Plano do PL para contornar campanha sem Bolsonaro inclui boneco de papelão e IA

Apesar disso, há preocupação em parte do grupo

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(Fábio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil)

ANA LUIZA ALBUQUERQUE, BRUNO RIBEIRO E MARIANNA HOLANDA – Com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), dirigentes e integrantes do PL começam planejar formas de contornar sua ausência durante o período eleitoral do ano que vem.

Essas estratégias vão desde o emprego de figuras de papelão de Bolsonaro em eventos do partido até a sugestão do uso de inteligência artificial para anunciar o apoio do ex-presidente a candidatos da legenda.

A ideia de usar a ferramenta para produzir conteúdos com Bolsonaro chegou ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto. Parte dos integrantes do PL, porém, é contra. Alguns temem que a estratégia abra as portas para que candidatos não apoiados pelo ex-presidente façam o mesmo, em busca de ganhos eleitorais.

Além disso, há preocupação em parte do grupo de que materiais produzidos com IA exponham os candidatos a ataques por parte de adversários, que poderiam tentar classificar as peças como enganosas mesmo se estiver claro que elas foram feitas com esse tipo de ferramenta.

Professor de Direito na USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador do tema, Juliano Maranhão diz que a utilização da inteligência artificial neste caso seria a princípio regular, contanto que assinalada na própria publicação, como determina o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O conteúdo também não poderia levar o eleitor a acreditar que o ex-presidente está em liberdade, afirma.

“Não poderia ser usada para enganar o eleitor. Pelo fato de estar preso, se passar a impressão contrária, aí poderia ser questionado se não estaria desinformando, passando uma percepção equivocada”, diz ele.

No caso de candidatos não autorizados utilizarem a imagem do ex-presidente em IAs para fingir que são apoiados por ele, Maranhão afirma que o PL poderia entrar com uma ação para retirar das redes o conteúdo desinformativo.

Após a prisão de Bolsonaro, integrantes de seu grupo político já publicaram montagens com ele para sinalizar apoio e proximidade. É o caso do vice-prefeito de São Paulo, coronel Mello Araújo (PL), que chegou à chapa liderada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) por indicação do ex-presidente.

O vice-prefeito diz que produziu e publicou as montagens por iniciativa própria, como endosso a Bolsonaro. Em grupos de Whatsapp com apoiadores, deputados bolsonaristas paulistas receberam links para ferramentas que permitem a inserção de imagens do ex-presidente em fotos do usuário.

Em outra frente, eventos do PL multiplicaram banners e imagens de papelão do ex-presidente, desde que foi preso no início de agosto. Na vigília convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no último dia 22, por exemplo, ele discursou e orou ao lado de uma imagem em tamanho real de papelão do pai.

A organização do evento foi um dos motivos que levaram ao pedido de prisão preventiva de Bolsonaro, horas antes. Desde então, o ex-presidente tem sido mantido na Superintendência da PF (Polícia Federal) em Brasília, onde Moraes determinou o cumprimento da sua pena pela trama golpista.

Deputados do PL avaliam que os candidatos que mais devem sofrer com a ausência de Bolsonaro são aqueles que não têm base eleitoral nos estados, mais presentes nas redes e mais dependentes do voto ideológico.

Apenas no primeiro semestre de 2024, ano de eleições municipais, Bolsonaro visitou mais de 20 cidades entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três principais colégios eleitorais do país.

Em tese, figuras de grande projeção, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), poderiam ocupar em 2026 o vazio deixado pelo ex-presidente como cabo eleitoral. No pleito do ano passado, os dois chegaram a assumir em parte esta função, percorrendo o Brasil e gravando conteúdos de apoio a outros candidatos.

Michelle e Nikolas, porém, estarão envolvidos em suas próprias campanhas no próximo ano —ele buscará a reeleição e ela deve disputar o Senado pelo Distrito Federal—, o que reduzirá o tempo disponível para se dedicarem a correligionários.

No primeiro turno, a expectativa é que se dediquem aos seus colégios eleitorais, mas poderiam assumir um papel de maior relevância no segundo turno nas campanhas de governadores e à Presidência.

Aliados de Bolsonaro, desde o início do ano, já vinham se queixando de que uma eventual prisão dificultaria uma campanha eleitoral para todos os cargos da direita.

No escopo da narrativa de que o ex-presidente seria alvo de uma perseguição política, este é citado como um dos motivos para a prisão —a ideia de que ela seria decretada também para atrapalhar a eleição dos candidatos bolsonaristas.

Esta também é uma das justificativas que o centrão dá para cobrar o anúncio, ainda em 2025, de um sucessor do espólio de Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Líderes gostariam de já começar a fazer campanha mais direcionada com um novo nome.

Em outra frente, a proximidade com Bolsonaro pode aumentar a rejeição de alguns candidatos. De acordo com integrantes do partido que medem essas possibilidades, Flávio Bolsonaro carregaria mais rejeição com seu nome do que o governador Tarcísio de Fretas (Republicanos), na condição de presidenciável.

A avaliação é que Tarcísio, indicado por Bolsonaro, é visto pelo eleitorado como uma espécie de evolução do bolsonarismo, de acordo com um aliado. E, se houver mesmo a indicação do governador, ele tem muito material histórico ao lado do ex-presidente para explorar na campanha.

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