Templos, utopia e o Papa Francisco

Precisamos de utopia, da criação de um “lugar que não existe”, ainda. Quem sabe a nossa imaginação pode nos despertar, quem sabe teremos mais gente sonhando

Pedro Sahium -
Templos, utopia e o Papa Francisco
(Foto: Reprodução)

Não se sabe se por revelação ou por algum tipo de inspiração coletiva, mas todos os líderes religiosos da cidade resolveram que, no próximo mês, as portas dos seus templos estarão fechadas. Igrejas, mesquita, terreiros, centros espíritas e outros templos não terão atividades cúlticas ou orações. Ao que se sabe, não se trata de uma medida imposta pelo Estado.

Os líderes religiosos disseram que o tempo gasto com cultos deverão ser ocupados com assistências aos pobres da cidade. A prioridade é atender “órfãos e viúvas nas suas dificuldades”. Mulheres arrimos de família deverão receber apoio, e suas casas serão equipadas com o que for preciso para que elas e seus filhos tenham melhores condições de vida. A proposta é construir uma economia solidária, aproximando-se das comunidades marginalizadas e periféricas, das minorias e de outros grupos que sofrem pelo medo, preconceito e perseguição.

Cristãos falam em amor ao próximo, perdão e compaixão; espíritas falam em caridade e doação: umbandistas e candomblecistas falam em acolhimento, escuta, cuidado com o outro e com a coletividade; muçulmanos falam no Zakat, caridade que busca justiça social. As demais religiões ressaltam a dimensão ética que alcança outras áreas humanas e ambientais.

Importante: todos os fiéis estarão dispensados do pagamento de dízimos, ofertas ou de qualquer outra contribuição, e os recursos deverão ser integralmente aplicados nas ações propostas. Padres, bispos, diáconos, pastores, pais e mães de santo, assim como outros guias espirituais, não serão considerados superiores, nem profissionais a serviço do sagrado. Todos estarão igualmente a serviço do sagrado, sem distinção.

Ouvi dizer que todos irão considerar o mal como aquele, ou aquilo, que “banaliza toda a dor e sofrimento humanos”. O diabo será chamado de ‘banalizador’. Ninguém deverá encarar a guerra, a dor ou o sofrimento físico e psicológico de alguém, como algo natural ou sem importância.

O que descrevi é um exercício intelectual – talvez também espiritual -, e não pretende, de forma alguma, igualar as tradições religiosas ou acabar com elas. Isso, aliás, não seria original. O compositor dos Beatles já sugeriu algo semelhante, de forma poética, em um dos versos de sua canção:

“Imagine que não houvesse nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz”

O que me inspirou na invenção da história – ao menos de forma consciente -, foi o desejo de cruzar pela porta apontada pelo Papa Francisco, ao convocar os católicos a se engajarem de coração e alma para superar “esse sistema que mata” e a ajudarem a construir um ser humano solidário, ético, inclusivo nas suas relações e comprometido com um ambiente ecologicamente sustentável – e que esse convite pudesse alcançar o maior número de pessoas e que juntos fizessem a travessia.

Alguns poderão dizer que isso seria rapidamente classificado como discurso político — que eu seria chamado de comunista, ateu ou algo semelhante. Mas é verdade, a religião possui uma dimensão política (politikós — aquilo que diz respeito à cidade). É triste, porém, perceber a atual aproximação das religiões com o poder político e seu afastamento das comunidades pobres e marginalizadas. Por isso precisamos de utopia, da criação de um “lugar que não existe”, ainda. Quem sabe a nossa imaginação pode nos despertar, quem sabe teremos mais gente sonhando, como diz uma outra parte da música já citada:

“You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one”.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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