Anápolis é a primeira cidade do país a testar tecnologia que “queima” larva do mosquito da dengue
Pesquisa realizada em parceria entre a UniEVANGÉLICA e a USP São Carlos levou dez anos para ser desenvolvida

Uma parceria feita entre a Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA) e a Universidade de São Paulo (USP) colocou Anápolis no centro de uma pesquisa que pode revolucionar o combate à dengue.
Juntas, as duas instituições vêm desenvolvendo uma cápsula que pode matar as larvas do Aedes aegypti antes que ele se torne um mosquito capaz de disseminar não só a dengue, mas também a chikungunya, o zikavírus e a febre amarela.
Anápolis é palco da fase 3 de aplicação da pesquisa, quando os testes são conduzidos fora do laboratório, “na vida real”. O lançamento aconteceu nesta quarta-feira (21), em cerimônia na sede da UniEVANGÉLICA, e o projeto é aplicado já nesta quinta-feira (22), na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Esperança.
A escolha não é ao acaso: parte de um estudo epidemiológico realizado pela Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), que indicou que o bairro é o mais afetado pela dengue na cidade – seguido pela Vila Jaiara.
Entenda a nova tecnologia
Lucas Dias, coordenador da pesquisa na UniEVANGÉLICA, explica que o larvicida se trata de uma cápsula de curcumina, proveniente do açafrão-da-terra. Distribuída em uma embalagem de alumínio, ela deve ser aplicada nos criadouros.
Ali, libera um composto fotodinâmico – que reage à luz. Ele atrai a larva do Aedes aegypti, que acaba “comendo” a substância. Como a larva é transparente, a luz passa pelo corpo dela e ativa a molécula engolida. Isso causa um processo de oxidação – na prática, é como se ela queimasse de dentro para fora.

Lucas Dias é coordenador da pesquisa na UniEVANGÉLICA. (Foto: Natália Sezil/Portal 6)
Lucas conta que o projeto vem sendo desenvolvido há mais de dez anos. Começou na USP São Carlos, sendo levado à UniEVANGÉLICA, em Anápolis, quando ele mesmo se mudou. Ao longo da década, dezenas de pesquisadores contribuíram para que se chegasse ao resultado final.
Para ele, esse é mais um resultado do que deve ser o papel da universidade: “uma ciência com responsabilidade social”.
Tecnologia reconhecidamente inovadora
Ao longo da cerimônia, diversas autoridades e especialistas indicaram as mudanças que a pesquisa pode trazer.
Para Sandro Dutra, pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da UniEVANGÉLICA, “essa tarde é histórica. Anápolis vai ser a primeira cidade no Brasil a receber a fase 3 da pesquisa. Passa a ser referência na aplicação da patente desse trabalho com o fotolarvicida”.
Carlos Hassel Mendes, reitor da universidade, ecoou a importância do acontecimento: “é um projeto a várias mãos para o bem da saúde coletiva da cidade, do estado, e quiçá do país”.
O reitor justificou falando da importância de realizar pesquisas que entreguem resultados à população. Explicou que a norma existente no campo é que se tenha “aplicabilidade imediata daquilo que se está colhendo na universidade”.
O presidente da Associação Educativa Evangélica (AEE), Ernei de Oliveira Pina, afirmou em coletiva de imprensa que “é uma grande honra” que a universidade tenha desenvolvido uma pesquisa junto à USP.
E completou: “o que nós destacamos aqui é que quando a pesquisa passa pelos portões da universidade e alcança a população, ela ganha um significado diferente. Estamos dando um passo importantíssimo para o combate e a eliminação da dengue”.

Carlos Hassel Mendes, Márcio Corrêa e Ernei de Pina. (Foto: Natália Sezil/Portal 6)
Parceria com a Prefeitura
Por se tratar de saúde pública, o envolvimento da Prefeitura de Anápolis na parceria é indispensável. Sandro reafirmou isso, e o prefeito Márcio Corrêa (PL) ressaltou que o cuidado com a dengue é constante. “Iniciamos a gestão com tolerância zero. Tivemos três mortes em 2025. Mesmo assim, nada supera o trabalho preventivo, a dengue é cíclica e precisamos unir forças”.
Márcio destacou ao Portal 6 que “Anápolis é prestigiada por ter universidade e ser um polo na área da saúde, especialmente pela oportunidade de ter parceiros que buscam métodos eficazes, sustentáveis, no sentido de melhorar a vida das pessoas”.
“Temos feito parcerias com universidades e faculdades para que possamos fazer com que as políticas públicas cheguem através de evidências e dados ao cidadão. O cidadão, lá na ponta, depende do setor público, então temos trabalhado com parcerias em diversas áreas”. E finalizou: “que a gente possa somar forças no momento desafiador da nossa gestão”.
Números preocupam
Anápolis teve 55 casos de dengue em 2025, com três óbitos. Ao todo, Goiás somou 70.491 casos, com 106 mortes confirmadas e 46 suspeitas.
Sérgio Vencio, secretário-adjunto de estado da Saúde de Goiás, que presenciou o evento representando o governador Ronaldo Caiado (UB), deixou um alerta: “vamos ter um ano de arboviroses, talvez um dos piores do nosso estado”.

Sérgio Vencio, secretário-adjunto de estado da Saúde de Goiás. (Foto: Natália Sezil/Portal 6)
E avisou: “quando sentem sintomas virais, as pessoas procuram postos de saúde e tratam como dengue e esquecem de tentar diagnósticos alternativos [zykavírus, chikungunya e febre amarela]”.
O secretário-adjunto também explicou como deve ser o processo para que haja a aplicação do novo produto criado pela UniEVANGÉLICA em parceria com a USP São Carlos.
“Tendo aprovação dos órgãos regulatórios, da Anvisa, podemos comercializar esses produtos. Vai sair a um preço acessível para prefeituras e estados, e aí sim vamos conseguir distribuir isso para todo mundo e combater a larva antes de virar mosquito, evitando a transmissão da dengue”.
Ernei de Pina, presidente da AEE, afirmou que está otimista para que o composto “possa ser produzido a partir do ano que vem, utilizando aqui a influência da Prefeitura, o polo farmoquímico de Anápolis, o laboratório de farmácia da universidade”.
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