Uma opção política para os cristãos
Nas próximas eleições, devemos levar em conta em que medida o regime de governo ou sistema político assegura a vida de todos, e vida em abundância

O código de Hamurabi, estabelecido na Mesopotâmia em 1750 a. C., foi um avanço para a humanidade. O código estabeleceu uma proporcionalidade em relação ao dano/delito cometido. Daí a máxima “olho por olho, dente por dente”.
O código refreou as mortes por vingança pois estabeleceu um critério de justiça: “olho por olho”, e não “olho por olho, dente, nariz e orelha”. As pessoas tinham que respeitar um justo limite, uma justa proporção entre o dano e o delito cometido.
Os hebreus, por meio da legislação de moisés, também estabeleceram critérios de justiça para Israel. De sete em sete anos a terra deveria ser poupada e descansar sem ser semeada, obedecendo o padrão sabático da criação. Nesse ano de descanso da terra, todos viveriam apenas da produção natural; servos e estrangeiros teriam direito a essa produção. A terra é de Deus e a sua produção é dádiva d’Ele e deve sustentar a todos, sem exceção.
Depois de sete ciclos de sete anos, no quinquagésimo ano, chegava o ano do Jubileu. No ano jubilar, todos os servos e escravos deveriam ser libertos, todas as dívidas perdoadas e as terras que foram vendidas pelos israelitas deveriam ser devolvidas a eles, para que fossem benção para todos os povos circunvizinhos.
Administrando as bençãos de Deus, os israelitas deveriam fazer “correr a justiça e o juízo como um riacho perene”.
O cristianismo também contribuiu na caminhada em busca de justiça e de proteção aos mais fracos e necessitados. O autor bíblico Tiago (1:27), afirmou: “A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se incontaminado do mundo”.
As Boas Novas de Jesus não nasceram nos palácios, mas entre os pobres da Galileia. Jesus caminhou entre pescadores, aleijados maltrapilhos, mulheres marginalizadas, estrangeiros desprezados e trabalhadores explorados. Sua mensagem foi dirigida aos que sofriam o peso da injustiça e da exclusão.
A religião verdadeira não se resume a frequentar templos, carregar ou decorar livros sagrados, ou defender “de unhas e dentes” doutrinas, mas consiste em assistir os mais frágeis na sociedade e buscar justiça social.
Naquela época ninguém era mais vulnerável do que viúvas e órfãos. E hoje, quem são os mais frágeis? Os mais carentes? Os que sofrem perseguição ou são vítimas de preconceito e exclusão?
A melhor religião é aquela que nos faz melhores, que nos faz solidários e compassivos. Evangelizar também significa defender a vida ameaçada, denunciar a opressão e anunciar que outro mundo é possível. No projeto de Deus para este mundo não pode existir pobres, “pobreza é carência de bens essenciais à vida digna e bela” (Frei Berto).
Partindo da herança histórica de mesopotâmicos, hebreus e cristãos é preciso prosseguir na busca da justiça, de forma imparcial e permanente. É preciso uma libertação das tarefas política e partidária que destilam ódio e rancor, e introduzir o perdão por supostos ou reais danos cometidos. Sem este “esquecimento” básico, não haverá possibilidade de uma utopia viável. O Mahatma Gandhi nos alertou: “olho por olho, e o mundo acabará cego”.
Nas próximas eleições, devemos levar em conta em que medida o regime de governo ou sistema político assegura a vida de todos, e vida em abundância. Devemos considerar o direito de todos a uma existência digna e feliz. O que implica combater as causas da pobreza e da exclusão social (Frei Beto). O pecado não está apenas nas atitudes individuais, mas também nas estruturas injustas que produzem sofrimento e exclusão.
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