Projeto bilionário da China planta milhões de árvores para conter o deserto e gera efeito colateral, reduzindo a água disponível na região
Iniciativa criada para barrar o avanço do Deserto de Gobi ajudou a capturar carbono, mas acabou alterando o ciclo da água e gerando novos desafios ambientais

O projeto bilionário da China que planta milhões de árvores para conter o deserto ganhou destaque internacional pelos resultados iniciais positivos.
A iniciativa conseguiu frear o avanço do Deserto de Gobi em diversas áreas. No entanto, pesquisas recentes mostram que o reflorestamento em larga escala também gerou efeitos colaterais inesperados.
Embora a cobertura vegetal tenha aumentado, a disponibilidade de água diminuiu em regiões inteiras do país. Dessa forma, especialistas passaram a questionar se plantar árvores, por si só, garante sustentabilidade ambiental.
A estratégia chinesa para conter o Deserto de Gobi
O norte da China convive há décadas com o avanço da desertificação. O Deserto de Gobi ameaçava cidades, áreas agrícolas e rotas comerciais estratégicas. Diante disso, o governo decidiu agir.
Assim, lançou a chamada Grande Muralha Verde da China. O plano previa o plantio de milhões de árvores para criar uma barreira natural contra a areia.
Além disso, o projeto prometia capturar grandes volumes de dióxido de carbono da atmosfera.
Nos primeiros anos, os resultados animaram as autoridades. O avanço do deserto desacelerou e os mapas oficiais passaram a registrar mais áreas verdes.
Escolha das espécies acelerou novos problemas
Com o passar do tempo, porém, surgiram sinais de alerta. Relatórios citados pela Weather mostram que muitas árvores plantadas não pertencem ao ecossistema local.
O governo priorizou espécies de crescimento rápido para apresentar resultados visíveis em pouco tempo. Entretanto, essas árvores exigem grandes volumes de água para sobreviver.
Por isso, o consumo hídrico aumentou de forma significativa justamente em regiões já marcadas pela escassez.
Menos água no solo e impacto direto no ciclo das chuvas
As árvores retiram água do solo e devolvem parte dessa umidade para a atmosfera por meio da evapotranspiração. Em áreas úmidas, esse processo ajuda a equilibrar o clima. Contudo, em regiões áridas, o efeito pode ser o oposto.
Um estudo publicado na revista científica Earth’s Future aponta que, entre 2001 e 2020, houve redução da água doce no leste e no noroeste da China. Enquanto isso, áreas como o Planalto Tibetano registraram aumento da umidade.
Isso significa que a água continuou circulando. No entanto, passou a cair em locais diferentes, longe das regiões que mais precisavam de chuva.
Florestas passaram a competir com a população por água
Com menos água disponível no solo, as florestas artificiais começaram a disputar o recurso com a população local. Agricultores sentiram os impactos primeiro.
Em várias regiões, a produtividade agrícola caiu. Além disso, comunidades passaram a enfrentar dificuldades no abastecimento, especialmente durante períodos de seca prolongada.
Dessa forma, o projeto ambiental acabou criando novos desafios sociais e econômicos.
África adotou uma abordagem diferente
Enquanto a China apostou em escala e rapidez, países africanos seguiram outro caminho. A Grande Muralha Verde africana surgiu sob coordenação da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).
Inicialmente, o plano previa um cinturão contínuo de árvores atravessando cerca de 8 mil quilômetros. Com o tempo, porém, o projeto mudou.
Hoje, ele funciona como um mosaico de intervenções. A estratégia inclui regeneração natural, manejo sustentável da terra e participação direta das comunidades locais.
Árvores como ferramenta, não como objetivo final
Na África, a árvore não representa o fim do processo. Pelo contrário, ela serve como instrumento para melhorar a segurança alimentar, fortalecer a economia local e garantir o uso inteligente da água.
A meta inclui restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas até 2030. Além disso, o projeto busca sequestrar 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos verdes.
Esse modelo ajuda a evitar erros associados a monoculturas e ao consumo excessivo de recursos naturais.
O que o projeto chinês ensina ao mundo
A comparação entre China e África deixa uma lição clara. No combate às mudanças climáticas, plantar árvores não basta.
É preciso escolher espécies adequadas, respeitar o ecossistema local e considerar as necessidades humanas. Caso contrário, soluções ambientais podem gerar novos problemas.
Assim, o projeto bilionário da China mostra que sustentabilidade exige planejamento cuidadoso, equilíbrio ecológico e visão de longo prazo.
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