Há 155 anos, uma pequena capela ajudou a dar origem a Anápolis; conheça a história

Celebração reuniu fiéis no domingo (1º) e relembrou a trajetória da primeira capela, construída quando a cidade ainda começava a se formar

À esquerda, a Igreja Sant’Ana, em Anápolis, possivelmente na década de 1940; à direita, o atual Santuário Sant’Ana. (Fotos: Reprodução/@santuariosantana)
À esquerda, a Igreja Sant’Ana, em Anápolis, possivelmente na década de 1940; à direita, o atual Santuário Sant’Ana. (Fotos: Reprodução/@santuariosantana)

A história de Anápolis está diretamente ligada a uma pequena capela dedicada a Sant’Ana, construída no século XIX, quando a região ainda era formada por propriedades rurais e não possuía a organização urbana que conhecemos atualmente.

Nesta terça-feira (03), completam-se 155 anos da autorização para a bênção daquele espaço religioso, considerado um dos marcos da formação do município.

Para celebrar a data, o Santuário Sant’Ana realizou, no domingo (1º), uma missa presidida pelo bispo diocesano Dom Waldemar Passini Dalbello, com a participação da comunidade católica.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Ao Portal 6, o Frei Alex, atual pároco do Santuário Sant’Ana, a celebração ocorreu durante a Solenidade de Todos os Santos e foi marcada por uma reflexão sobre a trajetória da comunidade religiosa.

A missa relembrou a história que começou antes mesmo da construção da primeira igreja e que, ao longo das décadas, acompanhou o crescimento de Anápolis.

“Na celebração, Dom Waldemar destacou a fé daqueles que iniciaram a comunidade de forma simples, numa capelinha humilde e que gerou tantos frutos durante todos esses anos”, relatou.

Uma história que começou com uma imagem de Sant’Ana

Em entrevista ao Portal 6, o historiador Jairo Alves Leite, presidente do Instituto Jan Magalinski, explicou que a origem da devoção remonta a 1859 e está relacionada a um episódio envolvendo Ana das Dores de Almeida, mãe de Gomes de Souza Ramos.

Naquele ano, ela viajava de Jaraguá para Bonfim quando decidiu pernoitar nas proximidades do Córrego das Antas. Durante a parada, percebeu que um dos animais utilizados no trajeto havia desaparecido.

Quando o encontraram, o animal apresentava dificuldades para se levantar. Conforme o relato tradicional, após retirarem de seu dorso uma imagem de Sant’Ana, ele conseguiu ficar de pé.

“Dona Ana interpretou o acontecimento como um sinal da vontade da santa de permanecer naquele lugar e fez a promessa de doar a imagem à primeira capela que fosse construída na região”, explicou Jairo.

A promessa começou a ganhar forma por volta de 1870, quando seu filho, Gomes de Souza Ramos, retornou à localidade e participou das articulações com fazendeiros para a doação de terras destinadas ao patrimônio de Sant’Ana.

Foto alterada por IA por Jairo Alves Leite. Nela, Dona Ana das Dores e seu filho Gomes de Souza Ramos seguram uma uma imagem de Sant'Ana. (Foto: Arquivo/Jairo Leite)

Foto alterada por IA por Jairo Alves Leite. Nela, Dona Ana das Dores e seu filho Gomes de Souza Ramos seguram uma uma imagem de Sant’Ana. (Foto: Arquivo/Jairo Leite)

A área abrangia parte significativa do atual Centro de Anápolis, entre as proximidades dos córregos das Antas e Catingueiro.

De acordo com o historiador, o território compreendia regiões hoje identificadas pelas avenidas Brasil e Xavier de Almeida, além das imediações das ruas Miguel João e Amazílio Lino.

Foi nesse espaço que começou a construção de uma pequena capela, com paredes de taipa e piso de terra batida.

“Ao redor da capela foram sendo concedidos lotes para a construção de moradias, formando o núcleo inicial do povoado”, destacou.

A instalação do templo, portanto, não representou apenas o início de uma comunidade religiosa, mas também contribuiu para a ocupação e a organização do território.

“Assim, a igreja teve papel fundamental não apenas na religiosidade, mas também na própria organização urbana de Anápolis”, afirmou Jairo.

A capela que ajudou a formar a cidade

Em 3 de novembro de 1871, o padre Francisco Inácio da Luz foi designado capelão e recebeu autorização diocesana para realizar a bênção da primeira capela dedicada a Sant’Ana.

O religioso já frequentava a região desde o ano anterior, deslocando-se de Pirenópolis para celebrar os sacramentos.

Igreja Sant'Ana de Anápolis

Padre Francisco Inácio da Luz, primeiro pároco da antiga Capela de Sant’Anna. (Foto: Arquivo/Jairo Leite)

Dois anos depois, em 1873, o povoado foi elevado à condição de Freguesia de Sant’Ana das Antas.

A influência religiosa também pode ser identificada nas denominações utilizadas durante os primeiros anos de formação da cidade.

“Uma curiosidade pouco conhecida é que as primeiras ruas de Anápolis receberam nomes de santos católicos”, explicou o historiador.

A atual Rua Coronel Batista, por exemplo, era chamada de Rua São Bento, enquanto a Rua Primeiro de Maio recebeu o nome de São José.

Já a Rua Manoel da Abadia era conhecida como Rua São Pedro. A região da atual Rua Desembargador Jaime também esteve associada às denominações de São Joaquim e Santo Antônio.

