO?

Para acessar o Gás do Povo, o beneficiário pode consultar se tem direito ao programa pelo aplicativo “Meu Social – Gás do Povo”, onde também é possível verificar o vale e localizar revendas credenciadas.

A retirada do botijão pode ser feita diretamente na revenda, mediante validação com cartão do Bolsa Família, cartão de débito da Caixa ou CPF com código enviado ao celular.

Quem não tem acesso à internet pode usar os cartões físicos ou informar o CPF diretamente na maquininha utilizada pelas revendas.

É necessário estar inscrito no Cadastro Único, com renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa e dados atualizados nos últimos dois anos, para ter direito ao benefício. O programa prioriza beneficiários do Bolsa Família.

Implementado de forma gradual, a primeira etapa começou em novembro de 2025, em dez capitais. Em janeiro de 2026, foi ampliado para 17 cidades, incluindo Brasília, Rio de Janeiro e Manaus. A partir de fevereiro, passou a ter abrangência nacional.

Com nova expansão iniciada em março, o programa alcança cerca de 15 milhões de famílias.

Só em março, 9,4 milhões recebem o benefício, com investimento de R$ 957,2 milhões. A política prioriza famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único e, majoritariamente, lares chefiados por mulheres.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Folhapress

Folhapress

Maior agência de notícias do Brasil. Pertence ao Grupo Folha.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.

+ Notícias

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Para mais informações, incluindo como configurar as permissões dos cookies, consulte a nossa nova Política de Privacidade.