Adeus, rachaduras na parede: cimento vivo que se conserta sozinho começa a ser usado por construtoras

Tecnologia com bactérias permite que o próprio concreto sele fissuras sozinho e reduz a necessidade de manutenção

Magno Oliver Magno Oliver -
rachadura com cimento
(Imagem: Ilustração)

Imagine um prédio que sente quando fica “ferido”. Uma pequena rachadura aparece na coluna, a umidade entra, e o próprio concreto começa a se costurar por dentro. Nada de operário, andaime ou balde de argamassa.

Parece cena de ficção científica, mas já sai do papel em obras de verdade. A tecnologia por trás disso ganhou um apelido curto e certeiro: cimento vivo. E ela pode redefinir a manutenção de pontes, viadutos e edifícios inteiros.

Antes de entender por que grandes construtoras já apostam nele, vale conhecer a história pouco convencional que colocou essa ideia de pé.

Como um microbiologista chegou ao concreto

A invenção nasceu na Universidade Delft, na Holanda, pelas mãos de um cientista de perfil incomum para o mundo das obras. Trata-se do microbiologista Hendrik “Henk” Jonkers, com carreira ligada à biologia marinha e ao comportamento de bactérias.

Ao lado do engenheiro civil Erik Schlangen, Jonkers passou anos investigando como levar para dentro de um material tão duro a capacidade de “autocura” observada em organismos vivos. A pesquisa foi tão relevante que o rendeu uma vaga entre os finalistas do prêmio Inventor Europeu do Ano em 2015.

O segredo está em dois ingredientes escondidos

O truque do cimento vivo mora em uma dupla misturada ainda na fabricação. De um lado, esporos das bactérias Bacillus pseudofirmus e Bacillus cohnii. De outro, cápsulas biodegradáveis de lactato de cálcio, que funcionam como alimento.

Esses microrganismos foram escolhidos por um motivo específico. Eles resistem ao ambiente extremamente alcalino do concreto e podem sobreviver dormentes por décadas, sem comida nem oxigênio. Ou seja, esperam pacientemente o momento certo de agir.

A química por trás da autorreparação

É aqui que a mágica acontece. Quando aparece uma fissura, água e ar entram pela abertura e chegam até as bactérias adormecidas. Assim, elas despertam.

Uma vez ativos, os microrganismos passam a consumir o lactato de cálcio disponível. Como resultado desse processo, chamado de biomineralização, produzem calcário. Ou seja, o próprio concreto fabrica, sozinho, o material que fecha a rachadura.

Portanto, essa reação sela os canais internos e impede que umidade, sais e outros agentes cheguem à armadura de aço. Dessa forma, a corrosão das barras de ferro, uma das principais causas de colapso em estruturas antigas, dá um passo atrás.

Onde a tecnologia já está sendo usada

A pesquisa saiu do laboratório e chegou ao canteiro. Testes de longa duração já foram feitos em construções na cidade de Breda, na Holanda, submetidas a diferentes tipos de intempéries. Além disso, o material aparece hoje em três formatos distintos:

  • Concreto autorreparável: mistura pronta com bactérias já embutidas, para novas construções;
  • Argamassa de reparo: aplicada em pontos específicos de estruturas já existentes;
  • Solução líquida: usada após um dano agudo, como uma “injeção” corretiva.

Na prática, a tecnologia costuma ser adotada primeiro em locais críticos. Ou seja, em fundações profundas, túneis e obras expostas a alta umidade, onde a manutenção convencional é cara e difícil.

Mais caro na obra, bem mais barato no longo prazo

É bem verdade que o cimento vivo custa mais do que o convencional no início. Esse é um dos motivos pelos quais ele ainda não é padrão em qualquer construção.

No entanto, a conta vira ao longo do tempo. Como o material pode resistir por mais de 200 anos e reduz drasticamente a necessidade de reparos, ele compensa o investimento inicial. Além disso, ao estender a vida útil das estruturas, ajuda a diminuir emissões de carbono ligadas à produção de novo cimento.

Um novo padrão para as cidades do futuro

O impacto vai muito além da economia. Portos, viadutos, pontes e túneis são justamente o tipo de infraestrutura que envelhece mal em contato com água e sal. Ou seja, são os candidatos ideais para o cimento vivo.

Assim, uma nova geração de obras começa a se organizar em torno de um conceito simples e poderoso. O concreto deixa de ser um material passivo e ganha, aos poucos, uma resposta inteligente ao próprio desgaste, aproximando cada vez mais a construção civil da biotecnologia.

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Magno Oliver

Magno Oliver

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Escreve para o Portal 6 desde julho de 2023.

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