O espaço onde ficava a antiga igreja era chamado de Largo de Sant’Ana, correspondente à atual Praça Santana.

Outro elemento importante da história local estava ao lado da capela.

Segundo Jairo, o primeiro cemitério do povoado, conhecido como Campo Santo, funcionou nas proximidades do espaço onde atualmente se encontra a cripta do santuário.

“Ali foram realizados os primeiros sepultamentos do povoado, a partir de 1871 até 1882, quando foi transferido para onde fica a atual Praça Americano do Brasil”, detalhou.

A presença do cemitério e das primeiras moradias ao redor do templo ajuda a compreender como a igreja se tornou uma referência para a organização da comunidade.

Da pequena capela ao atual Santuário Sant’Ana

A igreja passou por transformações importantes ao longo do século XX, especialmente com a chegada dos frades franciscanos a Anápolis.

De acordo com Jairo, a vinda dos religiosos ocorreu por iniciativa de Dom Emanuel Gomes de Oliveira, então arcebispo de Goiás, que convidou integrantes da Província Franciscana do Santíssimo Nome de Jesus, com origem em Nova York, nos Estados Unidos.

A chegada dos primeiros religiosos ao Brasil aconteceu no final de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, em um período de dificuldades para as viagens internacionais.

“Por questões de segurança, realizaram uma longa viagem terrestre pelos Estados Unidos até alcançarem o Pacífico, de onde seguiram de navio contornando a América do Sul, evitando as rotas mais perigosas do Atlântico, ameaçadas pelos submarinos alemães”, relatou Jairo.

Frades OFM norte-americanos na porta da Casa Paroquial (Atual Museu Histórico de Anápolis) recebendo visitas de religiosos e leigos, na década 40. (Foto: Arquivo/Jairo Leite)

No ano seguinte, o grupo principal se estabeleceu em Anápolis.

Inicialmente, os frades ficaram em uma residência da família de José da Silva Batista, imóvel onde atualmente funciona o Museu Histórico de Anápolis.

A casa foi adaptada para as atividades paroquiais até a conclusão do Convento de Sant’Ana, em 1947.

Naquele mesmo ano, os franciscanos iniciaram a construção de um novo templo, ao lado da antiga igreja.

“A partir de 1947, os franciscanos deram início à construção do atual templo, ao lado da antiga igreja, que era voltada para o nascente”, explicou o historiador.

Fotografias históricas mostram diferentes etapas dessa transformação, incluindo a estrutura anterior, os andaimes utilizados nas obras e o desenvolvimento da fachada que caracteriza o santuário atual.

Registros da década de 1950 também documentam a construção, quando o novo edifício já começava a assumir suas características arquitetônicas.

Construção da Igreja Matriz de Sant’Ana, década de 1950. (Foto: Reprodução/Redes sociais/@santuariosantana)

Construção da Igreja Matriz de Sant’Ana, década de 1950. (Foto: Reprodução/Redes sociais/@santuariosantana)

Segundo Frei Alex, a imagem de Sant’Ana que deu origem à devoção continua fazendo parte do patrimônio religioso da comunidade.

“O único bem que ainda temos dos primórdios da igreja é a imagem doada pela dona Ana das Dores”, afirmou.

A peça está diretamente relacionada ao episódio de 1859, que, conforme a tradição religiosa, motivou a promessa de construção da primeira capela.

Uma tradição que atravessa gerações

A devoção a Sant’Ana também marcou o calendário religioso e cultural de Anápolis.

Tradicionalmente celebrada em 26 de julho, a festa dedicada à padroeira reuniu, durante décadas, moradores em procissões luminosas, barraquinhas, bingos comunitários e outras atividades populares.

A celebração se tornou um dos acontecimentos religiosos mais aguardados da região, acompanhando diferentes gerações de famílias anapolinas.

Mais recentemente, a antiga paróquia foi elevada à condição de Santuário Diocesano, a pedido dos franciscanos, durante uma solenidade dedicada a Sant’Ana e São Joaquim.

O ato oficial foi realizado por Dom Waldemar Passini Dalbello, então bispo coadjutor da Diocese de Anápolis.

Para Jairo, a trajetória da igreja precisa ser compreendida para além das celebrações religiosas e das transformações arquitetônicas.

“Quando falamos da Igreja de Sant’Ana, não estamos falando apenas de um edifício religioso. Estamos falando de um patrimônio histórico, cultural, urbano e espiritual que acompanha a própria formação de Anápolis desde o século XIX”, destacou.

A relação entre a comunidade religiosa e o desenvolvimento do município também é ressaltada por Frei Alex, que considera a fé um dos elementos responsáveis pela formação da identidade local.

“A cidade cresceu com uma identidade religiosa muito bem definida, com a busca sincera de viver os valores da fé, a partir dos ensinamentos de Jesus Cristo”, afirmou.

Para o religioso, essa herança continua influenciando a maneira como a comunidade compreende seus valores e sua participação na sociedade.

“Isso ajuda a moldar o rosto de uma sociedade de bem, que coloca Deus em primeiro lugar e comprometida com o bem comum”, concluiu.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Lara Duarte

Lara Duarte

Jornalista e pós-graduanda em Ciência Política, com atuação em jornal impresso, assessoria de comunicação e produção, reunindo experiência em diferentes frentes da comunicação.