História de Carnaval

Essa história ainda me faz dar risadas. Tem algo de lúdico e revela a imaginação criativa do brasileiro

Pedro Sahium -
História de Carnaval
(Foto: Gravura/Arquivo Pessoal)

Há uma história de carnaval que gosto de contar. Não pela festa em si, mas pelo que ela ilustra — ou revela — sobre a nossa sociedade e sobre nós mesmos. Sei que o antropólogo Roberto DaMatta já nos deixou, em suas obras, muitos ensinamentos que merecem ser lidos; entre eles, recomendo o livro Carnavais, malandros e heróis. A minha história não aconteceu de fato, mas acontece sempre que a descrevo. É pitoresca, aqui da nossa freguesia anapolina; faz-me rir e renova meu senso crítico. Vamos a ela.

Era o último dia de carnaval. Um grande clube da cidade — o Clube Recreativo Anapolino — promovia sua tradicional festa à fantasia. Um folião, que passou o ano inteiro preparando sua fantasia de “capeta” — o “cramunhão”, que por estas bandas de Goiás é representado como um capetinha vermelho preso dentro de uma garrafa —, resolveu ir a pé até o clube que ficava perto de sua casa.

A fantasia, de material emborrachado e colada ao corpo, cobria-o por inteiro, deixando de fora apenas a parte frontal do rosto. O folião deixara crescer um cavanhaque que, combinado ao sorriso de dentes grandes, às sobrancelhas engrossadas com tinta preta, às orelhas pontiagudas e aos chifres, conferia-lhe identidade inquestionável: era o capeta. Portava ainda um tridente e a fantasia incluía um rabo comprido com seta na ponta.

No curto trajeto até o clube, percebeu que teria que correr: o céu noturno embranquecido anunciava chuva. Não deu tempo. O vento ficou forte e a chuva se precipitou. Voltar era pior. A fantasia começou a encharcar e era preciso protegê-la. Mas onde, àquela hora?

A salvação surgiu na forma de uma porta aberta do outro lado da rua. Lá dentro, tudo estava iluminado. Ele apertou o tridente numa mão, enrolou o rabo comprido na outra mão e, agradecido a Deus, correu em direção à porta salvadora. Tratava-se, porém, de uma igreja evangélica. Os fiéis estavam em vigília, e, no exato momento em que ele entrou, o pastor bradava contra o diabo:

— E o diabo… olhem ele aí, meus irmãos!

Foi uma correria geral. Páginas de Bíblias voaram; gente pulava pelas janelas; pela porta passaram, milagrosamente ao mesmo tempo, quinze fiéis. O “capeta” folião, sem entender o que acontecia, aproximou-se de uma senhora — a única que permanecera ali, pois, na confusão, alguém chutara suas muletas. Ela ainda tentou correr, apoiando-se nos bancos, mas não conseguiu. O folião se aproximou, e ela, com um sorriso constrangido, declarou:

— Olha, faz dez anos que estou nesta igreja, mas sempre estive do lado do senhor!!!

Essa história ainda me faz dar risadas. Tem algo de lúdico e revela a imaginação criativa do brasileiro. E essa imaginação talvez não esteja tão distante da realidade. Basta abrir as redes sociais e ler as notícias: “pastor evangélico, em nome de uma suposta ‘recuperação da masculinidade viril’, divulga encontro de homens da igreja exibindo a Bíblia ao lado de uma arma de fogo” — o mesmo religioso rejeita o uso da palavra “feminicídio” no Código Penal e reafirma posições de “disciplina, ordem e poder masculino”; padre católico, durante homilia, utiliza a morte de uma cantora para atacar religiões de matriz afro-indígena, chamando-as de “endemoniadas” (sic) e incentivando o ódio; áreas VIP em templos religiosos se destinam a fiéis ricos, com serviços de buffet e massagem.

De que lado estão estas igrejas, padres, pastores e líderes religiosos? Penso que a proximidade de igrejas cristãs, de modo geral, com práticas do mercado neoliberal transformou “pregadores evangélicos em gerentes e treinadores motivacionais, que pregam o novo evangelho do desempenho e da otimização sem fim”, como nos lembra o escritor contemporâneo Byung-Chul Han.

Quando a fé se aproxima demais do espetáculo, do poder ou do mercado, corre o risco de perder sua centralidade no Evangelho. A espiritualidade se transforma em produto e performance. Tudo gira em torno do “resultado”. E, quando isso acontece, o anúncio da graça pode ser substituído pela lógica da eficiência, da prosperidade e da exclusão.

O Evangelho, porém, aponta noutra direção. Jesus não se alinhou aos poderosos nem organizou áreas VIP para os mais influentes. Aproximou-se dos pobres, dos marginalizados, dos considerados impuros. Não expulsou os frágeis; acolheu-os. Não alimentou o medo; ofereceu misericórdia.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Teologia pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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