Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá

Dizer que somos feitos de histórias, mais do que de moléculas, é reconhecer que a experiência humana é mediada por símbolos

Pedro Sahium -
Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá
(Imagem: Nanquim sobre papel – Luiz Antonio Costa)

Os árabes são ótimos contadores de histórias. Quem nunca ouviu falar de narrativas como Aladim e a lâmpada maravilhosa; As mil e uma noites; Ali Babá e os quarenta ladrões; O jardim perfumado, entre tantas outras? São muitos os contos, as fábulas, e as obras que atravessam a história pela capacidade de nos encantar. Muitas nos fazem refletir sobre temas fundamentais como a vida e a morte. Algumas são vividas como experiências de libertação, redenção ou catarse. Portanto, é preciso atenção com as histórias.

Aliás, eu ouvi dizer que somos feitos de histórias e não de moléculas. Dizer que somos feitos de histórias, mais do que de moléculas, não é negar a materialidade da existência, mas reconhecer que a experiência humana é mediada por símbolos.

Mas de que histórias estamos falando? É da ciência ou da ficção? Dá para sentir que ciência e ficção são palavras perigosas; às vezes, os títulos de real e de falso se embaralham, confundindo nossa compreensão. Às vezes, o discurso da ficção está mais próximo do real do que o discurso objetivante da ciência.

Vamos deixar de lado essas questões e avancemos para o essencial. Vou contar uma história que li há muito tempo. Vou contá-la para que você se identifique nela; quem sabe assim, poderá experimentar um tipo de redenção, de libertação, ou catarse.

“Um homem, ao morrer, deixou suas terras para os filhos. Todos receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco, um pântano – inútil para a agricultura. Vieram os amigos para lamentar a injustiça que o pai lhe havia feito. Mas dele só ouviram uma resposta serena: “Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá!”.

No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país. As terras dos seus irmãos foram devastadas, o pasto secou e o gado morreu. Mas o pântano do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo, e ele comprou um lindo cavalo por um preço altíssimo. Vieram os amigos para celebrar essa riqueza, mas do homem ouviram a frase: “Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá!”.

Pouco depois, o cavalo de raça fugiu, e foi grande a tristeza. Voltaram os amigos pala lamentar essa perda, mas daquele homem ouviram a frase de sempre: “Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá!”.

Na outra semana o seu cavalo de raça voltou, trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar essa nova riqueza, mas ouviram do homem a frase de sempre: “Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá!”.

Naquela mesma semana, o seu filho sem juízo montou um cavalo selvagem, o cavalo corcoveou e o lançou longe. O jovem quebrou uma perna. Vieram os amigos para lamentar essa desgraça. “Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá!”, o pai repetiu.

No dia seguinte, vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos tiveram que partir, menos o seu filho de perna quebrada. Vieram os amigos para celebrar essa benção e ouviram a frase de sempre: “Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá!”.

A história termina assim, sem um fim definitivo, com reticências, e, ao contá-la, é como se eu contasse a história da minha vida. Tanto as minhas vitórias quanto as minhas derrotas duraram pouco. Não há vitória, profissional ou amorosa, que garanta que a vida se resolveu, e não há derrota que seja condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas apenas anunciam que alguma coisa nova vai começar!

Por isso, não convém desanimar. Como nos lembram as tradições espirituais: “Mesmo que o nosso corpo vá se gastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia. Até a passageira aflição poderá produzir frutos esplendorosos”.

A experiência de um caminhante do Caminho nos dá o testemunho: “Porque nós não prestamos atenção nas coisas que se veem, mas nas que não se veem. Pois o que pode ser visto dura apenas um pouco, mas o que não pode ser visto dura para sempre”.

Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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