De Frank Sinatra a presidente dos Estados Unidos: astros que fizeram de Anápolis seu refúgio

Estrelas de Hollywood passaram temporadas em Anápolis, a convite de atrizes estadunidenses que compraram terras no Cerrado

Gabriel Dias Gabriel Dias -
De Frank Sinatra a presidente dos Estados Unidos: astros que fizeram de Anápolis seu refúgio
Atrativo não era só a paisagem, mas o anonimato. Frank Sinatra e Ronald Reagan, respectivamente. (Imagem: Reprodução)

Astros como Frank Sinatra, Clark Gable e Ronald Reagan, este último ainda ator, anos antes de se tornar presidente dos Estados Unidos, estão entre os nomes de Hollywood que passaram um tempo nos arredores de Anápolis, entre as décadas de 1950 e 1970.

O destino de todos esses nomes era a ilustre “Nossa Fazenda Halliday”, da atriz Mary Martin, conhecida por interpretar Peter Pan na Broadway e na televisão, e do produtor Richard Halliday.

Fazenda onde Mary Martin morou em Anápolis, próximo à BR-153, no sentido Anápolis-Ceres. (Foto: Rayka Martins)

Fazenda onde Mary Martin morou em Anápolis, próximo à BR-153, no sentido Anápolis-Ceres. (Foto: Rayka Martins)

Os atores chegavam pelo Aeroporto de Goiânia e, depois de 1960, pelo de Brasília. Os moradores locais costumavam perceber a movimentação inusitada, mas poucos compreendiam a dimensão desses encontros e desencontros.

Mas a fazenda não foi o único motivo que trouxe Hollywood ao Cerrado. A atriz Janet Leigh, eternizada pelo clássico Psicose (1960) de Alfred Hitchcock, também esteve em Anápolis, mas por razões bem diferentes das que atraíam os hóspedes de Mary Martin.

A paz no anonimato

A lista de visitantes varia conforme a fonte. O ensaio Goyaz Conquers Hollywood, do pesquisador Matheus Pestana, publicado pela revista MUBI Notebook em 2021 a partir do acervo do Instituto Jan Magalinski, cita Cary Grant, Frank Sinatra, Clark Gable e Claudette Colbert entre os que preferiam a tranquilidade do interior à agitação do Rio de Janeiro, então capital do país.

Uma apuração realizada pelo Jornal Opção registra uma passagem de Ronald Reagan por Anápolis na década de 1950, ainda como ator, a convite de Mary Martin.

O atrativo não era só a paisagem, mas o anonimato. Numa cidade do interior goiano dos anos 1950 e 1960, sem imprensa especializada e a milhares de quilômetros de Los Angeles, um rosto conhecido nas telas americanas podia circular sem virar notícia.

Por que Anápolis?

O fluxo de estrelas se explica, principalmente, pela profissão do casal. Halliday era produtor teatral e Martin, uma das maiores estrelas da Broadway: os dois mantinham contato com produtores, músicos e diretores, o que tornava natural o convite para uma temporada na fazenda.

A propriedade era reservada, e apenas convidados entravam. No local, eles criavam gado e mantinham uma grande granja, além de plantações.

Em entrevista ao jornalista Ari Cunha, do Correio Braziliense, em maio de 1964, Martin contou que ainda não tinha vacas, mas já somava cinco mil galinhas, e declarou querer se aposentar nos Estados Unidos para viver definitivamente em Goiás.

Martin vendia a produção no Mercado Municipal de Anápolis e em Brasília. Em 1970, abriu no centro da cidade a boutique “Nossa Loja”, que reunia salão de beleza, produtos importados e criações próprias, e atraía clientes de fora do estado.

O casal ficou conhecido como Dona Maria e Seu Ricardo. O filho de Martin, Larry Hagman — conhecido por interpretar Tony Nelson no seriado Jeannie é um Gênio (1965-1970) e JR Ewing em Dallas (1978-1991) —, passou temporadas na fazenda, embora não tenha sido criado ali.

Como Hollywood encontrou o Cerrado

Mary Martin e Richard Halliday vieram a Anápolis por influência de outro casal de artistas americanos instalado na região. A atriz chegou a convite de Janet Gaynor, a primeira mulher a ganhar um Oscar, pelo conjunto da obra: Sétimo Céu (1927), Aurora (1927) e O Anjo das Ruas (1928).

Gaynor conheceu a região em 1954, quando veio ao Brasil para a primeira edição do Festival de Cinema de São Paulo, após descobrir que Joan Lowell estava vendendo terras no interior do país. Ela e o marido, o figurinista Gilbert Adrian, compraram uma fazenda no ano seguinte e a batizaram de The Amazon.

