Salário mínimo no Brasil: quanto era o valor quando começou a valer?

O salário mínimo saiu do papel com comissões, “cesta básica” e pesquisa de custo de vida até virar valor em mil-réis

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
Salário mínimo no Brasil: quanto era o valor quando começou a valer?
(Foto: Reprodução)

Antes de virar número no contracheque, o salário mínimo foi uma promessa cercada de cálculo, comissões e levantamentos.

Entre 1936 e 1940, o Brasil viveu uma fase de transição em que o direito já existia na lei, mas ainda não tinha valor definido para a maioria dos trabalhadores.

O período coincidiu com mudanças políticas profundas e com a tentativa do Estado de transformar um conceito social em uma métrica econômica real. O resultado dessa equação foi um modelo que começou regionalizado e baseado em custo de vida.

Para entender quanto era o salário mínimo quando passou a valer de fato, é preciso olhar para o que veio antes: a máquina criada para chegar ao número.

Primeiro veio a estrutura: as comissões que calculariam o salário mínimo

A virada inicial ocorreu com a Lei nº 185, de 14 de janeiro de 1936, que instituiu as Comissões de Salário Mínimo e definiu que seriam esses órgãos os responsáveis por fixar o valor, com representação de empregadores e empregados e presidência indicada pelo governo.

A lógica era regional. O próprio desenho da política partia da ideia de que o Brasil tinha custos de vida muito diferentes e, por isso, um valor único poderia distorcer o objetivo do piso.

Na prática, essa fase foi de preparação institucional. O direito estava criado, mas o “quanto” ainda dependia de método, dados e organização administrativa.

O “marco do cálculo”: cesta básica, custo de vida e regionalização

O passo decisivo para transformar promessa em número veio com o Decreto-Lei nº 399, de 30 de abril de 1938, que aprovou o regulamento para executar a lei de 1936 e detalhou como o salário mínimo deveria ser calculado e operacionalizado.

Esse modelo ficou conhecido por embasar o cálculo em necessidades consideradas essenciais, como alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte, além de prever pesquisa e parâmetros para estimar custo de vida.

A “cesta básica” entrou como referência clássica desse método. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) registra que o decreto determinou uma cesta com uma quantidade consuiderada suficiente para o sustento mensal de um trabalhador adulto, variando conforme hábitos regionais.

O desfecho em 1940: quanto era e por que havia vários salários mínimos

O valor foi finalmente fixado com o Decreto-Lei nº 2.162, de 1º de maio de 1940, que instituiu o salário mínimo no país e consolidou o sistema de valores definidos a partir daquela metodologia.

No começo, ele não nasceu como “um número só”. A aplicação foi regionalizada, com faixas diferentes para refletir custo de vida e realidade local, o que explica por que as tabelas da época traziam vários pisos.

Como referência histórica, a Fundação Biblioteca Nacional registra que o trabalhador deveria ganhar, então, pelo menos cerca de 240 mil-réis, em um contexto de valores distintos por região.

Afinal, quanto vale isso em reais?

De acordo com cálculos, os 240 mil-réis de 1940 equivaleriam hoje (fevereiro de 2026) a algo entre R$ 1.100,00 e R$ 2.750,00, a depender do índice de inflação utilizado. Pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o valor ficaria em torno de R$ 1.100,00 a R$ 1.350,00.

Já pelo Índice do Custo de Vida (ICV), calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que leva em conta o custo real enfrentado por famílias de baixa renda, o salário mínimo de 1940 teria um poder de compra significativamente maior, chegando hoje a cerca de R$ 2.754,00.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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