Prefeito se disfarça de morador de rua por quase 24 horas para testar na pele os serviços da própria prefeitura no interior de Santa Catarina

Esposa e filhos passaram por ele e não reconheceram. A equipe de assistência social o encontrou sem saber quem era. E o que ele viu sobre drogas nas ruas mudou os planos da gestão

Gabriel Yure Gabriel Yuri Souto -
prefeito se vestiu de mendigo para testar serviço da cidade
(Foto: Reprodução)

O prefeito de Criciúma, no sul de Santa Catarina, saiu de casa às 5h30 de uma manhã de julho de 2025 usando barba postiça, peruca, roupas surradas e muita maquiagem.

Ninguém sabia. Nem a esposa, nem os filhos, nem o secretariado. Vagner Espíndola, o Vaguinho (PSD), queria saber como a própria prefeitura tratava quem vive na rua.

E decidiu descobrir do único jeito que achou justo: virando um deles.

A ideia era ficar 24 horas. Durou 20. E o que aconteceu nesse intervalo rendeu um vídeo que viralizou, uma série de decisões polêmicas e um debate que ainda não terminou.

15 minutos e o primeiro dinheiro na mão

Espíndola conta que mal tinha se sentado no meio-fio e em 15 minutos já tinha R$ 5 na mão, dados por um motorista no semáforo.

Ao longo do dia, recebeu café, comida e atenção de moradores comuns que pararam para ajudar sem saber quem ele era.

Por outro lado, o momento que ele mais repete em entrevistas é outro. Em determinado ponto do trajeto, sua esposa e seus dois filhos passaram por ele na calçada e seguiram andando. Não reconheceram o próprio marido e pai.

“Senti na pele o que é ser invisível”, disse Espíndola em entrevista ao Estadão.

 

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A equipe da prefeitura passou no teste sem saber que era um teste

Durante a noite, o prefeito foi até a região do Pinheirinho e se deitou sob a marquise da Igreja de Santa Bárbara.

Por volta da meia-noite, uma equipe da assistência social da prefeitura o encontrou, ofereceu ajuda e orientação.

Foi nesse momento que Espíndola se revelou e encerrou a experiência, com 20 horas de rua. A equipe levou um susto.

Mas o que o prefeito viu naquela abordagem foi que o serviço estava funcionando: alguém realmente foi até a rua, de madrugada, procurar quem precisava de acolhimento.


Para além disso, o que Criciúma oferece para quem vive na rua: a cidade mantém uma Casa de Passagem, onde o morador pode comer, tomar banho e dormir.

Há também o Centro POP, a Central de Empregos e clínicas de desintoxicação.

O programa inclui treinamento profissional: quando o morador consegue emprego e recebe o primeiro salário, é encaminhado para um aluguel.

Um número que chama atenção: desde o início de 2025, Criciúma reduziu o número de pessoas em situação de rua de 280 para 170.


O que ele viu sobre drogas mudou os planos

Durante as 20 horas, Espíndola passou por pontos de tráfico na cidade.

E voltou com uma frase que repetiu em todas as entrevistas: “A droga não é o motivo principal para a pessoa ir para a rua. Mas é 100% o motivo para ela não sair.”

Por fim, com base nessa experiência, o prefeito enviou à Câmara Municipal o projeto autorizando a internação involuntária de dependentes químicos graves, que acabou aprovado e virou lei municipal.


O argumento do prefeito: “Muitos dos que estão nas ruas não têm mais condição de gerir a própria vida, não sabem o que é bom para eles.

Já estou decidido e vou encaminhar, aliado ao novo protocolo, junto com as forças de segurança.”

O outro lado: profissionais de saúde mental alertam que internação involuntária sem acompanhamento adequado pode agravar o quadro em vez de resolver.

Contudo, a medida precisa de respaldo médico e judicial para cada caso individual.


Ação real ou marketing?

A iniciativa dividiu opiniões desde que o vídeo foi publicado. Um fotógrafo da prefeitura acompanhou o prefeito à distância durante toda a experiência, registrando tudo. O material foi editado e divulgado nas redes sociais de Espíndola.

Os críticos apontam que a ação foi planejada como produção de conteúdo, com maquiagem profissional, equipe de filmagem e divulgação calculada.

Para eles, 20 horas de disfarce não se comparam a uma vida inteira na rua, e transformar isso em vídeo banaliza a situação de quem realmente vive nessa condição.

Os que apoiam dizem que o resultado concreto importa mais do que a forma. A equipe de assistência social foi testada e passou.

Além disso, o prefeito viu de perto o que funciona e o que não funciona. E a gestão saiu da experiência com um pacote de medidas que, segundo a prefeitura, será apresentado nos próximos meses.

O que fica dessa história

Criciúma, com cerca de 225 mil habitantes, enfrenta um problema comum a muitas cidades médias brasileiras: o aumento da população em situação de rua e a dificuldade de combinar acolhimento, saúde mental, segurança pública e reinserção social.

Contudo, a experiência do prefeito disfarçado chamou atenção, gerou críticas e também virou argumento da gestão para defender mudanças na política municipal.

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Gabriel Yure

Gabriel Yuri Souto

Formado em Marketing, é especialista em SEO e estratégias de crescimento de audiência. Atua na produção de conteúdo digital, com foco em posicionamento nos mecanismos de busca, análise de desempenho e desenvolvimento de pautas orientadas por dados.

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