Conheça a ilha brasileira onde carros são proibidos há décadas

Modelo de mobilidade sem automóveis moldou o urbanismo, preservou a natureza e definiu o ritmo de vida local

Magno Oliver Magno Oliver -
Conheça a ilha brasileira onde carros são proibidos há décadas
(Foto: Captura de Tela/YouTube)

Em um país marcado pelo trânsito intenso e pela expansão urbana acelerada, um pequeno território no litoral da Bahia segue um caminho oposto há décadas. Em Morro de São Paulo, distrito localizado na Ilha de Tinharé, os carros simplesmente não fazem parte da paisagem — uma escolha que transformou a organização do espaço, a relação com o meio ambiente e a própria identidade da comunidade.

O acesso ao distrito ocorre exclusivamente por embarcações ou pequenas aeronaves, e essa condição, mantida ao longo do tempo, eliminou a necessidade de vias asfaltadas.

No lugar do concreto, surgiram ruas de areia e pedra, onde caminhar é a principal forma de deslocamento. Bagagens seguem em carrinhos manuais, enquanto mercadorias chegam pelo mar, reduzindo intervenções estruturais e impactos ambientais.

A ausência de veículos não é apenas um detalhe logístico, mas um fator decisivo para conter o crescimento desordenado. Com isso, áreas sensíveis da Mata Atlântica e da faixa costeira permaneceram preservadas, criando um raro equilíbrio entre ocupação humana e conservação ambiental.

A organização territorial reflete essa lógica. As praias numeradas ajudam a orientar visitantes, mas cada trecho revela um perfil distinto.

A Segunda Praia concentra bares, eventos e atividades aquáticas, enquanto a Quarta e a Quinta Praias mantêm extensões quase intocadas, com piscinas naturais que surgem na maré baixa. Entre esses extremos, pousadas e residências dividem espaço com áreas de vegetação protegida.

Mesmo assim, a limitação física da ilha não elimina desafios. A valorização imobiliária e o aumento do custo de vida se intensificam em períodos de alta temporada, resultado da pressão turística constante. Ainda assim, o próprio formato do território funciona como um freio natural à expansão excessiva.

O passado histórico também marca o cenário. No ponto mais alto da ilha, as ruínas da Fortaleza do Tapirandu, do século XVII, lembram o período colonial e a estratégia de defesa da Baía de Todos os Santos. O farol e a Igreja de Nossa Senhora da Luz completam o conjunto arquitetônico que serve como referência cultural e visual.

Com o passar dos anos, o turismo se consolidou como o principal motor econômico local. Apesar disso, as restrições de acesso e o controle territorial ajudam a manter os impactos ambientais sob controle, ainda que a dependência da atividade turística seja elevada.

O clima tropical garante calor ao longo do ano, com chuvas concentradas entre o outono e o início do inverno.

Entre julho e outubro, outro espetáculo natural reforça a singularidade da região: baleias-jubarte passam pelo litoral durante sua rota migratória, segundo registros ambientais.

Entre trilhas, barcos e pores do sol vistos do alto do morro, Morro de São Paulo segue como um exemplo raro de lugar onde a ausência de carros não é apenas regra, mas parte de uma política informal que preserva a paisagem, desacelera o tempo e define o modo de viver.

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Magno Oliver

Magno Oliver

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Escreve para o Portal 6 desde julho de 2023.

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