Um filme, dois poetas e a amizade

Não é preciso ter muitos amigos, mas é preciso cultivá-los. Não é necessário ser um grande leitor, mas simplesmente ler. Não é preciso ser carteiro nem poeta: mas é essencial ser humano

Pedro Sahium -
Um filme, dois poetas e a amizade
(Foto: Reprodução)

No filme “O Carteiro e o Poeta” aprendi coisas geniais. O filme foi baseado numa obra do chileno Antonio Skármeta e apresenta uma trama que se passa em 1970. Relata a amizade entre o poeta Pablo Neruda, então exilado numa ilha italiana, e Mario Ruoppolo, um carteiro de pouca instrução, responsável exclusivo por levar até a casa de Neruda as cartas que lhe eram endereçadas.

O carteiro e o poeta acabam por estabelecer uma sólida relação de amizade. O carteiro italiano, de pouquíssima instrução, aprende a amar poesia por influência de Pablo Neruda e passa a escrever cartas para conquistar o amor da bela Beatrice, uma mulher que ele muito desejava, mas que, por ser tímido, não tinha coragem de abordar diretamente. Assim, passa a escrever cartas expressando seus sentimentos e usa das poesias – inclusive de Pablo Neruda – para dizer tudo o que sentia. Não deu outra: conquistou Beatriz.

Contudo, recebeu uma reprimenda do poeta por ter usado suas poesias, sem lhe dar os créditos. O carteiro então responde: “- Mas, poeta, a poesia não é de quem a escreve, é de quem precisa dela!”.

A simplicidade do carteiro, sua humildade e pureza acabam por encantar Pablo Neruda. O filme exalta valores em que acredito. Vejo nele o valor da amizade – uma amizade que não se cansa do cotidiano, que sabe encontrar significado nas coisas já conhecidas.

Eu tenho amigos – não muitos -, mas me delicio com suas já ouvidas “contações”. São histórias que me fazem reconhecer minha cultura brasileira, goiana, orgulhosa do jeito de falar, das comidas do cerrado, dos sucos da terra e das “verdadeiras” narrativas nascidas na última pescaria.

Outra coisa em que acredito é na força da literatura, da poesia, das bem-aventuradas palavras e de sua linguagem simbólica de amor, de transformação e humanização. Experimentei e quero que você experimente isso nos escritos do poeta Manoel de Barros, lendo, “mastigando”, sem pressa, de forma vagarosa e meditativa, o que transcrevo a seguir:

“- Eu não sou solitário. Eu sou povoado de mim mesmo. Tenho meus silêncios, meus guardados, meus “eus” que conversam entre si. A solidão é quando a gente não se suporta. Mas quando a gente se tem, a gente nunca está sozinho.”
“- A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela.”
“- Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens. Não sei se isso é um gosto literário ou uma coisa genética. Procurei sempre chegar ao criançamento das palavras.”.

Nossa vida pode mudar ao experimentar a existência na perspectiva de gente como Manoel de Barros, que encantou a vida nos dizendo coisas que moravam dentro de nós e que não percebíamos. Sobre o mundo da criança, que um dia fomos, nos disse: “- Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente descobre isso depois de grande”, revelou isso de maneira hierofânica, com um olhar que integra, que une e dá sentido.

Não sou poeta – já fui quando criança, como disse minha mãe. Ao me fazer dormir numa tarde, já bem acomodado no seu colo, uma grande nuvem tapou o sol e o quarto se escureceu. Eu, que estava quase dormindo, de repente tirei o bico da boca, olhei para ela com surpresa e disse: “- O sol fechou a janela.”

É claro que não me lembro desse fato. Acreditei no relato da minha mãe e acho sensacional. As crianças são capazes de humanizar o sol – “ele fechou a janela” – humanizar a casa; de forma que a janela parece ser tocada pelo sol. Tudo cosmicamente alinhado, sensível, anímico.
Com o filme “O carteiro e o poeta” tornei-me mais consciente da beleza da vida e das amizades, da força da literatura e de sua ajuda em momentos extremos. E penso que é possível experimentar a vida de forma profunda e empolgante.

Não é preciso ter muitos amigos, mas é preciso cultivá-los. Não é necessário ser um grande leitor, mas simplesmente ler. Não é preciso ser carteiro nem poeta: mas é essencial ser humano, plenamente humano, consciente dos erros e dos acertos. Talvez seja isso que conte ao final de todas as coisas, pois como disse o poeta: “Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado. Sou fraco para os elogios”. (Manoel de Barros)

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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