A força do direito ou o direito a força: o fim da política
A força substituiu o direito, e os novos candidatos a imperadores já não fazem questão de disfarçar essa opção

A política é aquela atividade que foi ‘inventada’ para driblar as guerras, promover a ordem e a paz nas relações entre pessoas e Estados e, de modo decisivo, estimular a humanização. A política “busca o que deve ser o bem, (…) a doutrina do direito e da moral”.
A ausência dessa política, entendida como prática de humanização, resultou em algumas das maiores tragédias da história: o genocídio dos armênios praticado pelo Império Turco-Otomano (1915); os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, Sobibor e outros (1939-45); os campos de trabalho forçado na Sibéria, os Gulags (1930); os porões das ditaduras latino-americanas, onde se torturou e matou os “indesejados” (anos 1960); além de dezenas de golpes e tentativas de golpe de Estado mundo afora.
Alguns vão dizer para esquecermos essas tragédias. Contudo, “a história é a consciência da humanidade” e deve “lembrar aquilo que muitos querem esquecer”.
A lembrança pode trazer dor, sofrimento e até novos traumas, mas também pode nos alertar quanto ao caminho que estamos tomando. Esquecer é cometer um grave pecado. Por isso, é preciso lembrar:
A Segunda Guerra Mundial teve um nome: Hitler. Mas, tudo se iniciou com a “Teoria do Espaço Vital”. Daí os nazistas justificavam a necessidade de invadir outros territórios para que a “raça ariana”, os “mais civilizados” e “superiores”, pudessem ter mais espaço para se desenvolver.
O Plano Geopolítico criou, dentre outros absurdos, uma indústria da morte para homossexuais, comunistas, judeus, ciganos e testemunhas de Jeová – todos considerados “inferiores”, “indesejados” e “descartáveis”. Pela lógica do regime eles mereciam morrer; precisavam morrer.
A catástrofe foi consumada, e o sociólogo Theodor Adorno, filho de pai judeu-alemão afirmou: “não é possível escrever poesia depois de Auschwitz”. Auschwitz deu lições de maldade ao próprio inferno. O mundo perdeu a esperança, perdeu a poesia. Mas, o tempo passou e…
A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022; a China fez exercícios militares ensaiando um cerco a Taiwan em 30 de dezembro de 2025; Israel planeja continuar a ofensiva e ocupar todo o território de Gaza, 2026; os Estados Unidos invadiram a Venezuela em 03 de janeiro de 2026 e o presidente daquele país afirma que “o hemisfério é nosso”, além de ameaçar Cuba, Colômbia e Groelândia.
Ressurge a lógica da “Teoria do Espaço Vital”. Evidentemente, cada uma dessas ações possui as suas especificidades – e eu reconheço que a analogia é forçada -, mas tudo aponta para a substituição da política que evita a guerra para uma política da guerra.
A força substituiu o direito, e os novos candidatos a imperadores já não fazem questão de disfarçar essa opção.
Vamos com cautela. A ameaça não está apenas “lá fora”, no “exterior”, “nos outros países”. Aqui no Centro-Oeste brasileiro, a política como busca do bem supremo também parece estar em declínio.
Isso é revelado quando se fala pejorativamente de gays, acusando-os de “destruir a família”; quando se disfarça o racismo com a desculpa de que “era só uma piada”, e “eu até tenho amigos negros…”; quando se naturalizam expressões como, “bandido bom é bandido morto”, “nas universidades só têm comunistas”, ou quando se afirma que “o pacifismo é coisa de fraco, pois a vida é uma guerra”.
Eu penso que, quando se faz mal a alguém, se faz mal a todos, porque “um homem vale todos os homens, e qualquer pessoa vale esse homem”.
Penso que o que destrói a família não são as diferenças, mas o homem violento, preconceituoso, o mau pai de família que desrespeita mulher e filhos.
Penso que se até igrejas cristãs passaram a eleger as riquezas materiais como valor supremo, é porque se perdeu a essência das “boas novas” de amor ao próximo anunciadas por Jesus.
Penso, ainda, que palavras expressam mundos, e que palavras racistas – que ridicularizam e inferiorizam os mais fracos e pobres – aumentam o sofrimento humano e aniquilam a esperança de dias melhores.
De fato, penso que nossa sociedade está a um passo de, mais uma vez, justificar a morte de comunistas, homossexuais, ciganos, judeus e testemunhas de Jeová — ainda que sob outras categorias e novas nomenclaturas.
Siga o Portal 6 no Google News fique por dentro de tudo!





