Ela não pediu um remédio. Clamou por socorro
Quantas dores estamos tentando tratar sem antes ouvir o que elas estão tentando dizer?

“Será que consigo sair dessa? Me ajuda!”,
“Não aguento mais o peso que sinto!”,
“Tô cansada de lutar para viver!”, “Saio na rua sem saber que direção vou, e ando até a angústia diminuir e volto para casa.”,
“Me deixa trancada em um lugar quietinha”.
Essas frases vieram de um consultório de ortopedia. Foram ditas por uma mulher, enquanto eu examinava um corpo que doía e uma alma que gritava. Antes, durante e depois da consulta, a dor que ela transmitia não era apenas física: era silenciosa, pesada, impossível de medir por exames.
O contexto explica, mas não alivia: marido em hemodiálise, filhos com problemas, inúmeras dificuldades.
A sobrecarga virou estado permanente. A medicina costuma buscar a origem da dor em ossos, nervos e articulações; mas ali ficou claro que havia uma dor subjetiva, porém real, que altera postura, olhar, respiração e até a forma de caminhar. Ignorá-la é tratar apenas parte do problema e, muitas vezes, a parte menor.
Janeiro Branco não é campanha de calendário: é um alerta. Saúde mental não é luxo, fraqueza ou “assunto para depois”. É base.
Histórias como essa lembram que pessoas chegam aos serviços de saúde carregando fardos invisíveis. Quando não escutamos, medicalizamos o silêncio; quando escutamos, abrimos a possibilidade de cuidado real.
Talvez a maior pergunta deste Janeiro Branco que se encerra, seja simples e incômoda: quantas dores estamos tentando tratar sem antes ouvir o que elas estão tentando dizer?







