Procrastinação não é preguiça: estudo de universidade identifica o circuito do cérebro que trava a motivação e a ação

Pesquisa revela que o cérebro pode bloquear o início de tarefas desagradáveis, mesmo quando a pessoa sabe que elas são importantes e recompensadoras

Gabriel Dias Gabriel Dias -
Procrastinação não é preguiça: estudo de universidade identifica o circuito do cérebro que trava a motivação e a ação
(Foto: Reprodução/Unsplash)

Quem nunca adiou uma tarefa importante mesmo sabendo que precisava fazê-la? Para a ciência, esse comportamento pode ter uma explicação muito mais complexa do que simples falta de disciplina.

Pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, identificaram um circuito cerebral que funciona como um verdadeiro “freio da motivação”, reduzindo a disposição para iniciar atividades associadas ao desconforto, ao esforço ou ao estresse. A descoberta ajuda a explicar por que a procrastinação nem sempre está ligada à preguiça.

O cérebro pode impedir o primeiro passo

O estudo, publicado na revista científica Current Biology, analisou o funcionamento do cérebro de macacos, modelo amplamente utilizado em pesquisas sobre comportamento e tomada de decisão devido às semelhanças com o sistema nervoso humano.

Durante os experimentos, os animais precisavam escolher entre uma recompensa pequena sem incômodos ou uma recompensa maior acompanhada de um estímulo desagradável, como um jato de ar no rosto.

Mesmo quando a recompensa compensava o desconforto, a motivação para iniciar a tarefa diminuía consideravelmente. Foi nesse momento que os cientistas identificaram a atuação de um circuito entre o estriado ventral e o pálido ventral, regiões ligadas ao processamento de recompensas e da motivação.

Segundo os pesquisadores, quando o cérebro prevê que uma atividade será desagradável, esse circuito envia um sinal capaz de reduzir o impulso para agir, funcionando como um mecanismo de proteção contra situações percebidas como aversivas.

Descoberta pode ajudar no tratamento de transtornos

Para confirmar a hipótese, os cientistas utilizaram uma técnica chamada quimiogenética para enfraquecer temporariamente essa comunicação entre as duas regiões cerebrais.

O resultado foi imediato: os animais passaram a iniciar as tarefas com muito mais facilidade, mesmo quando elas envolviam algum tipo de desconforto.

Embora a pesquisa ainda tenha sido realizada apenas em animais, os autores acreditam que a descoberta pode abrir caminho para novos estudos sobre procrastinação, depressão, síndrome de burnout e outros transtornos caracterizados pela perda de motivação.

Procrastinar não significa falta de vontade

Os resultados reforçam uma ideia que vem ganhando espaço na neurociência: procrastinar não significa, necessariamente, ausência de interesse ou falta de caráter.

Em muitos casos, o cérebro reconhece que determinada tarefa é importante e até recompensadora, mas, ao antecipar esforço, estresse ou frustração, ativa um mecanismo que dificulta justamente o primeiro passo.

Isso não elimina a importância de desenvolver hábitos saudáveis, organização e estratégias para lidar com o adiamento de tarefas. No entanto, a pesquisa sugere que compreender o funcionamento do cérebro pode tornar esse processo mais eficaz e menos baseado em culpa.

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Gabriel Dias

Gabriel Dias

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG). Apaixonado por Telejornalismo e Jornalismo Cultural.

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