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Bêbados no volante: números que chocam, relatos de dor e depoimento de quem lida com irresponsáveis no trânsito de Anápolis

Reportagem especial descobriu quantas vítimas já foram enterradas em 2020 e retrata as situações mais absurdas vividas por policiais, que trabalham sem estrutura e reconhecimento

Rafaella Soares Rafaella Soares -

Nem nos piores pesadelos Tiago Rodrigues imaginaria passar dias em um hospital, vendo o único filho, de apenas nove anos, lutar para sobreviver depois de um grave atropelamento.

A realidade é ainda mais dolorosa quando o pai lembra que o garotinho saudável, para quem sempre dedicou à vida, foi esmagado por um motorista bêbado enquanto brincava em casa, no Jardim Esperança, bairro localizado no extremo da região Sul de Anápolis.

“Meu filho está passando muita dificuldade. A perna está deformada. Não está descartada a amputação porque ele corre o risco de pegar uma infecção, mas estamos em campanha de oração, pedindo a Deus para que não precise”, disse ao Portal 6.

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Deus. Também é a ele que Tiago agradece por ter protegido a sobrinha de três anos, que foi a segunda criança atropelada pelo veículo, mas que sofreu apenas ferimentos leves.

Além de desejar que o filho saia do hospital “com a perninha dele e com a saúde de volta”, o anseio da família é que os ‘criminosos do trânsito’ tenham mais amor pela vida e não dirijam perigosamente.

“Aqueles que forem beber, não dirijam, porque podem atingir até alguém da própria família. Acidente não escolhe vítima. Vai que fosse um parente dele lá. As pessoas precisam pensar antes de beber”, pediu Tiago.

53 mortes

Esse triste enredo, que pegou de surpresa a família de Tiago, é também a grande batalha vivenciada por outras várias famílias anapolinas. Apenas neste ano, 53 pessoas já morreram no trânsito do município.

Desde que foi criada na cidade, há cerca de seis anos, a Delegacia Especializada em Investigação de Crimes de Trânsito (DICT) já atendeu incontáveis casos de pessoas que perderam entes queridos ou se machucaram gravemente por imprudências no trânsito.

“A morte mais dolorida que existe é a do transito. Você almoça com a pessoa e ela volta no caixão. São nomes, são pessoas que não têm doença, saem e não voltam. Isso é chocante porque essa dor é muito distante da sociedade, as pessoas ainda ignoram ela”, afirmou Manoel Vanderic, titular da DICT Anápolis.

Dentre os fatores que mais colaboram para essas fatalidades estão o uso do celular no volante, ingestão de bebidas alcoólicas, alta velocidade e imprudência.

(Foto: Divulgação)

Com tudo isso, a situação da DICT se torna cada vez mais caótica, pois além de investigar casos que levam muito tempo e são extremamente burocráticos, a pequena equipe também precisa atender os idosos, consumidores e deficientes.

Punição

Uma das razões pelas quais os índices de crimes desta natureza continuam crescendo, segundo a DICT, é o sentimento de impunidade.

“O Brasil é um dos países com menor pena para os crimes de trânsito. Em países desenvolvidos, matar ou lesionar alguém no trânsito dá cadeia. No Japão mesmo a prisão é perpetua. O que vejo é jovens se gabando de praticarem o crime, postando selfie depois de pagar fiança e sendo aplaudidos como vítimas do estado”, relatou Vanderic.

(Foto: Divulgação)

“A lei tem uma cultura garantista de tratar como crime culposo (não intencional). Então, tem que ter pressão para tratar os criminosos com a devida reprimenda e classificação. Enquanto isso, os amigos e família precisam condenar e apontar dedo para que não se sintam na vantagem de estarem correndo risco”, acrescentou o delegado.

Altos custos

Apenas em 2020, o Hospital Estadual de Urgências de Anápolis Dr. Henrique Santillo (HUANA) já contabilizou 448 pacientes que deram entrada após se lesionarem no trânsito. Foram 935 em 2018 e 921 em 2019.

Pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no último mês de junho aponta que o Brasil gasta cerca de R$ 340 bilhões com acidentes de trânsito, incluindo custos hospitalares e perda de produção.

A reportagem do Portal 6 solicitou ao HUANA o custo aproximado de cada paciente que dá entrada em Anápolis, mas não obteve retorno até o momento da publicação.

Direção Consciente

Há cerca de dois anos, os agentes da DICT iniciaram a Direção Consciente, uma operação que sai pelas ruas de Anápolis durante às madrugadas para impedir que motoristas dirijam bêbados e provoquem grandes tragédias.

Apesar de saber que a situação da cidade já era complicada, a equipe se surpreendeu com o que encontrou: um verdadeiro cenário de guerra e violência. Até hoje, contando com uma única viatura, os agentes sozinhos já flagraram milhares de bêbados no volante e prenderam mais de 600.

“De madrugada, chuto que de cada dez carros que paramos, em oito os motoristas estão sob efeito de álcool. É homem, mulher, jovem, idoso, analfabeto, pós-graduado, médico, advogado, empresário, jurista. Independente de classe social, está arraigado na consciência das pessoas a prática de dirigir depois de beber e todos têm certeza que não vai acontecer nada, até que acontece”, disse Vanderic.

A contradição também é uma questão percebida nas operações, lembra o delegado. É que muitos defendem que bêbados não são bandidos, mas pedem por linchamento quando causam um acidente.

“As famílias quando recebem ligação ficam bravas com o policial que prendeu e não com o filho que bebeu. Já tivemos grupos políticos, em gestões passadas, alegando que estávamos prejudicando os bares e incomodando os motoristas ao voltarem para casa depois de se divertirem”, contou.

“O motorista bêbado é um criminoso de alta periculosidade. Já pegamos gente dirigindo bêbado com amigo deitado no capô do carro, praticando sexo, na contramão, em alta velocidade, subindo na calçada, andando dentro de praça, com farol apagado. Nada mais nos surpreende aqui”, confessou.

(Foto: Divulgação)

Mesmo com tantos casos tristes, a equipe se sente orgulhosa. É que há alguns poucos casos de pessoas que já foram presas durante as operações e voltaram na DICT para agradecer, pois aprenderam a lição e não repetiram mais o erro.

“Tenho certeza que a ação evita uma pequena parte dos acidentes. Uma vida sendo salva porque prendemos o motorista antes do acidente já vale a pena. Assim não teremos que sentar uma mãe no banco da delegacia e ouvir ela chorar o desespero de enterrar um filho prematuramente”, sustentou Vanderic.

Atualmente, os policiais da DICT possuem um bafómetro passivo, que não precisa ser assoprado, e filmam todas as abordagens, para que fiquem registradas e evitem questionamentos de abuso de autoridade ou sobre a legalidade da operação.

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