Projeto bilionário da China planta milhões de árvores para conter o deserto e gera efeito colateral, reduzindo a água disponível na região

Iniciativa criada para barrar o avanço do Deserto de Gobi ajudou a capturar carbono, mas acabou alterando o ciclo da água e gerando novos desafios ambientais

Gabriel Yuri Souto Gabriel Yuri Souto -
Projeto bilionário da China planta milhões de árvores para conter o deserto, mas ação altera o ciclo da água e reduz a disponibilidade hídrica em várias regiões
(Foto: Captura de tela/YouTube)

O projeto bilionário da China que planta milhões de árvores para conter o deserto ganhou destaque internacional pelos resultados iniciais positivos.

A iniciativa conseguiu frear o avanço do Deserto de Gobi em diversas áreas. No entanto, pesquisas recentes mostram que o reflorestamento em larga escala também gerou efeitos colaterais inesperados.

Embora a cobertura vegetal tenha aumentado, a disponibilidade de água diminuiu em regiões inteiras do país. Dessa forma, especialistas passaram a questionar se plantar árvores, por si só, garante sustentabilidade ambiental.

A estratégia chinesa para conter o Deserto de Gobi

O norte da China convive há décadas com o avanço da desertificação. O Deserto de Gobi ameaçava cidades, áreas agrícolas e rotas comerciais estratégicas. Diante disso, o governo decidiu agir.

Assim, lançou a chamada Grande Muralha Verde da China. O plano previa o plantio de milhões de árvores para criar uma barreira natural contra a areia.

Além disso, o projeto prometia capturar grandes volumes de dióxido de carbono da atmosfera.

Nos primeiros anos, os resultados animaram as autoridades. O avanço do deserto desacelerou e os mapas oficiais passaram a registrar mais áreas verdes.

Escolha das espécies acelerou novos problemas

Com o passar do tempo, porém, surgiram sinais de alerta. Relatórios citados pela Weather mostram que muitas árvores plantadas não pertencem ao ecossistema local.

O governo priorizou espécies de crescimento rápido para apresentar resultados visíveis em pouco tempo. Entretanto, essas árvores exigem grandes volumes de água para sobreviver.

Por isso, o consumo hídrico aumentou de forma significativa justamente em regiões já marcadas pela escassez.

Menos água no solo e impacto direto no ciclo das chuvas

As árvores retiram água do solo e devolvem parte dessa umidade para a atmosfera por meio da evapotranspiração. Em áreas úmidas, esse processo ajuda a equilibrar o clima. Contudo, em regiões áridas, o efeito pode ser o oposto.

Um estudo publicado na revista científica Earth’s Future aponta que, entre 2001 e 2020, houve redução da água doce no leste e no noroeste da China. Enquanto isso, áreas como o Planalto Tibetano registraram aumento da umidade.

Isso significa que a água continuou circulando. No entanto, passou a cair em locais diferentes, longe das regiões que mais precisavam de chuva.

Florestas passaram a competir com a população por água

Com menos água disponível no solo, as florestas artificiais começaram a disputar o recurso com a população local. Agricultores sentiram os impactos primeiro.

Em várias regiões, a produtividade agrícola caiu. Além disso, comunidades passaram a enfrentar dificuldades no abastecimento, especialmente durante períodos de seca prolongada.

Dessa forma, o projeto ambiental acabou criando novos desafios sociais e econômicos.

África adotou uma abordagem diferente

Enquanto a China apostou em escala e rapidez, países africanos seguiram outro caminho. A Grande Muralha Verde africana surgiu sob coordenação da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

Inicialmente, o plano previa um cinturão contínuo de árvores atravessando cerca de 8 mil quilômetros. Com o tempo, porém, o projeto mudou.

Hoje, ele funciona como um mosaico de intervenções. A estratégia inclui regeneração natural, manejo sustentável da terra e participação direta das comunidades locais.

Árvores como ferramenta, não como objetivo final

Na África, a árvore não representa o fim do processo. Pelo contrário, ela serve como instrumento para melhorar a segurança alimentar, fortalecer a economia local e garantir o uso inteligente da água.

A meta inclui restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas até 2030. Além disso, o projeto busca sequestrar 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos verdes.

Esse modelo ajuda a evitar erros associados a monoculturas e ao consumo excessivo de recursos naturais.

O que o projeto chinês ensina ao mundo

A comparação entre China e África deixa uma lição clara. No combate às mudanças climáticas, plantar árvores não basta.

É preciso escolher espécies adequadas, respeitar o ecossistema local e considerar as necessidades humanas. Caso contrário, soluções ambientais podem gerar novos problemas.

Assim, o projeto bilionário da China mostra que sustentabilidade exige planejamento cuidadoso, equilíbrio ecológico e visão de longo prazo.

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Gabriel Yuri Souto

Gabriel Yuri Souto

Redator e gestor de tráfego. Especialista em SEO.

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