O convite a Mary Martin chegou de forma improvável. Em 1955, depois da temporada de Peter Pan na Broadway, a atriz viajava de navio com a família quando a bagagem se extraviou e o itinerário mudou, levando-a ao porto de Santos.

A mãe de Gaynor havia lido numa coluna social americana que os Halliday passariam pelo Brasil e avisou a filha, que mandou entregar uma carta no porto. Martin aceitou o convite e atravessou 800 quilômetros até Anápolis.

Gilbert Adrian, o figurinista do Cerrado

Gilbert Adrian foi o principal figurinista da Metro-Goldwyn-Mayer entre as décadas de 1920 e 1940, responsável pelo visual de O Mágico de Oz (1939) e de estrelas como Greta Garbo e Joan Crawford.

Casou-se com Janet Gaynor em 1939 e, depois de deixar o cinema, dedicou-se à própria grife de moda e à pintura. Em Anápolis, longe dos estúdios, pintava nas horas vagas e chegou a visitar Goiânia e as obras de Brasília. A fazenda, sem energia elétrica, era considerada boa para os problemas cardíacos dele.

Nas horas vagas na fazenda, Adrian se dedicava à pintura. (Foto: Arquivo pessoal)

Nas horas vagas na fazenda, Adrian se dedicava à pintura. (Foto: Arquivo pessoal/Jairo Leite)

Em 1959, de volta aos Estados Unidos para criar os figurinos do musical Camelot, da Broadway, morreu de ataque cardíaco fulminante.

Do chuveiro do Bates Motel ao centro de Anápolis

A consagrada atriz norte-americana Janet Leigh, eternizada por sua atuação em Psicose (1960), também marcou presença em Anápolis na década de 1960, para participar da inauguração do Centro Cultural Brasil–Estados Unidos.

A visita contou com a participação da União Estudantil de Anápolis (UESA), que colaborou na recepção e nas atividades do evento, marcando um importante momento de intercâmbio cultural entre o município e os Estados Unidos.

Cena de 'Psicose' (1960). (Reprodução/Universal Pictures)

Cena de ‘Psicose’ (1960). (Reprodução/Universal Pictures)

Joan Lowell, a atriz que abriu a porteira

A primeira foi Joan Lowell (1902–1967), que atuou em Em Busca do Ouro (1925), de Chaplin. Em 1935, apaixonou-se pelo capitão Leek Bowen a caminho da América do Sul e o casal veio para o Centro-Oeste atrás do sonho da “Marcha para o Oeste”.

Em 1940, os dois se mudaram para Anápolis. Joan virou “Dona Joana”, abriu a imobiliária Terra da Promissão e passou a vender propriedades rurais a norte-americanos.

Joan Lowell no cartaz do filme “Garota Aventura”, de 1934. (Foto: Reprodução/IMDB)

Joan Lowell no cartaz do filme “Garota Aventura”, de 1934. (Foto: Reprodução/IMDB)

Publicou o livro Terra Prometida (1952), relatando sua vinda ao Cerrado. O livro virou best-seller nos Estados Unidos e despertou a curiosidade de Hollywood: um ano depois, jornais americanos anunciavam que Joan Crawford estrelaria a adaptação para o cinema, projeto que nunca saiu do papel.

A intermediação nem sempre foi limpa. Quando Martin e Halliday enviaram dinheiro para que Joan comprasse suas terras, o casal foi recebido a tiros pelos verdadeiros donos da propriedade. O cheque de devolução não tinha fundo. A situação só se resolveu com a ajuda do comerciante Gibran El-Hadj, que se tornou representante do casal no Brasil.

Viúva desde 1961, quando Leek Bowen foi atropelado em Brasília, Joan morreu em novembro de 1967, na capital.

O que restou dessa história

Richard Halliday morreu de pneumonia em 1973, em Brasília. Mary Martin voltou aos Estados Unidos e não retornou. A casa que recebeu as estrelas está em ruínas.

A história vem sendo reconstituída pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Cultural Professor Jan Magalinski, sob presidência do historiador Jairo Leite, cujo acervo reúne as fotografias e os documentos que sustentam boa parte do que se sabe hoje sobre o período, e foi contada no documentário Hollywood no Cerrado (2011), de Armando Bulcão e Tânia Montoro.

Jairo guiou os visitantes pela história do figurinista. (Foto: Arquivo pessoal/Jairo Leite)

Jairo guiou os visitantes pela história do figurinista. (Foto: Arquivo pessoal/Jairo Leite)

Jairo atualmente tem o plano de construir um Museu da Imagem e do Som em Anápolis. Em entrevista ao Portal 6, afirmou que o grande acervo sobre a presença dessas celebridades em Anápolis seria uma parte importante desse museu.

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Gabriel Dias

Gabriel Dias

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG). Apaixonado por Telejornalismo e Jornalismo Cultural.

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