Prefeito se disfarça de morador de rua por quase 24 horas para testar na pele os serviços da própria prefeitura no interior de Santa Catarina
Esposa e filhos passaram por ele e não reconheceram. A equipe de assistência social o encontrou sem saber quem era. E o que ele viu sobre drogas nas ruas mudou os planos da gestão

O prefeito de Criciúma, no sul de Santa Catarina, saiu de casa às 5h30 de uma manhã de julho de 2025 usando barba postiça, peruca, roupas surradas e muita maquiagem.
Ninguém sabia. Nem a esposa, nem os filhos, nem o secretariado. Vagner Espíndola, o Vaguinho (PSD), queria saber como a própria prefeitura tratava quem vive na rua.
E decidiu descobrir do único jeito que achou justo: virando um deles.
A ideia era ficar 24 horas. Durou 20. E o que aconteceu nesse intervalo rendeu um vídeo que viralizou, uma série de decisões polêmicas e um debate que ainda não terminou.
15 minutos e o primeiro dinheiro na mão
Espíndola conta que mal tinha se sentado no meio-fio e em 15 minutos já tinha R$ 5 na mão, dados por um motorista no semáforo.
Ao longo do dia, recebeu café, comida e atenção de moradores comuns que pararam para ajudar sem saber quem ele era.
Por outro lado, o momento que ele mais repete em entrevistas é outro. Em determinado ponto do trajeto, sua esposa e seus dois filhos passaram por ele na calçada e seguiram andando. Não reconheceram o próprio marido e pai.
“Senti na pele o que é ser invisível”, disse Espíndola em entrevista ao Estadão.
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A equipe da prefeitura passou no teste sem saber que era um teste
Durante a noite, o prefeito foi até a região do Pinheirinho e se deitou sob a marquise da Igreja de Santa Bárbara.
Por volta da meia-noite, uma equipe da assistência social da prefeitura o encontrou, ofereceu ajuda e orientação.
Foi nesse momento que Espíndola se revelou e encerrou a experiência, com 20 horas de rua. A equipe levou um susto.
Mas o que o prefeito viu naquela abordagem foi que o serviço estava funcionando: alguém realmente foi até a rua, de madrugada, procurar quem precisava de acolhimento.
Para além disso, o que Criciúma oferece para quem vive na rua: a cidade mantém uma Casa de Passagem, onde o morador pode comer, tomar banho e dormir.
Há também o Centro POP, a Central de Empregos e clínicas de desintoxicação.
O programa inclui treinamento profissional: quando o morador consegue emprego e recebe o primeiro salário, é encaminhado para um aluguel.
Um número que chama atenção: desde o início de 2025, Criciúma reduziu o número de pessoas em situação de rua de 280 para 170.
O que ele viu sobre drogas mudou os planos
Durante as 20 horas, Espíndola passou por pontos de tráfico na cidade.
E voltou com uma frase que repetiu em todas as entrevistas: “A droga não é o motivo principal para a pessoa ir para a rua. Mas é 100% o motivo para ela não sair.”
Por fim, com base nessa experiência, o prefeito enviou à Câmara Municipal o projeto autorizando a internação involuntária de dependentes químicos graves, que acabou aprovado e virou lei municipal.
O argumento do prefeito: “Muitos dos que estão nas ruas não têm mais condição de gerir a própria vida, não sabem o que é bom para eles.
Já estou decidido e vou encaminhar, aliado ao novo protocolo, junto com as forças de segurança.”
O outro lado: profissionais de saúde mental alertam que internação involuntária sem acompanhamento adequado pode agravar o quadro em vez de resolver.
Contudo, a medida precisa de respaldo médico e judicial para cada caso individual.
Ação real ou marketing?
A iniciativa dividiu opiniões desde que o vídeo foi publicado. Um fotógrafo da prefeitura acompanhou o prefeito à distância durante toda a experiência, registrando tudo. O material foi editado e divulgado nas redes sociais de Espíndola.
Os críticos apontam que a ação foi planejada como produção de conteúdo, com maquiagem profissional, equipe de filmagem e divulgação calculada.
Para eles, 20 horas de disfarce não se comparam a uma vida inteira na rua, e transformar isso em vídeo banaliza a situação de quem realmente vive nessa condição.
Os que apoiam dizem que o resultado concreto importa mais do que a forma. A equipe de assistência social foi testada e passou.
Além disso, o prefeito viu de perto o que funciona e o que não funciona. E a gestão saiu da experiência com um pacote de medidas que, segundo a prefeitura, será apresentado nos próximos meses.
O que fica dessa história
Criciúma, com cerca de 225 mil habitantes, enfrenta um problema comum a muitas cidades médias brasileiras: o aumento da população em situação de rua e a dificuldade de combinar acolhimento, saúde mental, segurança pública e reinserção social.
Contudo, a experiência do prefeito disfarçado chamou atenção, gerou críticas e também virou argumento da gestão para defender mudanças na política municipal.
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