Não é sobre política, é sobre humanização
Para uma família sem o básico, seiscentos reais ajudam a aliviar a fome. E a fome tem pressa

O Brasil tem de 221 milhões de habitantes. Desses, aproximadamente 18 milhões recebem o Bolsa Família, benefício que parte de R$ 600,00 por família, podendo aumentar com adicionais para crianças, adolescentes, gestantes e bebês. Para receber o auxílio, é preciso estar inscrito no Cadastro Único (CadÚnico), ter renda mensal por pessoa de até R$ 218,00 por pessoa e cumprir exigências nas áreas de saúde e educação, como vacinação em dia e frequência escolar mínima. Além disso, em 2025, cerca de 2 milhões de famílias deixaram o programa porque aumentaram sua renda, pediram desligamento ou encerraram o período de proteção.
Dito isso, a questão aqui não é política, mas compaixão e humanização. Nas redes digitais, cresce o discurso de que programas sociais como o Bolsa Família deveriam acabar. Muitos afirmam que o benefício “vicia” as pessoas e desestimula o trabalho. No entanto, os próprios números desmontam esse argumento: uma grande parte dos beneficiários trabalha e utiliza o auxílio apenas como complemento de renda.
Muitos acabam presos a informações distorcidas e bolhas de conteúdo. Repetem a ideia de que “cada um é o único responsável pelo próprio sucesso ou fracasso”, transformando a meritocracia em dogma. Outros, escandalosamente, chegam a negar a própria existência da fome no país. O ex-presidente da República é um deles, pois declarou: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem, aí eu concordo. Agora, passar fome, não”.
Hannah Arendt já havia desvendado essa questão no século passado, ao dizer: “o mal extremo é banal porque praticado por quem não pensa – isolados em bolhas, incapazes de dialogar. O bem tem profundidade e exige reflexão”.
Para uma família sem o básico, seiscentos reais ajudam a aliviar a fome. E a fome tem pressa. Programas Sociais não são perfeitos e podem sofrer desvios, mas ainda assim salvam famílias do sofrimento extremo e da morte. Não é preciso ser de esquerda para defender programas sociais; basta ser humano.
Recentemente, um suposto líder religioso afirmou que o Bolsa Família existe apenas para “ganhar votos em eleições”. Talvez ignore a realidade dos mais pobres ou simplesmente não se preocupe com ela. Esse suposto líder evangélico, arrecada grandes quantias em stand-up de comédia, a ponto de esbanjar dinheiro num churrasco folheado a ouro (que na verdade não é ouro, mas custa como tal) num restaurante em Londres -, e ostenta luxo, parecendo incapaz de enxergar a necessidade de milhões de brasileiros. Isso é desumanização.
A desumanização é “o ato e o efeito de desumanizar, ou seja, retirar o sentido real dos traços humanos”, dizem os psicólogos. Uma pessoa “se vê indiferente a dor de outra pessoa, sem empatia ou solidariedade”. As consequências aparecem no aumento da violência, dos vícios, da alienação e da indiferença social.
Existe uma relação entre desumanização e perda dos valores éticos e morais. Por isso um primeiro desafio: entender que somos diferentes, que temos ritmos diferentes, que não nos conhecemos de forma plena, que precisamos desenvolver a empatia em relação ao nosso semelhante. A outra questão vem dos testemunhos, milhares deles. Abaixo eu transcrevo dois (Registros do Instituto Humanitas Unisinos):
“Por muitos anos, na região Semiárida brasileira, a fome era tão naturalizada que chegava a ser passada como herança de pais para filhos. De norte a sul se ouvem histórias de pessoas que precisaram enfrentar os dias e noites sem ter se quer farinha pra pôr no “bucho”. “Fome, graças a Deus, eu não passei, mas minha avó teve e minha mãe e meu pai também teve”, lembra com tristeza, o agricultor Audeci Nunes da Silva, que mora na comunidade Lagoa de São João, na cidade de Princesa Isabel, na Paraíba”.
No norte de Minas Gerais e no Nordeste adentro, quando o assunto é fome, é corriqueiro se ouvir falar das mortes dos “anjinhos”, crianças recém-nascidas que morriam por conta da desnutrição, afinal do peito das mães subnutridas não se produzia o leite forte para alimentar os/as pequenos/as. As que conseguiam aprender a andar, posteriormente eram vítimas da cólera e de outras doenças causadas pela má qualidade da água consumida e pela desnutrição.
Para Evanuzia Araújo, filha de pai, vaqueiro e agricultor, e de mãe, dona de casa e agricultora como ela frisa, nas décadas de 70 e 80 e início dos anos 90, a morte de crianças era tão comum quanto o retrato da fome esculpido nos corpos magros e rostos sofridos das muitas pessoas que sem esperança, esvaziavam os sonhos assim como seus organismos esvaziavam-se de nutrientes essenciais à vida.
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