Quando pessoas com mais de 70 anos começam a doar louças, anéis e objetos antigos, a psicologia diz que isso pode ter um significado profundo

Doar objetos antigos pode refletir uma mudança silenciosa de prioridades, vínculos e legado na velhice, segundo estudos da área

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
Quando pessoas com mais de 70 anos começam a doar louças, anéis e objetos antigos, a psicologia diz que isso pode ter um significado profundo
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A cena pode parecer banal: uma louça troca de armário, um anel passa para uma filha e objetos guardados por décadas ganham novos donos. Depois dos 70 anos, porém, esse movimento pode ser mais do que simples doações de objetos.

A psicologia do envelhecimento indica que a relação com os bens pode mudar ao longo da vida. A idade de 70 anos, por si só, não funciona como chave universal de interpretação, já que o envelhecimento varia entre as pessoas.

O que esse gesto pode significar

Em muitos casos, doar objetos carregados de história pode ser uma forma de organizar o próprio legado e decidir quem ficará com itens ligados a afetos, fases e relações importantes.

O sociólogo David Ekerdt, da Universidade do Kansas, estuda a relação entre envelhecimento e posses. Ele descreve os bens acumulados como um “comboio material” e mostra que se desfazer deles envolve decisões práticas, sociais e emocionais.

Uma pesquisa nacional citada por Ekerdt apontou que 60% das pessoas com mais de 60 anos reconheciam possuir mais coisas do que precisavam. Ainda assim, doar, vender ou repassar bens pode exigir negociação afetiva, sobretudo quando esses objetos sustentam memórias e identidades.

Quando as prioridades mudam

Outra chave está na teoria da seletividade socioemocional, desenvolvida pela psicóloga Laura Carstensen, de Stanford. Ela sustenta que, quando a percepção do tempo futuro se torna mais limitada, as pessoas tendem a priorizar relações, experiências e objetivos emocionalmente significativos.

Nesse contexto, passar uma joia, uma louça de família ou um objeto antigo a alguém específico pode ser menos um gesto de desapego e mais uma escolha de continuidade: o bem passa a funcionar como memória compartilhada.

O comportamento, contudo, não deve ser interpretado de forma automática. Diretrizes da Associação Americana de Psicologia reforçam que o envelhecimento é heterogêneo e deve considerar história de vida, contexto familiar, saúde e autonomia.

Por isso, quando uma pessoa mais velha começa a distribuir objetos pessoais, o significado pode estar na tentativa de escolher o que permanece — e com quem permanecerá.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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