Mais médicos, menos preparo: quem paga essa conta é a população
Abrir curso é fácil no papel e é lucrativo, difícil é garantir hospital de ensino, professores qualificados e prática real para os estudantes

Vimos no Brasil, pela primeira vez, a aplicação do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) e o resultado acendeu um alerta que não pode ser ignorado. Foi divulgado agora em janeiro de 2026, e revelou que cerca de 30% dos 351 cursos de medicina avaliados tiveram desempenho insatisfatório (conceitos 1 ou 2). Não é um detalhe técnico. É um sinal vermelho.
Nos últimos anos, o número de faculdades de Medicina cresceu em ritmo acelerado. A promessa era ampliar o acesso e suprir a falta de profissionais. Mas abrir curso é fácil no papel e é lucrativo; difícil é garantir hospital de ensino, professores qualificados e prática real para os estudantes.
O Enamed mostrou que nem todos estão entregando o que prometem.
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O lucro no ensino médico (R$) parece estar acima da saúde das pessoas. É inadmissível que até a saúde no Brasil seja refém de esquemas ilícitos e de conluios econômicos.
Na prática, isso aparece de outra forma. Recebo muitos pedidos de médicos recém-formados em busca do primeiro emprego. Jovens enfrentando um mercado saturado. Estamos formando mais do que o sistema consegue absorver e nem sempre com a qualidade necessária.
Não se trata de ser contra a expansão ou contra oportunidades para quem sonha em ser médico. Pelo contrário. O acesso é importante. O que não pode acontecer é transformar um curso tão sensível em negócio sem responsabilidade. Saúde não admite improviso.
O Enamed veio para mostrar, com números, o que já percebemos na ponta. Agora que os dados estão postos, o debate precisa sair do discurso e entrar nas decisões. Porque, no fim, quem depende dessa formação não é o investidor. É o paciente.
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